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LANÇAMENTO DE “CLANDESTINOS”

divulgação
"Clandestinos", o novo livro do autor baiano Elenilson Nascimento.
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Elenilson Nascimento · Salvador, BA
4/6/2010 · 0 · 0
 

“Dois personagens opostos, um cheio de vida porque está na iminência da morte, e a outra, cheia de morte porque já não sonhava em vida. Uma obra que transcende, se revelando moderna porque ser fragmentada, conferindo uma leitura dinâmica por ser abordada por dois tutores completamente diferentes.”

Por Elenilson Nascimento
Este é um livro muito especial para mim, justamente por ter sido um dos meus primeiros trabalhos, escrito no ano de 2002, um ano bizarro na minha vida. Um livro cheio de conflitos, cheio de revoltas e de desesperança, mas, talvez por causa disso, um livro que gritava para ser editado logo.
Este romance conta a estória do jovem Frederico, um poeta punk envolvido num crime, viciado em drogas, sexo e Rimbaud, que nas suas fugas da polícia, se vê num Rio de Janeiro caótico e posteriormente em plena guerra civil em El Salvador, onde aprende com uma realidade sangrenta que as coisas eram bem mais amplas que as estrofes de seus versos tortos. Tempos depois se descobre com Aids e apaixonado por Fernanda Feeling, uma burguesa que abdica de sua vida por causa do poeta laureado.
Toda estória de Frederico se passa nos anos 80, época em que a juventude e a cultura brasileira se embebiam por uma falsa liberdade, por uma falsa realidade e onde a sociedade se tornava mais feminina e feminista. Época que se propagava o amor livre, ainda que em tempos de Aids, onde as meninas se tornavam mais precocemente mulheres e mães solteiras, época da explosão do rock funcional, da cultura do jeans rasgado e da Legião Urbana, em uma Brasília perdida em meio às eleições diretas, movimentos punks, rebeldia, preconceitos, mortes e alienação, e também, com muita poesia – marca registrada do poeta punk.
A obra foi curiosamente escrita há quatro mãos, por mim e a escritora Anna Carvalho, e marca também a renúncia desses autores pelo sonho, ou em nome dele. “Clandestinos” é uma estória que se difere das demais ditas clichês pela tarja preta e compulsória da realidade numa mensagem que, dentro do mosaico do livro, se torna uma clara renúncia pelo sonho, ou pelo seu idealismo num enredo cheio de veneno e críticas, mas não uma mera crítica, uma crítica repreensível, ácida em alguns momentos.
E parafraseando a leitura de um certo mal do século, uma crítica a valores que também são repreensíveis: a paixão, a cobiça, o poder, o idealismo, o sonho, a luxúria, o amor platônico, tudo isso se torna uma coisa pequena quando não sabemos administrar os nossos próprios sentimentos.
FREDERICO & FEELING – E como o título já sugere, como uma metonímia do enredo, “Clandestinos” passa pelas mãos de dois personagens extremamente opostos e por serem opostos talvez tenham se atraído e/ou traído tanto. Duas personas absolutamente diferentes, abundantemente perdidos, mas iguais em um aspecto: à irreverência e a passionalidade em se tratar a vida transgredindo os seus códigos de ética.
Frederico e Fernanda Feeling, ela de uma família de poder e ele de uma família cujo poder, era irremediavelmente o sonho, ambos ricos em estórias e dilemas de vida. Uma estória cronológica e que se passa na sede do poder, uma Brasília forjada pela morte de Tancredo Neves, embebida de uma possível liberdade, num cenário de paradoxos: o poder em vias contrárias, o excesso dele, a ditadura, as drogas, todo um lado da arrogância de um país velado pela história e pela própria cultura.
