momentos de ANNA BELLA GEIGER, comentados por ela

Rodrigo Machado
Anna Bela Geiger ao lado de sua obra "Tabua de Carne"
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Rodrigo Machado · Brasília, DF
3/6/2014 · 6 · 0
 

Arte abstrata eh como mergulhar numa religião profunda,
Anna Bella Geiger


Anna Bella Geiger Circa MMXI
Mostra reúne 46 obras de uma das mais importantes aristas plásticas do país, deflagrando sua riqueza de resultados obtidos ao logo de seus mais de 60 anos de atividade, com da utilização de uma variedade de meios, técnicas e materiais.




quatro MOMENTOS de ANNA BELLA GEIGER, comentados por ela


A partir de 1968, em meio à ditadura militar, Anna Bella percebeu que era o momento de protestar através de sua arte, “senti isso na carne, em minhas entranhas, uma necessidade que vinha de dentro de mim”, disse. Deu-se então o início de sua fase Visceral, batizada assim pelo crítico de arte Fernando Cocchiarale. Em “Tabua de Carne”, de 1969, Anna se inspirou numa cena flagrada no Bairro do Flamengo, no Rio de Janeiro, em frente a um açougue, ao ver um pedaço de fígado exposto. “Escorria um sague escuro e bem acima, refletindo tudo aquilo, estava uma chapa de metal polido”, relembra. A partir de uma sensação de fúria que tomou conta da artista por dois dias seguidos, nasceu a obra. “No centro da chapa de metal, surgiu essa bandeira do Brasil estilizada, vi ali o reflexo daquele pedaço de fígado cortado e sangrando”, comentou Anna.

Ao ser perguntada se alguma de suas obras chegou a ser censurada, Anna diz que nunca teve um trabalho seu retirado de uma exposição e completou sorrindo com certa ironia: “arte abstrata contemporânea não é qualquer um que interpreta, tem que ter conteúdo”. Nos anos 1970, mesmo exposições em pequenas galerias, de menor expressão, não passavam despercebidas dos olhos da ditadura. Certa vez, na noite de abertura de uma exposição, viu um casal entrando de mãos dadas, “estranhamos na hora, ninguém entra numa galeria em clima romântico”, comenta. Ele usava uma camisa florida e ela um vestidinho comum da época, isso foi o que deixou evidente que eram olheiros da repressão, “corria entre nós que eles chegam usando essa roupa, meio fora de contexto”, relembra com desdém. Num tom de curiosidade, o homem perguntou sobre a peça ‘BU-RO-CRA-CIA’, “respondi que gostava de imitar a escrita infantil das crianças, éramos espertos e sabíamos responder sem explicar muito”, sorri.

Em 2003, quando apresentou a obra “Sobre Nácar” para Wagner Barja, o amigo logo sugeriu que a peça fosse produzida numa escala muito maior, de 6 metros, para ficar em exposição permanente em algum monumento de Brasília. “Não é minha praia construir obras tridimensionais, nunca foi, não sou assim nos meus abraços artísticos”, disse Anna logo de cara. Meses se passaram, mas Barja estava com essa ideia fixa e acabou a convencendo a realizar estudos que acabaram por cair nas graças do Ministério da Justiça, “pronto, agora tinha que realizar a tal concha de 6m de comprimento, 3 de largura de 2,5 de altura”. A peça foi toda produzida em Brasília, “não pude acompanhar o trabalho de perto, mas o resultado foi incrível”, confirma. A peça, intitulada “Sobre Nácar, Capital e Trabalho”, está instalada ao lado do prédio do Superior Tribunal do Trabalho, um dos últimos trabalhos de Oscar Niemeyer.

Na fase Zona Portuária, Anna expõe seus trabalhos paisagísticos e a obra que ganha desta que é “Flumenpont nº 1”, de 2001. A partir de um registro da Ponte de Brooklin, de um fotógrafo desconhecido dos anos 30, a artista cria situação para expressar dor e sofrimento pós os ataques às Torres Gêmeas em Nova Iorque, em 11 de setembro, cidade onde já passou longas temporadas. “Foi um momento deixou a todos chocados, flutuantes, por isso a ponte”, justifica. “Pus essa bolinha azul, de natal mesmo, uma época alegre, como é Nova Iorque pra mim, mas tem esse pigmento azul escorrendo, como um sangue pesado”, fecha em Em 2001, depois das torres. A bolinha de natal que eh alegre, mas que escorre um sangue azul de pigmento.

CIRCA*MMXI fica em cartaz no Museu Nacional dos Correios até 27 de julho. Visitação de terça a sexta, das 10 às 19h, e aos finais de semana e feriados, das 12h às 18h. O Museu está próximo a estacionamento amplo, pouco utilizado depois das 17h e em dias sem expediente comercial. Equipe de segurança bem treinada esta à disposição para recepcionar os visitantes. E na galeria, no quarto andar do edifício, material impresso, catálogo, e monitor auxiliam os visitantes interessados em mais informações. Classificação indicativa é livre para todos os públicos e a entrada é franca. O Museu Nacional dos Correios fica no Setor Comercial Sul, Quadra 04, Bloco “A”, Edifício Apolo, nº 256.

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