“Cabeça de bago virou tan, tan...” Isso é Batuque do Brás!
A noite estava enluarada e a comunidade preparada para brincar o batuque. A comunidade negra do Estreito fica situada a 20 km do centro de São João do Piauí, cidade localizada no Sudoeste do Estado Piauí, a 486 km da Capital, Teresina, em pleno sertão nordestino. O anfitrião, Senhor Martins Rodrigues, 80, convidou os batuqueiros para animar a sua festa de aniversário, recepcionou a todos com comida e bebida em fartura, que foram servidas durante todo o dia e, à noite, ainda havia carne chiando ao fogo, como se estivesse dizendo que a festa só estava começando!
Era pouco mais de dez da noite, depois que todos haviam assistido ao DVD do Batuque do Brás, em um telão instalado pelos organizadores do Projeto Encantadores do Sertão, quando as pessoas presentes fizeram um grande círculo no centro do terreiro para cantar “Parabéns a Você” para o aniversariante. Em seguida, vieram os brincantes do Batuque do Velho Brás com suas cantigas, ritmos e meneamentos. Um refrão de uma das cantigas que ficou gravada em nossa memória, dizia assim:
“Cabeça de bago virou tan, tan (bis)
A moça bonita com o pé no chão!” (bis)
Em outro momento, os cantadores invertem uma parte do refrão e cantam:
“Cabeça de bago virou tan, tan (bis)
O bicho mulher é trabalho do homem!” (bis).
E com o mesmo entusiasmo eles também cantaram e dançaram suas cantigas acompanhadas do som de instrumentos de percussão (tambores e maracás), cujos refrãos lembramos agora:
“Sabiá da beira maaaaaaaar!
Sabiáááááááá!
Era eu ou era tu, sabiá?
Era tu ou era eu, sabiá?”
Ou então:
“Bebeu, bebeu, guabiraba!
Lá no ‘bebedou’, guabiraba!
Meu chapéu caiu, guabiraba!
Meu amor levou, guabiraba!”
Ou ainda:
“Boi estrela, mangueira! (3 vezes)
Por que mandou me chamar?”
Após cada refrão, um dos cantadores faz um improviso rimado e ritmado, louvando uma das pessoas presentes à dança, em face de uma possível oferenda desta, que pode ser uma bebida, comida, ou qualquer outra oferta. Quase todas as cantigas do batuque seguem esta lógica, que é uma maneira de reverenciar e agradecer ao convite do ‘dono’ da festa ou a alguém que contribuiu para que a festa se realizasse.
Isso é o Batuque do Brás! Homens e mulheres, negros e negras de todas as idades, todos unidos em função da brincadeira, que para eles é algo muito sério, pois tem um sentido maior, qual seja: é a continuidade da cultura de seus antepassados. Não é à toa que a manifestação recebe o nome de “Batuque de Negras e Negros do Velho Brás da Malhada”. É batuque, é de negros e negras, é do velho Brás e, da mesma forma, é da Malhada! Afinal, o batuque é uma dança com profundo significado para os povos descendentes de africanos. A suas danças e a suas cantigas, estão incorporados elementos dos ritos do candomblé, do catimbó e da macumba, entre outros rituais de origem afro-brasileira.
Na comunidade Estreito todos são descendentes de africanos e praticamente a comunidade inteira descende do homem que dá nome ao Batuque do Brás, Brás de Aquino Gomes e de Sebastiana Maria Conceição. O patriarca faleceu há mais de trinta anos e, segundo narram seus netos e bisnetos, ele aprendeu a arte do batuque com outro grande batuqueiro, o finado João Rio Preto, morador do Riacho do Anselmo, outra comunidade de quilombolas que fica próximo da Malhada, onde morava o velho Brás.
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