Após retratar o dia-a-dia das favelas à exaustão o cinema brasileiro parece ter encontrado uma nova menina dos olhos; o Funk Carioca. Completando a triologia iniciada em 2005 com o documentário 'Sou Feia Mas Tô Na Moda' da diretora gaúcha Denise Garcia e prosseguindo com o recém-lançado 'Favela Bolada' ( 'Favela On Blast', 2008) de Wesley Pentz (nome de batismo do DJ americano Diplo) e do mineiro Leandro HBL chegará ao mercado no próximo ano o doc 'CIDADE DO FUNK' fechando, assim, a vértice desse triângulo. O filme, que se encontra ainda em fase de produção, é o longa de estréia da jovem diretora carioca Sabrina Fidalgo, 29 anos, no qual, pela primeira vez, a história do batidão sofrerá uma profunda investigação, e será contada desde os primórdios bailes de subúrbio no final dos anos 60 (da era 'Black Rio'), passando por todas as suas metamorfoses sonoras, culminando com a recente explosão internacional do ritmo. Entre outras coisas, o filme visa questionar a legitimidade do batidão e o fenômeno dos bailes dentro do panorama músico-cultural brasileiro e estrangeiro.
- Muita gente ainda torce o nariz para o Funk. Quero ouvir essas pessoas também. Obviamente o Funk é um fenômeno sem precedentes e, musicalmente, é a personificação (pós)moderna da voz do morro. Mas a minha idéia ao contar a história desse movimento, também sob o ponto de vista sócio-cultural, é questionar. A gente só pode legitimar algo depois de um questionamento profundo, de uma desconstrução e essa é a idéia do documentário: desconstruir, fragmentar e montar o Funk de novo, para, então, sabermos de fato o que será, que será - conta Sabrina que em dezembro de 2007 deixou temporariamente Berlim, capital da Alemanha - país onde reside há 7 anos - para se dedicar integralmente a produção do filme no Rio de Janeiro.
A idéia do documentário nasceu no ano de 2005 na ilha de edição da Hochschule für Fernsehen und Film München (Escola de Tv e Cinema de Munique) onde ela fazia a tradução para o alemão de um curta-documentário sobre o referendo das armas produzido pela própria escola e realizado por Lia Jaspers no Rio de Janeiro. A certa altura uma cena em particular intrigou Sabrina; eram imagens de um baile funk no clube Boqueirão registradas alheatoriamente pela colega alemã.
- Quando vi aqueles meninos e meninas negros, mulatos e mestiços bombando hormônios por todos os poros, os corpos suados dançando frenéticamente e ouvi os graves do tamborzão me veio à cabeça a minha própria infância e adolescência, quando eu mesma escutava diaria e solitariamente nos fins de tarde o programa do Marlboro na extinta radio Manchete ou via o programa 'Som na Caixa' com o Messiê Limá, sonhando se um dia minha mãe me deixaria ir à um baile. Isso me remeteu de maneira absoluta às minhas próprias raízes cariocas, mais até do que às raízes brasileiras como um todo. Quem é carioca, gostando ou não de Funk, sabe que esse é o ritmo que melhor define e traduz o Rio de Janeiro, é o símbolo idiossincrásico contemporâneo dessa cidade em sua potência máxima - explica.
Poucos meses depois ela se via de volta à sua cidade natal pesquisando a cena funqueira in loco e durante esse processo conheceu pessoas cruciais para dar o pontapé inicial ao projeto; o jornalísta Silvio Essinger - autor do livro 'Batidão - Uma História do Funk'- e a fotógrafa e produtora do selo CARIOCA FUNK CLUBE Adriana Pittigliani (falecida em junho desse ano) - que acabara de iniciar uma bem sucedida parceria com um ainda desconhecido Dj Sany Pitbull - além do próprio Sany, que, à época, reinava ainda tranquilo e absoluto como Dj residente no baile do morro do Cantagalo.
O roteiro de CIDADE DO FUNK, escrito e reescrito diversas vezes, fora inspirado no livro de Essinger e, em sua última versão, ganhou um protagonísta; o próprio Sany.
- Contar essa história, aparentemente, não era o mais complicado. Mas a questão é que se trata de uma história cheia de micro e macro detalhes e nuances, idas e vindas e 'N' referências. Tava tudo muito confuso no papel, no final não sabia mais qual era o foco. Quando vi o Sany tocar em um clube em Berlim no final de 2006 entendi que ele seria o fio-condutor perfeito para contar essa história mirabolante. Afinal, o cara já tinha mais de vinte anos de estrada que se confundiam com a própria história do Funk e era o legítimo representante da elevação do ritmo para algo musicalmente muito superior e arrojado. Os gringos ficaram boquiabertos com aquela MPC frenética remixando a introdução de "Sweet Child O' Mine' do Guns 'n' Roses com o Tamborzão. Os caras ficaram sem entender nada - conta ela, que além de diretora e roteirista, também assina a produção executiva do longa.
A produção do doc, que ainda esta em fase de capitação de recursos, tem motivos para comemorar: acaba de fechar o primeiro patrocínio com a Fundação Cultural Palmares. Além disso o renomado diretorJoel Zito Araújo ('Cinderelas, Lobos & Um Príncipe Encantado', 'Filhas do Vento' e 'A Negação do Brasil') e sua produtora Casa de Criação se associaram ao projeto, que tem ainda co-produção da alemã Depoetica, de Berlim. Há dois anos colhendo imagens e depoimentos no Brasil e no mundo, o filme ainda não tem prazo de finalização.
- Tudo dando certo a gente consegue finalizar logo no próximo ano. Tomara que bons ventos continuem soprando em nossa direção", finaliza.
Muito bom texto, Jean. Fiquei curiosa para ver o documentário pronto. Como o doc ainda está em fase de captação de recursos, seria interessante uma entrevista com a Sabrina sobre esse processo de captação e o da produção de um doc longa metragem.
abraços
Obrigada, Ilhandarilha!
Tb tô curioso pra ver! (:
Abs
Rsrsrsrs...Só você, Jean. (: Obrigada pelo lindo texto!
Fiquei lisojeada com a matéria. Muito obrigada!
Enfim, a luta continua!
Forte abraço!
Sabrina, valeu por mais uma entrevista!
Estamos torcendo pelo filme!
Abs
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