ECONOMIA DA CULTURA
Cátia Cristina Santana Garcez
Crítica Cultural
Segundo Ana Carla Fonseca Reis (2007) a economia da cultura apareceu como conceito em 1965, quando a Fundação Ford passou a se preocupar em querer entender por que as produções musicais e cênicas tinham custos crescentes, se comparados ao resto da economia, levando ao fechamento de vários teatros e casas de espetáculos. Conforme o que afirma a autora o grande mérito do relatório apresentado pelos economistas contratados (Baumol e Bowen) foi o de ter possibilitado a instalação da cultura como campo de estudo da Economia.
Segundo PORTA (2004) a produção, a circulação e o consumo de bens e serviços culturais começaram a ser percebidos como um segmento de peso na economia das nações já no pós-guerra, mas foi a partir de 1970 que se instala um interesse mais profundo dentro das Universidades. Em meados da década de 1990 as organizações internacionais de cooperação a exemplo da BID, PNUD, OEA, UNESCO passam a incluir questões relacionadas à Economia da Cultura já pensando de como tudo isso se dá na prática.
Essa estratégia funcionou tão bem nos Estados Unidos que em 2007 estimou-se que a economia criativa representou 8% do PIB do país tornando-o um dos grandes pólos criativo do mundo. No entanto, vários países, principalmente os do continente latino americano tiveram seus processos de desenvolvimento interrompidos durante o período refletido pelas várias crises financeiras (TOLILA, 2007) desencadeando a necessidade de discutir a economia do setor cultural. A partir dos debates instalados pela Organização Mundial de Comércio - OMC e UNESCO passaram a refletir sobre a dimensão econômica da cultura e as potencialidades dessa economia. Tais reflexões despertaram também para traçar um perfil diagnóstico que pudesse fornecer dados estatística da cultura que serviriam de base para desenvolver políticas públicas para fortalecer a economia da cultura. Assim, a partir das características relativas á economia da cultura (PORTA, 2010) pode-se vislumbrar em termos práticos o crescimento do conjunto da economia no Brasil.
Dessa forma, o conceito de indústrias criativas evoluiu para o de economia criativa, levando em consideração a diversidade de produtos, serviços, atividades de formação e as políticas urbanas que sustentam a indústria cultural. Pesquisas através do IBGE começam a fornecer dados sobre essa economia desencadeando ações de fortalecimento da cultura. Segundo Porta (2008) o investimento público dos municípios em cultura ainda é bastante restrito, não ultrapassa a média de 0,9% do orçamento total das prefeituras (proporção praticamente idêntica ao orçamento do MINC frente ao orçamento da União). Esses dados apontados em 2008 também ainda são reais em 2001 em vários municípios brasileiros, a exemplo de São Sebastião do Passé, no estado da Bahia que no mês de Julho gastou com cultura 0,8% (Jornal do Povo, julho/2011) dos recursos arrecadados, além de não possuir qualquer documento oficial que aponte as metas e diretrizes para esses gastos, mesmo após a aprovação do referencial de 1% dos recursos públicos municipais para a cultura.
Segundo Denis de Morais (3003) o “pensamento único” nos leva a subordinar os interesses culturais e sociais aos interesses do mercado financeiro, ocultando as diferenças e a diversidade. Acredito ser neste aspecto de rompimento com esse pensamento, que se estabelece essa relação entre cultura e economia, e que os dados inegáveis das múltiplas potencialidades da economia da cultura fortalecerão essa relação entre a valoração econômica e Cultural. Tudo isso retirará definitivamente a Cultura do campo da utopia, enquanto sua potencialidade econômica, mas sempre com o referencial da dimensão da ética, que como afirma Muniz Sodré (1996) uma ética da cultura respaldada: “em seu estatuto distinto da moral, do direito e da estética” possibilitando assim, a produção livre do sentido e a isenção dos sujeitos sociais na industria cultural.