LABOR DA ESCRITA – No aspecto formal, o livro se revela numa nova tendência nesse labor da minha escrita e habitual rebeldia em linhas tortas, tendo escrito os capítulos ímpares, e Anna Carvalho, cujo "eu" feminino brota em suas possibilidades fazendo da literatura uma bandeira de gênero, escrito os capítulos pares. Cada um com o seu personagem. Frederico revelando-se com apuro por sobre uma realidade feita em caricaturas e Fernanda Feeling intimista, cheia de nuances literárias, o que confere uma obra absolutamente cosmopolita.
Mesmo com toda a loucura que foi os anos 80, o amor começa a se revelar quando Frederico se descobre portador do vírus da Aids, e Fernanda portadora do vírus da realidade. Ambos doentes terminais, um cheio de vida porque está na iminência da morte, e a outra, cheia de morte porque já não sonhava em vida. Uma obra que transcende a tudo que é absolutamente esteta, se revelando moderna porque ser fragmentada na sua linguagem e, muitas vezes, poética, cheia de elementos como um vídeo-clipe, conferindo uma leitura dinâmica por ser abordada por dois tutores completamente diferentes.
Encarar “Clandestinos” foi à descoberta de uma possibilidade de apresentar um momento histórico que o Brasil estava passado, quando nunca nos sentimos tão fecundos, tão eufóricos, tão exultantes, fazendo com que deixássemos de lado outros projetos. Nesse período, outras criações tinham menor importância, pelo menos para mim.
Mas com o tempo, depois do livro pronto, tudo se desgasta, e me vi sozinho buscando apoio e parcerias para a edição de “Clandestinos”. Tanto que até a então “perfeita parceria” na produção o livro se deteriorou com o afastamento de Anna Carvalho da minha vida. E isso, talvez, acabou me deixando com mais vontade de correr atrás de uma edição, melhor do que ele permanecer eternamente confinado numa gaveta.
Naquela época, começamos a redigir o livro, discutir os assuntos, pesquisar sobre os anos 80, brigando pela Internet ou pelo telefone, entre 2001 e o começo de 2003, e nos sentíamos em estado de desespero e esterilidade, nada mais natural por acreditar na força desse livro. Mas, como sempre, a realidade da falta de apoio é o que mais magoa.
Hoje, depois de tudo que passei sozinho, me parece incrível e irreal como pude ter escrito “Clandestinos” há quatro mãos. Por tudo isso, espero que esse livro possa remeter outros a um olhar sobre a realidade, a realidade da alma, e seu mote mais certo. Quero que a mensagem do punk Frederico, que junto com o seu autor, siga sangrando e agonizando, colocando lágrimas para fora e sobrevivendo, dando um grito neológico de amor próprio, mesmo fragmentado, e que possa fazer os “senhores feudais editores” enxergá-la com muito mais nitidez, lê-la como se fosse clarividência.
Depois de uma séria de problemas e “nãos” categoricamente explanados e documentados, por fim, a finalização do projeto gráfico da capa do livro ficou por conta do simpaticíssimo Euds Freitas, para que todos vocês possam saber como foi grande a contribuição de Frederico e Fernanda Feeling, e como também foram terríveis as suas atribuições, pois neste tempo onde a literatura encontra-se perdida e cheia de hienas risonhas loucas para devorar o nosso último trocado ou se trocando por migalhas para defecar na cara do próximo não tão próximo, a literatura ainda precisa de ideias, de espiritualidade, de paciência, de pesquisa, de cooperação, de revoltas, de testemunhos, de perspectivas, de laudas, de canetas, papeis, poetas e sonhadores querendo muito, pois o homem se tornou uma espécie de robô de peito vazio.
Mas, por fim, a crise na literatura é a crise do próprio homem. Ninguém quer patrocinar cultura. Ninguém valoriza o pensar. Ninguém quer mais colocar o logotipo de sua empresa numa coisa tão utópica como literatura. A única coisa que esperam é que alguém seja crucificado por um descuido. Por isso esse livro sobreviveu e sobreviverá, mesmo com a torcida das hienas enfadonhas do contra. (“CLANDESTINOS” de Elenilson Nascimento e Anna Carvalho, romance, 427 pags, 1ª edição, Clube de Autores, São Paulo – 2010)

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