ELIZABETH LORENZOTTI, poeta paulistana, jornalista, escritora, fez mestrado em comunicação (USP) e é doutoranda em literatura brasileira. Passou a infância em Poços de Caldas(MG) e voltou pra lá no ano passado. Está iniciando carreira acadêmica. Publicou Suplemento Literário-Que falta Ele Faz!, Tinhorão, o Legendário e o livro de poemas As Dez Mil Coisas(2011).
Visita
No estranho caminho de Santiago
os magos perdem as botas
e as mulheres ganham sandálias de saltos altos
Nas veredas
Saltitam
Gaviões e passarinhos
Criado-mudo
O rosário de jade sobre a Teogonia
O livro de Leonardo
Meu caderno de sonhos
Cristais de gengibre
A caixinha de Alhambra
A pedra cor-de-rosa
O hexágono da China
Potinhos de pedra-sabão de Minas
A obra em negro
Os escritos de Blake:
Tudo existe porque tem um nome
Declaração
Abúlica, nevrálgica, efêmera
Helênica, epidérmica, esdrúxula
itálica, inédita, neófita
Ãnclito, másculo, cáustico
seráfico, trópico, feérico
Amor à s proparoxÃtonas
Visita
Fincado nos pÃncaros
majestoso enigma
espreita, de perfil
Memórias de cordilheiras
em meio à neurose
IncorruptÃvel
no secular vÃcio da carniça
observa o ciclo da caça
RuÃdos esganiçados não te assustam
Parabólicas captam todas as aparências
ExcluÃdo do olhar humano
ImpassÃvel urubu urbano
RITA MOREIRA (1944) poeta paulistana, autodidata, estreou muito jovem, com o livro Maria Morta em Mim(1962). Seguiram-se A Hora do Maior Amor (1965) e Perscrutando o Papaia (1999). Recebeu elogios de Menotti del Picchia e Paulo Bonfim. Durante vários anos foi redatora da Abril, morou em Nova Iorque e tornou-se vÃdeo-documentarista de sucesso..Muito jovem foi letrista parceira de Paulinho Nogueira (Moça da Chuva e Historinha, entre outras).
IPSIS
A palavra é ainda
a mais sublime invenção.
Mas tem tanta coisa linda
que escapa à nomeação!
HIMALAIAS
Mulheres fortes, centradas,
essas mulheres maduras
eternamente animadas
dum fogo que rodopia
pra além dos filhos criados,
dos romances resolvidos,
peagadês concluidos,
himalaias escalados...
E esse olhar sem pensamentos,
o caminho aberto em frente,
com tanta promessa linda
de mais himalaia ainda.
Energia tão valente
que nem sabe o quanto é.
Essas mulheres fortes
que sabem cair de pé,
que sabem fazer os cortes
nos momentos mais precisos
de repente tão suaves
desmanchando-se em sorrisos...
Mulheres firmes, inteiras,
que se preocupam com o mundo,
bem além dos próprios netos.
Que sabem da dor das aves
cobertas de óleo nas praias.
Da mudança necessária
nos hábitos de consumo.
Da importância nenhuma
dos elogios ou vaias.
Da tragédia dos sem-teto,
dos problemas de afeto
das irmãs e irmãos mais frágeis.
Essas mulheres tão ágeis,
tão presentes, tão futuras,
não se perdem em procuras
nem tem temores noturnos.
Não tomam Prozac, calmante,
não vão no que as mÃdias ditam.
Desprezam intoxicantes –
religiosas, meditam.
-- As almas dessas mulheres
tão retas e iluminadas,
por mãos de que outras mulheres
terão sido torneadas?
Sherazade
Proibida no edifÃcio
a cachorra da velhinha
na verdade não existe.
Mas em noites mais escuras
a senhora, muito triste,
fecha os olhinhos cansados
e não reza ave-marias
como fazem as vizinhas
com quem tem pouca amizade.