É preciso que nesse processo, o governo (municipal, estadual e federal) aceite novas formas de organização já utilizadas pela sociedade civil e que são possibilidades de gestão cultural que se apresentam como alternativas para a economia solidária e participativa. Posso citar aqui, o exemplo da Rede do Movimento de Teatro Amador da Bahia que se articula já há sete anos, entre 140 grupos de teatro do interior do Estado da Bahia possibilitando através de suas ações, a capacitação desses redeiros e a produção e circulação dos seus espetáculos. Certamente que isso se deu também devido a políticas públicas respaldadas nas dimensões simbólicas, cidadã e econômica como eixo norteadores da cultura pregados pelo Ministério da Cultura.
Porém quando se trata da dimensão econômica da Cultura, um aspecto precisa ser refletido quando se pensar no financiamento para a cultura. Da mesma forma que se entendeu essa cultura, dentro de um mundo escriturado, há uma tendência a entendê-la agora, dentro do um digitalizado que domina os espaços virtuais. Esse entendimento por si só excluiu e ainda excluem, entre outros, os griós que ainda se apresentam sem o domínio da escrita e tantos outros fazedores de cultura que vivem nos quatro cantos do Brasil.
As estruturas de editais burocráticos dificultam e excluem excelentes iniciativas, devido à carência de domínio da escrita, do domínio das técnicas de contabilidade e ignorância de temas tão acadêmicos, como é a economia da cultura. Essa realidade precisa ser revista para que não se reforce a exclusão social que já é tão marcada no Brasil. Tão certo assim, que o Banco do Nordeste este ano de 2011 ao publicar seu edital de cultura desenvolveu várias oficinas de preenchimento dos seus formulários reconhecendo as dificuldades implicadas nesse processo.
Não há duvida da relevância de programas e editais que servem ao fortalecimento da economia da cultura no Brasil. No entanto, ainda se apresenta como programas direcionados a uma indústria cultural que já se firmou no mercado a exemplo do BNDS-Procult que atende a Editora Saraiva e a Livraria Cultura e que, certamente não irão usar esse recurso captado para atender escritores ainda desconhecidos e sem acesso ao mercado editorial. Que seja, mas que outros programas cheguem para atender demandas como essas que explodem cada vez mais entre as vozes dos agentes culturais, escritores, artistas plásticos, fotógrafos e tantos outros e outras que fazem a cultura brasileira.
REFERENCIAS
MORAIS, Denis de (3003) O capital da mídia na lógica da globalização. Disponível em: http://www.lainsignia.org/2001/diciembre/cul_056.htm. Acesso em 20 set. 2011.
BANCO DO NORDESTE. Programa BNB de Cultura. 2011. Disponível em: http://www.bnb.gov.br/content/aplicacao/eventos/programa_bnbcultura_2010/gerados/
apresentacao.asp. Acesso em: janeiro. 2011.
O BNDES e a Economia da Cultura. 2010. Disponível em: http://www.bndes.gov.br/SiteBNDES/bndes/bndes_pt/Areas_de_Atuacao/Cultura/.
Acesso em: janeiro. 2011.
DURAND, J. Sugestões para o cultivo e a difusão da economia da cultura no Brasil. In: CRIBARI, I. (org). Economia da Cultura. Recife: Editora Massangana,2009
PORTA, P. Economia da Cultura: Um Setor Estratégico para o País. 2010. Disponível em:http://www.cultura.gov.br/site/2008/04/01/economia-dacultura-umsetor-estrategico-para-o-pais. Acesso em: agosto. 2010.
PORTA, P. Economia da Cultura: Um Setor Estratégico para o País. 2010.
REIS, Ana. Economia da cultura e desenvolvimento sustentável. Barueri: Manole, 2007
SODRÉ, Muniz. Reinventando @ Cultura: a comunicação e seus produtos. Rio de Janeiro: Vozes, 1996.
TOLILA, P. Cultura e economia. São Paulo: Iluminuras: Itaú Cultural, p. 19, 2007
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