Festa da quebrada no Auditório do Ibirapuera

Cobertura colaborativa Grito Rock Mundo
Grito da Paz: ocupação crítica feita pela periferia de São Paulo
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Mariana Ghirello · São Paulo, SP
10/2/2013 · 32 · 0
 

"Viemos fazer o que a gente conhece da periferia da paz", anunciou Baltazar Honório, ao abrir a noite do "Grito da Paz", neste sábado (10/2). O segundo dia da festa, que faz parte do festival colaborativo Grito Rock Mundo, recebeu Z'África Brasil, Veja Luz, Wesley Noog, Zinho Trindade, Versão Popular, Poesia Samba Soul, Amanda Negrasim e vários outros artistas.

Confira as fotos da cobertura colaborativa
Show das Quebradas um Grito Pela Paz

A noite do "Grito pela Paz", feita em parceria com a Agência Solano Trindade, da zona sul de São Paulo, começou com poesias que abordaram preconceito, questão étnica, opressão policial, desigualdade social e a cultura, apresentadas por integrantes de grupos tradicionais como Cooperifa, Sarau do Binho e Fundão.

Não é de hoje que quem mora na periferia sofre com o preconceito e a falta de estrutura básica. Mas em 2012 a situação se agravou, e uma onda de violência vitimou mais de 1500 pessoas. Somente na zona sul, os assassinatos mais que dobraram em 2012, segundo dados da Secretaria de Segurança Pública.

Marco Pezão, que junto com Sérgio Vaz fundou da o sarau da Cooperifa em 2001, abriu os trabalhos com a poesia "Nóis é ponte". Ele lembrou a luta para "atravessar a ponte" que separa e exclui os cidadãos de regiões pobres da cidade. "Os meninos amadureceram como artistas e estão mais profissionais", diz Marco ao falar dos jovens que frequentam desde sempre os saraus das quebradas. "Hoje vejo como isso se concretizou".

O poeta Robson Padial, o Binho, marcou presença e lembrou o projeto "Não matarás nenhum brasileiro", lançado em 2004, de incentivo à leitura com doação de recursos financeiros aos leitores. Binho, em maio do ano passado, teve o bar onde realizava os encontros fechado pela prefeitura de São Paulo. No palco, utilizou sua poesia para lembrar que somos uma nação indígena e destacou a importância da festa para aqueles que sempre lutaram pela arte e educação na periferia.

Luan Luando, também poeta que participa dos saraus do Fundão e do Binho há mais de 15 anos, disse que usa o hip hop como inspiração para escrever. Luando, disse também, que pela primeira vez os movimentos culturais da periferia faziam a ocupação do Auditório do Ibirapuera. "Ele foi desenhado por um comunista e que também acredita nessa ocupação. E vamos continuar ocupando mais espaços porque eles também são nossos", completou.

Poucos ficaram sentados nas cadeiras numeradas quando a música de Z'África Brasil, Veja Luz, Wesley Noog, Zinho Trindade, Amanda Negrasim e Thaíde invadiu o auditório. Som para os ouvidos e arte para os olhos. O cenário detalhista, feito por Gamão Souza Dias e Karen Lages dava o ar da quebrada. O espetáculo foi completo com as danças afro e capoeira dos grupos Odara e Sampa Master.

Transformação social
"A violência já é morar na favela porque a polícia invade os barracos fazendo terror com o trabalhador". Marco Pezão considera um retrocesso a violência policial e diz que várias situações de hoje, relembram o período da Ditadura no Brasil, onde toda reunião poderia ser considerada perigosa. Ele diz que a luta é por igualdade de oportunidades para todos. "A cultura não é um vale de R$ 50, mas esses meninos atravessarem a ponte falando das coisas que nos afligem", completa.

"Uma andorinha só não faz verão, mas pode acordar o bando". Afirma o articulador social e cultural Thiago Vinicius, um dos organizadores do evento, ao dizer a mensagem que fica para todos. "O objetivo é mostrar como a cultura diminui a violência, dá o sentimento de pertencimento e qualidade de vida”, diz.

Feito com "muitas mãos"
Quem não é fã de Carnaval pode aproveitar o festival Grito Rock Mundo. A opção daqueles que não têm samba no pé ou não decoraram as marchinhas do tempo da vovó. Por três dias o auditório do Ibirapuera recebeu mais de 20 artistas de todas as artes, como música, dança, poesia e artes visuais.

O Grito Rock já está na sua 11º edição e é feito de forma colaborativa, conectando este ano mais de 300 cidades, entre fevereiro e março. O festival foi idealizado pelo coletivo Espaço Cubo em 2005, em Cuiabá (MT), como alternativa ao Carnaval tradicional de micaretas. Hoje ele é organizado pelo Fora do Eixo.

No primeiro dia, o cantor Thiago Pethit subiu ao palco do Auditório do Ibirauera com os convidados Lobão, Michelli Provensi e Cida Moreira. Neste domingo, Edgar Scandurra e Les Provocateurs convidam Wanderléa.

"O festival é construído colaborativamente pela rede de produtores formada a cada ano e que se fortalece com as conexões para potencializar a realidade local", explica o coordenador nacional do Grito Rock, Felipe Altenfelder.

A produção colaborativa envolve cerca de 9 mil pessoas trabalhando direta e indiretamente, sendo divididos entre empregos formais e informais, autônomos, voluntários e – boa parte deles – são de colaboradores da produção, que recebem em moedas sociais ao invés da moeda oficial vigente (Real).

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