Chama o nome que inventou
-- Sherazade, Sherazade! --
e sente nas mãos manchadas
amorosas lambidinhas.
MÃE MODERNA
Mesmo longe, a viajar,
sempre comigo.
Pendurados no celular,
neo-umbigo.
MÃRCIA MARANHÃO DE CONTI (1957) poeta maranhense, passou um perÃodo da infância em Goiânia, residiu em São Paulo e atualmente vive em Goiânia. Estudou piano, é formada em nutrição e em direito. Já participou de antologias e concursos, sendo várias vezes premiada, inclusive no 5° Prêmio Nacional de Poesia - Cidade Ipatinga com o 2° lugar (2007). Teve três poemas selecionados no concurso Poemas no Ônibus e no Trem, promovido pela prefeitura de Porto Alegre. Publicou o livro de poemas Luar nos Porões (piano mudo), em 2011.
Enfrentamento
Abro a frase devagar
Como se abrisse um lenço
Que guardasse um segredo mofado.
Leio afastando cada sÃlaba,
Na tentativa inútil
De romper todo o sentido.
Depois de ler essa verdade
Que tentou se inscrever
Num insight de coragem
Acovardo-me.
Fecho o lenço...
E enxugo meus olhos.
Um poema no ônibus
Parece que a cidade passeia,
E o pensamento espia a palavra.
Há um poema que vagueia,
Versos virando paisagem.
Parece que a janela me leva,
E o poema levanta os olhos.
Não sei se fico ou viajo.
Vou nas palavras e volto.
Parece que tudo é passagem.
O poema beija meus olhos.
A ninhada
A ninhada de palavras
Não me deixa dormir.
Ser poeta é suportar os peitos
Inflamados
E deixar a linguagem sugar
Até sangrarem os bicos.
VestÃgios
Meus acasos não povoam
Páginas de dicionários.
São trilhas que transcendem
A leveza dos passeios.
As palavras são rastros
Deixados no cimento fresco.
Nem que eu falseie os passos,
Minto comigo, nos versos.
As palavras são pérolas
De um colar que nunca tiro,
Criadas nas conchas antigas
Dos mares que habitam em mim.
Pedi ao poema que dormisse
Eu já estava cansada
Mal viro de lado e me ajeito
Meu ouvido sente sua lÃngua
CARMEN SILVIA PRESOTTO(1957) poeta de Po rto Alegre, escritora, psicanalista, professora de lÃngua portuguesa e literatura clássica, agitadora cultural e editora. Publicou, dentre outros, Dobras do Tempo (2001) e Encaixes (2006), Postigos (2010) e um grande número de crônicas, photoPoemas, photoCrônicas em espaço que mantém na internet: Vidráguas. É aà que ela divulga outros autores, livros e principalmente poemas. Com um empenho e uma dedicação inquestionáveis.
Holografias
Velhos fantasmas
transmutam olhos em caleidoscópios.
Fantasiosa
adorno-me das criaturas.
Saudosa
bordo-me de alguns retalhos.
Numa ilusão de ser
reflito figuras no céu.
Cúmplice pisco à Lua
pela colcha de retalhos que me devolve.
Névoas
Cinzas
passado
Suor
e lágrimas
Nada é domável
durmo em sonhos não vividos
Esqueci meus luares imaginários
O último trem levou o lenço
e ainda aceno pelo teu beijo.
Pisares
Existe um sono a que chamo silêncio
Velho mapa
de onde voam meus pés
vento
em que me espelho momentos
existe um tempo em que desperto memórias
terras
em que calço meus rastros
fendas
onde soluço meus ossos.
O Amor...
O amor é este letreiro
em que todos os dias
reVerdeces olhares
de mim em ti…
O amor é este tabuleiro
em que todos dizeres
te acompanham no dito
e para que não sejamos contradito…
Psiu!
:
pisco e digo
te amo
O amor é poesia
este tempo no espaço
tempAço
onde me dizes
não ser…
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