REPORTAGEM PUBLICADA EM VOX OBJETIVA - ABR. 2011
Bar promove diálogo de frequentadores com a obra de Fernando Sabino em espaço convidativo: “Encontro Marcado”
Lucas Alvarenga
Cruzei o portão, caminhei por debaixo de uma parreira e perguntei: “Quem é o Eduardo?”. Quis o destino que fosse ele, embora pudesse ser Hugo, Mauro. Ao me ver, de pronto, cumprimentou-me com um aceno, conversou comigo brevemente sobre a matéria e convidou-me a assentar em uma mesa próxima. Um gesto normal para um proprietário de bar se este não tivesse um espaço chamado “Encontro Marcado”.
Obra-prima do escritor Fernando Sabino, o livro homônimo discorre sobre o compromisso de três colegas de ginásio de se reencontrarem em um dia e lugar qualquer. Eduardo, Hugo e Mauro, personagens de Sabino, que na vida real também teve um encontro marcante. Em um bar, igual ao protagonista da obra, o belo-horizontino conheceu Carlos Drummond de Andrade, ao lado do trio de amigos Hélio Pellegrino, Otto Lara Resende e Paulo Mendes Campos.
Pois, em uma mesa, estava eu de frente para dois dos proprietários de “O Pulo do Gato”, bar que acomoda o espaço reservado a Sabino. Sim, dois. Cláudio chegou depois e como bom mineiro, espiou e assim não perdeu o trem da estória. Logo, em poucos minutos, ele e Eduardo declararam a admiração por Fernando, assim como este declarou em “Minas Enigma” e tantos outros textos o carinho por este Estado e pelos mineiros. Apreço “vigiado” de perto no espaço “Encontro Marcado”.
“Para fazer um barulho”
Na mente dos idealizadores desde dezembro passado, “O Pulo do Gato” começou a ganhar forma em janeiro, para que em abril fosse inaugurado. O bar de 360 m2 agrega experiências, apresenta homenagens e sela a amizade de Cláudio Guimarães, Eduardo Coutinho e Paulo Pires, os proprietários. “A coisa de integrar um espaço em homenagem ao Sabino, de transmitir a ideia de um encontro marcado, combinou muito com o ambiente, o nosso bar”, opina Eduardo.
Leitor e admirador da obra de Sabino, Cláudio se recorda de livros e de trechos da obra maior do mineiro para justificar a escolha do nome do mesalinho em homenagem ao mestre da literatura. “Olha, ele tem livros maravilhosos como o Grande Mentecapto, mas o Encontro Marcado é a obra-prima dele. Além disso, o nome combina muito com boteco, roda entre amigos. E ele era um boêmio!”, esclarece Cláudio.
Detalhes que podem ser conferidos ao subir alguns degraus, próximos à entrada do bar. Em uma área reservada, um painel em forma de linha do tempo conta a trajetória do escritor e jornalista, possível graças ao filho de Fernando, Bernardo Sabino. “Ele tem um projeto de divulgação dos trabalhos do pai e, inclusive, viaja pelo interior expondo esta história”, explica Eduardo, antes de informar que está prevista a inauguração oficial do mesalinho para abril. “Queremos fazer um barulho, encontrar artistas mineiros e montar um verdadeiro encontro marcado”, revela empolgado Cláudio, que deseja integrar logo integrar o espaço ao bar.
Sons e cheiros do escritor
Já dizia Fernando Sabino que “a música é o silêncio em movimento”. Fluida, capaz de compor o ambiente, para Cláudio e Eduardo ela é um diferencial, que se conecta ao local e ao mesalinho. “O som fica rolando na frente com qualidade, suave, parecendo um CD. Quando a pessoa se atenta, percebe que tem um músico no palco”, observa Eduardo, que passa a bola para Cláudio citar às preferências musicais da casa, que contou com Chico Amaral na abertura. “A referência que nós estamos buscando são os artistas mineiros da música instrumental, do MPB e do jazz”. Este tocado pelo próprio Sabino, cuja lápide resume a atração pelo gênero: “Aqui jazz Fernando Sabino, que nasceu homem e morreu menino!”.
Na gastronomia, mais Sabino. Afinal, como lembrou o próprio Cláudio, Fernando era o “cara do sotaque mineiro e do frango ao molho pardo”, especialidade da casa aos domingos. Como se buscassem na literatura do belo-horizontino, os amigos rechearam o pão-de-queijo com pernil, um dos inúmeros pratos citados pelo escritor nas obras que compôs. Um toque de mineiridade e de comida de boteco ao local de happy hour, que assim como os bares do centro da capital mineira, presencia o encontro de diferentes gerações.
O grande lance
Tudo bem que o ambiente homenageie Sabino. Entretanto, uma pergunta não poderia ter passado em branco: “Por que ‘O Pulo do Gato’”. Na resposta de Cláudio e Eduardo, uma grata surpresa. “Quando nós chegamos lá no primeiro dia, abrimos aquele portão e ele apareceu. Um gato branco... ‘E que gato é esse!’, pensamos”. O bichano se tornou mais uma companhia para a roda de amigos e pode ser encontrado em qualquer parte do bar. No palco, no telhado, próximo às mesas. “Um ótimo sinal e um show de receptividade”, expressa Cláudio aos risos.
Quando já estava satisfeito com a explicação, eis que Eduardo começa a contar a fábula do tigre e do gato. “Um dia, o tigre, muito mais pesado, começou a aprender alguns pulos com o gato. Depois de um tempo ele resolveu atacá-lo, pensando saber todos os movimentos dele. Daí o gato de uma cambalhota e surpreendeu o tigre. Esse é o grande lance. O pulo do gato. O que tentamos fazer por aqui, reunindo um ambiente de amigos, com música de qualidade e boa gastronomia”, conta Eduardo, com o sorriso largo.
Inspirado no felino, os proprietários do bar buscaram nos desenhos animados nomes para os petiscos da casa. Dentre eles, destaque para o guloso Garfield, o malandro Manda-Chuva e o Leão da Montanha, com bordões como “saída pela direita”. Detalhes de uma grande ideia de amigos que, hoje, seja na gastronomia, na música, no dedo de prosa ou na literatura, têm motivos de sobra para se divertirem, trabalharem e se encontrarem diariamente.
Bar O Pulo do Gato
Endereço: Rua Outono, 523, Bairro Cruzeiro - Belo Horizonte
Horários: de segunda a sexta-feira, a partir das 18h e sábados e domingos a partir do meio dia
Contato: 3282.6751
Observação: o bar é adaptado para cadeirantes
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