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Drummond e a Perspectiva de Esperança

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Edson Costa Filho · Aracaju, SE
23/10/2006 · 52 · 2
 

“Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo”. Com estas palavras – que iniciam o poema Sentimento do Mundo –, Carlos Drummond de Andrade expressa sua sensação de impotência diante da dureza da realidade mundial. Neste poema, Drummond apresenta um caráter pessimista e pinta uma visão de futuro bem negativa.

Diante dos episódios que têm marcado o mundo hodierno – os atentados terroristas e suas conseqüentes mortes de centenas (por vezes, milhares) de inocentes, a intolerância dos governantes, a intolerância religiosa, os preconceitos de gênero e de raça, a crise internacional envolvendo a Coréia do Norte com testes nucleares, os escândalos na política brasileira, a descrença no Estado e nas instituições democráticas, bem como na política como um todo, entre outros –, a população tem entrado em estado letárgico, ou seja, tem deixado a apatia e a inércia se sobreporem à esperança – até então viva – de um mundo melhor. É a mesma sensação de impotência sentida por Drummond em 1940, quando publicou Sentimento do Mundo, cuja data coincide com o período da Segunda Guerra Mundial, ápice das tensões ideológicas em todo o planeta. Ou seja, diante de tal barbárie, restar-nos-ia apenas “duas mãos e o sentimento do mundo”.

Essa sensação de impotência não nos pode deixar abater. Não pode, em nome do nosso limitado poder de resposta – apenas duas mãos –, nos colocar ao lado do conformismo com a sensação do “nada pode ser feito” e do “deixa como está”, pois o caos estaria consolidado e o mundo seria, por natureza, mau. Essa tese é falsa. Nossa impotência apenas sobreviverá se encararmos o mundo de forma individual, com a ótica do personalismo e acreditando de fato que só existem duas mãos. Nossas duas mãos precisam estar dadas às duas de outrem. Como aponta o próprio Drummond, em seu poema Mãos Dadas, “Não serei o poeta de um mundo caduco. Também não cantarei o mundo futuro. Estou preso à vida e olho meus companheiros. Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças (...) O presente é tão grande, não nos afastemos. Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas”. Às angústias das inquietas indagações que o poeta faz a si próprio, em “E agora, José?”, respondemos de acordo com uma velha e conhecida canção popular: “Depende de nós”!

É preciso mudar tal cenário. Urge que tomemos fôlego e reacendamos a chama da esperança. A mudança no quadro político brasileiro depende de ações efetivas do próprio povo. A barbárie do terrorismo e a intolerância dos governos dependem também da mobilização social. Vale destacar que foi devido ao silêncio e à passividade da população que o então presidente norte-americano Richard Nixon afirmou que a “maioria silenciosa” estava a favor dos bombardeios e da matança de populações civis na guerra do Vietnã, verificando-se depois que tal concordância não existia. Ao contrário, foi com a pressão popular que o governo norte-americano recuou da guerra do Vietnã.

É preciso, portanto, que não deixemos a barbárie do terrorismo internacional, todas as formas de intolerância e preconceitos atuais, e o grave quadro da política brasileira, apagar das nossas mentes e corações o sonho de um mundo melhor, mais justo, fraterno e igualitário. Reverter o atual cenário é uma difícil tarefa, mas depende única e exclusivamente da nossa iniciativa, da nossa mobilização e das nossas ações. Continuemos firmes e esperançosos, mas não nos tornemos passivos. Sejamos sujeitos ativos da transformação. Como disse o próprio Carlos Drummond de Andrade: “ – Ó vida futura! nós te criaremos”.

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Sofia Amorim
 

Seu texto é maravilhoso. Amei a maneira como vc relaciona Drummond e tudo que temos passado. Muito legal mesmo.

Sofia Amorim · Ribeirão Preto, SP 23/10/2006 00:07
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Edson Costa Filho
 

Sofia, obrigado mesmo pelo comentário! Que bom que gostou! Sou fã de Drummond, de carteirinha mesmo...rs rs rs
Bjo

Edson Costa Filho · Aracaju, SE 23/10/2006 09:28
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