Idioma português? O que é isso?

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Heitor Dias · Rio de Janeiro, RJ
12/3/2010 · 0 · 0
 

Certa vez, conversando com um senhor chileno a respeito de escritores mundialmente conhecidos e famosos, o nome de Pablo Neruda foi-me brandido ao jeito de arma que matasse em mim qualquer tentativa de citar, em contrapartida, algum poeta brasileiro que se equiparasse ao magnífico autor andino, em termos de reconhecimento internacional. A verdade é que, para meu desgosto, apenas o nome de Jorge Amado me ocorreu na oportunidade. Faltou-me, na hora, apelar para o controvertido Paulo Coelho, mas isso é realmente muitíssimo pouco. E por qual razão, quando nossos nomes consagrados em caráter nacional suplantam em número, e ouso dizer, sem patriotadas, em qualidade o conjunto dos escritores de toda a América Latina? E mais: se medíssemos em quantidade e qualidade a literatura brasileira - não importa o gênero, se poesia, romance, ensaio, história, pesquisa - e a colocássemos diante da literatura chilena, estaríamos como que fazendo um enfrentamento do acervo de uma biblioteca das mais atualizadas e sortidas contra uma simples biblioteca de escola secundária. Que me perdõem os chilenos, embora minha ousada comparação não se limite unicamente aos compatriotas de O'Higgins, como disse acima, mas abranja toda a literatura latino-americana, do México ao Uruguai. A cristalina verdade é que nosso idioma nos trai, afugenta tradutores criando-lhes armadilhas as mais amaldiçoadas, e nesse pântano se atolam poetas e romancistas, emparedados no espaço geográfico verde e amarelo, do Oiapoque ao Chuí. É claro que temos Jorge Amado, além do sempre discutido Paulo Coelho, traduzidos em diversos idiomas, mas isso é uma ninharia frente ao batalhão formado por encantadores poetas, contistas e romancistas, a começar pelo inigualável mestre da redação narrativa, Machado de Assis, e dele em diante nos aparecendo nomes de primeira grandeza, tais como Mário Quintana, Clarice Lispector, Érico Veríssimo, José Lins do Rego, Adélia Prado, Fernando Sabino, Graciliano Ramos, Ferreira Gullar, Manuel Bandeira, Oswald de Andrade, Carlos Drummond de Andrade, Paulo Mendes Campos, Pedro Nava, João Cabral de Melo Neto, Vinícius de Moraes, Bernardo Éllis e muitos outros mais, isto se, além de Machado, abrangermos unicamente os valores surgidos do Modernismo pra cá. Todos eles, porém e com pouquíssimas exceções, jamais traduzidos e divulgados fora do Brasil.
O mesmo se passa com o cancioneiro popular de nossa terra, conhecido internacionalmente apenas pelo ritmo, o som, mas cujos versos jamais são memorizados além das fronteiras brasileiras. Exemplo marcante é a composição Garota de Ipanema, ícone único, ouso assim qualificá-la, da música popular do Brasil no exterior. Sua melodia atravessou fronteiras, não há dúvida, dada à penetração de Antonio Carlos Jobim no mundo artístico e social de outras terras, e foi gravada até pelo inolvidável astro da canção e do cinema norte-americano Frank Sinatra, mas em inglês, naturalmente. Quando se pergunta a um estrangeiro se ele conhece e gosta de nossa música popular, infalivelmente Garota de Ipanema é a primeira, e geralmente a única música a ser citada. O gringo pode até, às vezes, tentar imitar a marcação bossanovista, embalado no que conhece de ouvido, por exemplo, da música de João Donato, ou dos ''obá-obá-obá'' americanizados de Sérgio Mendes, mas sem ousar dizer uma estrofe em português, ainda que imperfeita na dicção. Unicamente o som, o balanço brasileiro é percebido, e na verdade aplaudidíssimo e imitado no mundo todo, mas nenhuma frase em português é pronunciada.
Talvez alguns saudosistas venham contestar as presentes argumentações com o exemplo de Carmem Miranda. Mas a denominada Pequena Notável, com seus requebros, suas mãos ondulantes e cabeça coberta com aquela salada de frutas, ao som do samba americanizado do Bando da Lua, fez tanto para divulgar o falar brasileiro quanto a figura do Zé Carioca, isto é, nada que não fosse a injeção de cores e palmeiras ao ritmo de pandeiros e violões mecanizados na limitadíssima idéia que sempre tiveram os norte-americanos a respeito da existência brasileira.
Então, pois, talvez argumentem alguns - O que fazer? Falarmos todos o espanhol? Claro que não, até porque, apesar de tanta gozação que largamos pra cima dos portugueses, é impensável nosso país, do tamanhão dele, ter sido conquistado por Cortez, Pizarro ou qualquer outro daqueles bandoleiros vindos das terras dos reis de Espanha, eis que nosso imenso espaço teria dado em algumas bolívias, equadores, perus e coisas tais. Antes do jeito que está, ora pois, pois ! Mas é duro aguentar, como no exemplo do meu interlocutor chileno, aquela insistência em um único e solitário autor nacional, quando temos dezenas de maravilhosos nomes para todos os gostos literários, travados infelizmente pela dificuldade de o idioma português ser compreendido por outros povos, ressalvada a inegável beleza dos versos de Neruda. É o fado, é o destino.



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