Autor de "História Sexual da MPB" e de "Cauby Peixoto: 50 anos da voz e do mito", Rodrigo Faour sempre viu na música objeto de admiração e de pesquisa.
Ele é o responsável por importantes projetos musicais, como o resgate de raridades de Elis Regina e de Zizzi Possi com a criação da série "Pérolas Raras", pela Universal Music; e a edição de mais de 50 tÃtulos para a série "Maxximium". Não poderia ser diferente: Faour possui um arquivo pessoal com cerca de 70 mil músicas catalogadas e um vasto clipping de matérias impressas coletadas desde a adolescência.
Atualmente, Rodrigo Faour comanda o programa "Sexo MPB", de segunda à sexta (meia-noite) e aos sábados (à s 22 horas), na MPB FM do Rio de Janeiro e também disponÃvel no site da emissora.
O jornalista, muito gentilmente, aceitou responder algumas perguntinhas por email.
Cabral: Algumas gravadoras nacionais vêm tentando reanimar o mercado fonográfico com a criação do MusicPac e do CDZero - versões do disco original com capa de papelão e sem encarte. O que você acha desses produtos?
Rodrigo Faour: São paliativos para enfrentar a crise, pois nunca se vendeu tão pouco disco na história. Isto é transitório. A verdade é que não sabemos aonde o mercado de música vai chegar. A gravadora Trama agora está querendo disponibilizar discos novos de graça, com o patrocÃnio da iniciativa privada... Enfim, todas as tentativas são válidas, mas é ingenuidade achar que todos os artistas - especialmente os novos - vão ter patrocÃnios para gravar seus discos, algo que por menos que se gaste, para se ter boa qualidade, ainda é um investimento caro.
C:: De alguns anos pra cá, surgiram várias parcerias entre cantores: os Tribalistas, Zeca Baleiro e Wagner, Ana Carolina e Seu Jorge e, mais recentemente, Simone e Zélia Duncan. Como você vê duetos desse tipo?
RF: Antes disso, ainda teve o Grande Encontro (Elba e Zé Ramalho, Alceu Valença e Geraldo Azevedo), Gal e Caetano ("Tieta") e ainda Fagner e Zeca Baleiro, fora a série do "Casa de Samba", "Casa da Bossa", "Casa do Forró", etc. Recentemente está rolando Bethânia e Omara também. Eu acho que a união faz a força e é sempre interessante esse tipo de encontro, alguns fazem com mais originalidade que outros, mas eu acho bacana.
C:: Tati Quebra Barraco e Bonde do Rolê não possuem apenas o funk em comum: as letras inusitadas e a linguagem coloquial aparecem com freqüência nas músicas dos dois, como, por exemplo, em"Fogão Dako" ("Dako é bom, dako é bom...") e "Solta o frango" ("A gente somos lindo, a gente somos inteligente, antes de dá o edi, eu jurava que era crente"). O primeiro disco do Bonde do Rolê, apesar de nem ter sido lançado no Brasil, recebeu elogios da revista Rolling Stone Brasil. Por que você acha que bandas como Bonde do Rolê conseguem mais prestÃgio do que cantores de funk do Rio de Janeiro?
RF: Elementar, meu caro Watson. Moderninhos da classe média paulista (e carioca) são mais palatáveis ao grande mercado que sujeitos às vezes meio broncos e com as carinhas nem sempre bonitas oriundos da periferia. Pessoalmente, acho o funk original das favelas muito interessante, mas a imitação do mesmo - especialmente das letras - feita por mauricinhos considero intragável. Como lá fora ninguém entende as letras em português, talvez os jornalistas (e o povo em geral) não saibam diferir uma letra cantada por funkeiro e outra por mauricinho, ficando mais ligados no ritmo - que é, de fato, muito impactante e hoje já é diferente até do Miami Bass, que é de onde o funk carioca surgiu. Se a pessoa fala o português errado porque não sabe é uma coisa, mas sabendo, fica artificial, constrangedor. Os funkeiros originais também são mais divertidos quando empregam os palavrões.
C:: Nos últimos anos, o Brasil foi invadido por várias bandas "com atitude", como Pitty e NX Zero. Como você vê o cenário musical brasileiro atual?
RF: Muita imitação de tudo que já foi feito (melhor) no Brasil e no mundo. São poucos os artistas ousados ou que conseguem ao menos atingir o mesmo nÃvel de seus antecessores das gerações dos anos 30, 40, 50, 60, 70 e 80. Muito pouca coisa me chama a atenção hoje em dia. E muito poucos discos eu consigo passar da terceira faixa. Recentemente gostei de discos da baiana Márcia Castro e do paulista Paulo Padilha, mas são honrosas exceções.
C:: Primeiro veio o Tchan. Depois dançaram na boca da garrafa. Agora fazem o créu. Por que desde os anos 90 músicas que falam de sexo ficaram tão escandaradas?
RF: Porque a música popular é reflexo da sociedade. Antes havia a censura oficial e a auto-censura. Até os anos 70 a mulher casava virgem e era muito esculachada em nossas letras. Os gays e lésbicas também eram ridicularizados nas poucas letras em que a censura ainda deixava passar abordando o tema. Com relação às canções sexuais escancaradas, até os anos 60 só no carnaval e no teatro de revista que se podia insinuar temas mais safadinhos. Então, é natural que com o passar dos anos se fale de sexo de maneira mais escrachada também em músicas de meio de ano.
C:: Apesar de muitos torcerem o nariz, "É o Tchan" foi o maior fenômeno de popularidade da última década. Hoje, dizem ser a banda "Calypso". A que você deve tamanha aceitação?
RF: O popularesco sempre tem seu apelo. A música repetitiva, sem muita firula, tem endereço certo, pega as pessoas sem muita instrução e/ou intelectualidade com mais rapidez. Mas da mesma forma que vêm elas vão, pois novos bregas aparecem. DifÃcil é esse tipo de música sobreviver aos modismos. No caso, prefiro É o Tchan, pois pelo menos o ritmo de seus sambas era muito bom.
Parabéns pela belÃssima entrevista LiÃs. Eu não perco uma noite do programa do Rodrigo na rádio MPB. Abrçs!!!
marcio rufino · Belford Roxo, RJ 24/8/2009 23:51Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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