Faça você mesmo com paletes

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Vinicius Damato · São Paulo, SP
1/7/2016 · 0 · 0
 

Minha avó adorava contar essas histórias sobre ele – e ele, mesmo, apesar de tentar demonstrar embaraço, deixava transparecer nos olhos que adorava saber que sua paixão vinha de nascimento. O berço dele de palete (minha avó contava) tinha umas partes sem verniz, só na madeira crua, e era nesse pedaço que ele se aconchegava mais quando ia dormir, passando as mãozinhas na madeira áspera. O dia que minha avó envernizou aquele pedaço, a casa nunca mais dormiu direito e ele teve que remover o verniz de novo. Minha avó contava, orgulhosa, que meu pai construiu o primeiro palete dele aos oito anos, junto com meu avô! Claro que não ficou uma obra-prima, mas dava para usar numa boa!
Era coisa de família
Meu pai era filho único, então era a única “chance” do meu avô de ter alguém que continuasse seu legado: uma marcenaria num vilarejo rural que tinha grandes possibilidades de crescimento e desenvolvimento. Esse vilarejo ficava numa região do sul de Minas Gerais próxima a cidades turísticas importantes, e o artesanato e serviços de marcenaria do meu avô começavam a ficar famosos nessas cidades, por causa das peças que ele e minha avó iam vender nas feiras de sábado. Quando meu pai ficou maior, passou a ir junto, e foi aprendendo o ofício do receber bem os clientes, da boa conversa e, principalmente, da boa negociação (meu avô era descendente de turcos, aí já viu, né?). Logo ele aprendeu a fazer paletes melhores e passou a fazer brinquedos, piões e esboços de relógios de parede e bustos de santos.
Apesar dos esforços da minha avó, meu pai não foi muito longe nos estudos. Fez todos os anos do que se chamava “primeiro grau” naquela época (hoje é o nosso ensino fundamental II) e parou por ali, porque escolas mais avançadas ficavam na cidade, e ele ajudava tanto meu avô na marcenaria que acabou abandonando os estudos. Mas nessa época, ele já tinha seu nome atrelado ao do meu avô, um talento atrelado ao outro: “Antônio, filho de Zé Francisco”. Não precisava mais nada para todos da região que meu pai, Antônio, era a continuação do legado de qualidade do meu avô, Zé Francisco.
Todos os tipos de coisas
Palete passou a ser ferramentas de trabalho para o meu pai, que não deixava peças armazenadas diretamente no chão de jeito nenhum, para que não pegassem umidade. Quando precisava de um a mais, ele fazia em menos de meia hora e continuava o expediente. Mas o negócio ele era, mesmo, fazer peças decorativas. Fez muitas cabeceiras ultrassofisticadas de camas para clientes mais ricos, frentes de relógios cuco, reformou painéis frontais de pianos de caixa e, todo Natal, faz dezenas de piões de madeira e vai às comunidades carentes para distribuir e ensinar as crianças a jogar.
O trabalho mais difícil da vida dele foi o caixão da minha avó, que ela mesma pediu que ele fizesse quando ela descobriu que tinha câncer, já com muita idade. Ela não pensou duas vezes: “quero que você faça meu caixão, e quero o rosto de Nossa Senhora ‘talhado’ (entalhado) nele”. Ele custou a começar o serviço – na verdade, nem queria, porque parecia mau agouro, mas minha avó sabia que ia embora logo. E foi a cliente mais chata! Passou dias escolhendo a imagem ideal da santa, e acompanhou a execução do início ao final, dando pitacos, broncas e testando o tamanho do caixão. “Mas nesse tamanho eu vou ficar muito apertada! Olha só! Dá uma alargadinha aí embaixo pro meu joanete caber, uai!”. Ela faleceu uns dois meses depois do caixão ficar pronto, e não teve quem não chorasse ao ver aquela arte na última cama dela. Virou assunto na vila; e virou pedido também, mas meu pai recusou todos. Disse que nunca mais faria um caixão na vida. “Se bobear, nem na morte”, ele brincava.

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