Dilma, o Tomate, as Cotas e Félix.

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Evandro CalistoFilho · Salvador, BA
7/4/2013 · 0 · 0
 





Evandro Calisto
Cientista Social , evandro-calisto@hotmail.com
Quando menorzinho, época de “vacas magras”, algumas coisas eu conhecia outras não. Muito depois descobri o quanto era pobre e como a palavra “acesso” é uma coisa séria. Quando falamos em acesso tocamos em acessibilidade, pensamos a possibilidade física de locomoção, ai todos se emocionam, abrem portas, quebram paredes, criam rampas e brigam quando alguém estaciona o carro nos espaços destinados para que precisa desse acesso fácil. Mas acesso não é só físico, quando falamos em acesso socioeconômico a piada corre solta, fala-se em lamurias bobas de preguiçosos, falta de empreendedorismo (a nova falácia), permanência da zona de conforto. Ao mesmo tempo quando o racismo vem a tona os mesmos piadistas usam essa tangente, dizem que não existe racismo e sim problemas socioeconômico, numa atitude absurdamente paradoxal. Na verdade o acesso físico é uma necessidade de ricos, pretos, brancos e pobres, o outro acesso determina a permanência no poder, coisa que ninguém quer perder, cria a espiral da gozação mentira e embaralha os desinformados os fazendo culpados de sua própria desgraça.
Essa semana observando a semana do meu pequeno Félix, dez anos, estava comparando a vida dele e a minha que passou. Diabético necessita cuidados especiais, assim tento manter algumas atividades física como remédio natural reparador. Essa semana jogamos basquetebol, fizemos caminhada, bike, skate. Para ele é simples, mas vejamos como é lindo e simplório o sistema: ele vai antes e rebate os bancos de couro do Suzuki 4x4 e coloca a bicicleta Caloi que tem um sistema de desmontagem rápida, de alumínio, é claro, se não ele não carregaria; carrega a mochila com o complexo kit de segurança, pega o skate feito de folhas especiais canadenses e rodas com rolamentos especiais; tem tênis específico para cada atividade, os largos para skate e a basqueteira da AND1. A brincadeira dele é pegar o smartphone e falar o roteiro para ver se o GPS dá a rota correta. Para que tudo aconteça ele, esse ano, tem que ler semanalmente o que ofereço, nesses últimos quinze dias já leu sobre a Revolta da Chibata, Revolta dos Malês e falta a dos Búzios.
Tudo isso não é normal, é acesso. Ele já consegue entender, perceber, compreender coisas que a velha avó não sente neste louco mundo que vive. O mundo para ele é extremamente maior que o dela. E ela sabe disso e fica emocionada com a velocidade que ele transita por estradas e atalhos que ela não enxerga. Isso é acesso.
A verdade começou a bater na porta, a saber: as políticas públicas não existem, as políticas eleitorais se tornaram palco da nossa vida, a presidenta brinca de pôquer, blefa todos os dias, dá fichas a alguns adversários para se manterem no jogo, mostra cartas falsas, tem sempre alguma na manga. O funcionário que dá as cartas é dela e a mesa veio da fábrica que ela é diretora, chamada vulgarmente de “máquina”, ela esta no poder, ela dirige a “máquina pública”, atenção! , “pública”. Atrás dela o técnico sem um dos dedos grita a estratégia.
Tudo estava perfeito até chegar o “tomate”. Essa semana vendo as notícias na TV, Félix perguntou: meu pai você sabia que tomate é uma fruta? O tomate pode acabar com Dilma e com esse jogo. Ele foi o único que não conseguiu carregar o blefe da não inflação, pobre Tomate, agora com letras maiúsculas por ter sido tornado o personagem da história e não uma simples fruta felixciana. Pobre Tomate de pele sensível, sem velocidade para atravessar a rua é sempre atropelado e acorda ketchup. O pobre se espatifou na rodada e derramou o molho, não existe estabilidade econômica num país que tem a maior carga tributária do mundo e um dos mais baixos Índices de Desenvolvimento Humano IDH, num território que se desertifica com lençóis freáticos enormes e possuindo a maior quantidade de água doce do planeta, onde somos símbolo de arquitetura universal e todo ano os habitantes escorregam nas encostas para morte, quando obras faraônicas são construídas pelos escravos, como no Egito, dentro delas os donos morrem e se enterram e os operários esperam Isis um dia mandar a abundância do Nilo, deusas que aqui muda de nome: Nossa Senhora, Jesus, Jeóva, Oxalá, Esperança, Deus Brasileiro. Mr. Tomate abriu o jogo, mostrou as sementes, rompeu a pele, somos uma mentira.
Agora prestes à apresentação para o mundo a mentira se enroscou, Copa e Olimpíada, não sabemos fazer estádios, nunca vimos essa coisa de pista e piscina olímpica, não temos cidades e vamos fazer Vila Olímpica? Enquanto isso o jogo continua, o pôquer corre solto, a presidenta fez plástica para aparecer nas TVs, o jogo é televisionado, quem tem cota na TV vira Barão e ganha fichas.
E você ainda tem coragem de ser contra as cotas? Os amigos de Félix na Fazenda Grande do Retiro o observa, por vezes com amor, outras com muito ódio, quando ele tão perto passa tão distante com seu capacete de skate. Eles não possuem o acesso e não será Dilma nem os jogadores que vão dar, mesmo sendo constitucionalmente sua obrigação. Você é contra cota porque joga numa mesa menor e gosta de ter poder. O Tomate fodeu com eles, a violência faz todo dia isso com você e continuamos nessa província de merda.

P s. Gasto um dinheiro absurdo, Félix já esta na quinta bicicleta, terceiro skate e as bolas nem conto. Quando não posso levá-lo no Suzuki ele se acaba com os meninos, mas é pouca bola pra tanta gente.

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