Recebi por e-mail uma carta, aliás, um desabafo: é da artista “cearoca” - me perdoem os próximos, mas se ela for cearense, de certo deixou escapar um pito - Valéria Pinheiro, dona de uma das casas mais interessantes da nossa (dês) articulada cultura cearense: o colorido Café Teatro das Marias, um lugar aconchegante, ali nas imediações do Dragão do Mar. O Teatro das Marias recebe vários eventos, mas nunca nada constante, portanto, seria demais avaliar o local como uma casa de shows, o Café é de fato um local que converge estéticas e estilos, às vezes um pouco inconseqüentes - os estilos e estéticas -, mas conseguem fomentar uma criação cultural diferente do que é vigente por nossas bandas “alencarinas”.
No Teatro das Marias existem importantes encontros, que possibilitam novos caminhos. Além da conhecida Caravana Cultural, que vira e mexe mostra as caras nos cortejos pela cidade - aliás, como andam aquele pessoal – tem-se o Tambor de Crioula, expressão característica de nossa cultura. Como disse, o local não oferece eventos constantes, como a Órbita ou Hey Ho, enfim, é apenas um local livre para criação e multiplicação de idéias e artes.
O Teatro localiza-se numa área comercial, próxima a “oneomânica” Monsenhor Tabosa, ali na rota turística/cultural da cidade de Fortaleza. E tem, entre seus vizinhos, casas de shows, travestis, vendedores ambulantes e moradores, sim, moradores, que sabe se lá como foram parar ali, do lado do teatro, atrapalhando, com seu silêncio perturbador a doce alegria do local. E devido ao destino que uniu o teatro, tão alegre, aos senhores vizinhos, tão, tão vizinhos: o teatro foi embargado!
A Matéria
Uma matéria veiculada na TV falava sobre os vendedores ambulantes que vendiam bebidas a menores, fato grave, em rede nacional, com certeza alguma coisa teria que ser feita e foi. Os órgãos responsáveis pela segurança e fiscalização são a Guarda Municipal e a SEMAM (Secretaria do Meio Ambiente e Controle Urbano) que, depois do vexame nacional, decidiram se impor, como se houvesse uma moral suficiente, e saíram pelas ruas, como as patrulhas na época da ditadura, ou melhor, as volantes sem rumo.
Pegaram vendedores ambulantes, fecharam casas de shows, cancelaram eventos, inclusive um evento do cantor Osvaldo Zarco, que ia se apresentar no dia 20/10, no projeto “Pro Dia Nascer Feliz”. Tudo pra baixo. Muitos, os mais velhos – e a Valéria em texto – lembraram os tempos de ditadura, quando o poder (estado) se apoderava das manifestações e distribuía cacetadas em todo mundo, pois bem, os que estavam lá foram espancados culturalmente, violência que hoje, pode ser comparada a uma das piores torturas imaginadas.
Fragilidade
A prefeitura, o poder vigente, se manifesta dizendo que isso está em lei, todas as “casas de shows” devem ter isolamento acústico, inclusive feito por engenheiros indicados pelos próprios fiscais da SEMAM. O que torna engraçado esse possível corporativismo, é a ineficiência do mesmo órgão com relação ao Kangalha, que há meses vêm sendo alvo de reclamações de moradores locais, e os paredões de som, como o dos panssexuais que habitam o posto Pódium, em frente ao North Shopping, que acovardam os polícias do Ronda.
Não sou eu quem diz isso, sou apenas um jornalista, recebo essas reclamações que lotam a caixa de e-mails da instituição em que trabalho e que, sempre que podemos, filmamos ou publicamos e, pelo menos na atual política da instituição, estamos livres para questionar esse tipo de truculência, aliás, truculência é uma palavra comum no Ceará, tanto nas atitudes do nosso governador, quanto nas palavras da nossa prefeita, que acusa o mesmo de ser truculento, como se ela fosse uma orquídea delicada.
Escambo
O Teatro das Marias tem uma moeda própria e funciona numa dinâmica de troca, é notório que o espaço não arrecada muita verba pois os eventos que acontecem ali, em sua maioria são gratuitos, as pessoas lotam o espaço e no máximo, consomem a cerveja que é vendida no balcão, que no máximo deve pagar uma continha ali e outra aqui. E mesmo agora se o Teatro das Marias decidisse se tornar um espaço comercial estaria impossibilitado, pois não pode arrecadar nada de portões fechados.
Os artistas que formam a rede de contato das Marias, com certeza devem se pronunciar, mesmo os que alimentam divergências, desconfianças, mesmo esses, sabem que o local é fundamental para a circulação da cultura local e não pode ser fechado. Outro ponto é a necessidade de um projeto acústico, se admiramos o local por seu diálogo com a rua, pois manifestações como o Tambor de Crioula ou Maracatu’s não podem ficar restritos a casas com “projetos acústicos” a arte tem de invadir a rua.
Arte x Lei
Embora pareça anarquista demais de minha parte – mesmo sendo essa ideologia um prato que me alimenta vez ou outra – ainda permaneço no pensamento de que cultura e arte não podem ser pensadas de forma pragmática. Não podem ser postas no papel em simples números e soluções de engenharia. A arte é uma forma profunda do homem se manifestar para o mundo e, se for mantida como uma licitação de obra, ou uma infração comum – como um roubo – é por que é mantida por um estado ditatório, mesmo velado, mesmo assim ainda estamos sob o signo de uma ditadura (imagem, consumo, moral, valores).
A arte é acima da lei.
“Vamos reabrir um dia desses nossas portas, e enquanto isso trabalharemos nas ruas, nas praças, nas esquinas de cada canto desta cidade fazendo nossa voz ecoar como vaqueiro que guia sua boiada sem medo de se perder, porque conhece com propriedade cada lugar dessa "manga" de meu deus onde quer fazer chegar sua boiada!” (Valéria Pinheiro – Dona do Teatro das Marias).
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