Há exatamente quarenta anos, intelectuais de diversos países convulsionaram o Ocidente ao realizar o Ocidente com mais ímpeto que os séculos prévios. Jamais a igualdade foi defendida tão docemente. A revolução sexual começa com a conquista gradual de direitos por pessoas de gênero feminino e de orientação sexual hererodoxa. Conseguiu-se também que pessoas de coloração heterodoxa não fossem mais tomadas como inferiores impunemente. As crianças não seriam mais construídas ao bel prazer dos professores. Os casamentos não seriam mais sentenças de prisão perpétua. O sexo não seria mais encarado tão somente como mero mecanismo de procriação.
A liberdade veio da igualdade. Eis porque a direita execra a geração de 68. Como disse Hobsbawm, com a propriedade de costume, "a Idade Média acabou de repente" na década anterior aos eventos. Não à toa, Sarkozy falou que a França devia se livrar do "cinismo de 68". Mas o cinismo é da patotinha do primeiro ministro francês. Vivemos tempos cínicos porque estamos perdendo o espírito daqueles jovens. A direita recupera-se de sua própria estupidez e tenta ganhar ares de verdade esquecida. A intolerância cresce ao redor do globo. Os racistas e os sexistas ganham batalhas acadêmicas. A homofobia se espalha. Mas também aumenta o desejo de fechar-se em uma identidade resistente clara e aceitar o discurso reinante de que a desigualdade é inevitável. Os guetos proliferam. A liberdade decai.
A sociedade de consumo absorveu os ideais e os esvaziou para mercantilizá-los. "Eles venceram e o sinal está fechado pra nós, que somos jovens", como diria Belchior. Woodstock agora só se for "free of drugs". A nosso redor, quantas práticas terapêuticas! O que representam? Quem está doente? O Ocidente está. Esqueceu seus fundamentos. Trocou seus ideais por uma televisão de plasma. E os jovens a lutar tão só para não pagar o ônibus. Decaímos.
A morte do criador do LSD, Albert Hofman, na última terça-feira, marca o fim de uma era. "O sonho acabou" e já não nos deixam dormir. Vivemos em tempos cínicos, vivemos em tempos desiguais. A falta de liberdade é conseqüência. Vivemos em tempos caretas, em tempos beatos, em tempos apáticos. Tempos mesquinhos, como bem notam Badiou, Bauman e tantos outros. Como dizia Gonzaguinha em 1981: "Não há nada mais maior de grande do que a pessoa". É isso que o maio de 68 nos ensinou e agora parecemos esquecer.
Caro Diego,
É tocante o seu texto. Uma sincera reflexão sobre os nossos dias. Eu adolescia em 68 e, às vezes, sou tomado pelas lembranças nostálgica daqueles dias distantes. E sobre minha alma de poeta paira certo desejo de reviver, mesmo que na poesia, um tempo que seja igualmente rico em esperanças e ideais. Força e luz. Abraços
obrigado, Feitosa. e minha alma de poeta e militante deseja um novo tempo de igual efervescência político-cultural.
Diego Calazans · Aracaju, SE 3/5/2008 17:14
"Não há nada mais maior de grande do que a pessoa"
PARABENS, ISSO PARA MIM RESUMI MUITO.
É do Gozaguinha a frase. Está no disco que ele gravou com o pai. Muito bom, por sinal. Também acho que a frase diz tudo.
Diego Calazans · Aracaju, SE 3/5/2008 23:45
Diego, interessante texto, lembrou-me
a obra "1968 – O ano que não terminou" de Zuenir Ventura, que agora está com o seu segundo referente a 1968 – " 1968 - O que fizemos de nós"
Já não se tem uma juventude com "a velha calça desbotada ou coisa assim". Jovens alienados, individuais, individualistas, querem sucesso, metas para a riqueza rápida, poder, atrás de seus monitores...covardes...o próximo que fique em filas e dane-se.Tempos de mesquinhez...
parabéns...Deixo esta sugestão de leitura.
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Diego, querido: maio de 68 - confesso que vivi e continuo sobreviveno. Parabens pelo contexto. Votado.Bjos.
graça grauna · Recife, PE 19/5/2008 15:29Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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