Mascarados assaltam ruas em Mato Grosso

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eduardo ferreira · Cuiabá, MT
15/3/2006 · 0 · 0
 

NOTA DO PRÉ-SITE, PUBLICADA EM 24/02/2006 - Um misto de terror, susto, alegria, crianças correndo de medo, uma massa de mascarados em movimento no ritmo binário de caixas e surdos, de chicotes em punho, rabos, visuais horrendos e monstruosos, sinos pendurados na cintura, um show de figuras grotescas, desfilando irreverência. É o Bloco dos Caretas, expressão mais pura do carnaval da pacata Guiratinga, pequena cidade matogrossense que fica a 320 km de Cuiabá.

O município foi criado por baianos, maranhenses e outros nordestinos por volta do ano de 1908. Eles vieram para esta região atraídos pela facilidade com que se encontrava os diamantes que brotavam dos monchões do Lageado, do Areia, das grotas do Garças, rios que embalaram sonhos de riqueza e poder. Foi uma das cidades mais importantes da região - antigo leste matogrossense, hoje região sul, após a divisão do Estado - até a década de 1970. A quantidade e qualidade dos diamantes tornou-a muito rica. Muitos músicos, poetas, atores e gente antenada em vários aspectos da cultura saíram dali e ganharam mundo com suas proezas.

Os Caretas surgiram em 1948, fruto da impossibilidade da periferia de participar das folias dos salões da elite, que na época tinha ligações muito fortes com Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo, os centros motores da economia brasileira, para onde iam os diamantes. Os barrados dos bailes carnavalescos, sem dinheiro e sem alternativa de vencer os preconceitos sociais vigentes investiram na força criadora da imaginação para dar vida ao Bloco dos Caretas. De 1948 a meados de 1960 eram comandados pelos baianos Chico Magro e Leozino Moreira da Silva, a primeira geração dos carnavalescos de rua. A partir daí a coisa não parou mais, gerações foram se sucedendo e hoje a festa se insere fortemente como parte importante da tradição do lugar, agora incorporada pelas elites sociais e políticas que apresentam os integrantes do Bloco como legítimos representantes do município.

Os Caretas, em seu início, tinham um caráter assustador para as crianças do centro da cidade, que fugiam apavoradas ao menor som dos sinos (daqueles que se coloca em vacas) que eram amarrados nas suas cinturas. Corriam para cima das crianças, que disparavam correndo aterrorizadas e gritando de pavor. As máscaras, confeccionadas pelo próprio grupo, sempre foram de uma riqueza impressionante de formas e cores. Feitas de papel machê, privilegiaram formas dantescas, chifrudas, monstruosas, expressão dos piores pesadelos.

Hoje, a folia é mais organizada e conta com investimento público, mesmo que modestos e sujeitos à disposição, maior ou menor, do grupo que estiver no poder municipal. Entre 500 e 600 foliões se preparam num ginásio de esportes e saem às ruas com suas fantasias coloridas e espetaculares incorporando atualmente elementos da cultura de massa, como Frankestein, Pânico, Fred Krueger e outros. Originária do bairro Areão, ainda é ali que se concentram as produções das máscaras e dos vestidões de chita. Os coordenadores do bloco vivem praticamente o ano todo preparando as máscaras e as atividades não se restringem mais apenas ao carnaval. Sempre são chamados a representar a cidade e o Estado quando se trata de mostrar a cultura matogrossense em feiras de turismo e mostras culturais Brasil afora.

É isso aí, o Brasil tem diferentes modos de brincar o carnaval. Cada região com suas caras e bocas brindando a alegria ao seu jeito. Fantasias que constituem o rico imaginário do povo brasileiro.

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