Veja o ensaio produzido pela equipe do Overmundo.
Didática da borda.
Enquanto quatro paredes, um chão e um teto representam para alguns a instância mais elevada do aconchego, as ruas traiçoeiras do baixo-centro belo horizontino se tornam para outros o fomento para a criação de laços familiares, de moradia, do sentimento de pertencimento e da autoafirmação. O crack é, obviamente, um dos contribuidores para a inversão tradicionalmente ilógica dos valores, que induzem o indÃvuo a extrapolar as quatro paredes e pensar as ruas como via de libertação.
Diferente de outros centros urbanos, em Belo Horizonte não há só uma zona ocupada pelo comércio e uso do crack. Existem dezenas delas, espalhadas na cidade e, principalmente, entorno dos polos comerciais. São chamadas de malocas e, por meio da difusão que caracteriza a nossa Cracolândia, assumem diferentes dinâmicas de funcionamento. A primeira se desenvolve à base da identificação e da afinidade entre os usuários. Entretanto, as malocas, em sua grande maioria, são lugares turbulentos. Num fluxo rápido, a figura de um lÃder que zela dá lugar ao traficante e a fraternidade desfalece frente ao furor do vÃcio.
A famÃlia de Rua.
Júlio participa da linha de frente de sua maloca e é responsável por gerir e resolver os problemas dos outros membros do grupo. Não há uma marca estética que aponte a competência de sua gestão e que o diferencie dos demais. Faltam-lhe dentes, é magro e de fisionomia maltrada pela rotina sádica. Mas os trinta e três anos de vivência nas ruas lhe permitiram que construÃsse lastros e que adquirisse saberes para lidar com os perigos suburbanos.
Com um histórico pertubador, este personagem da vida real, tão humano quanto qualquer um, poderia facilmente se integrar à s narrativas de “Cidade de Deus†ou “Última Parada 174â€. Uma mãe morta por causa do álcool, duas irmãs assassinadas por conta do crack, a rejeição de uma filha adolescente e uma nova famÃlia escolhida a dedo, trabalhando cooperativamente pela sobrevivência coletiva. “É um carinho que eles têm por mim, um amor que eu não tive da minha própria famÃlia. Se eu ver covardia com eles, eu apelo, faço qualquer coisa.â€
Os bancos e as mesas públicas, próximas a Estação de Trem, ornam a residência quase imaginiária construÃda pela convivência. “É ali onde a gente se reune quando acordamos. Conversamos sobre o dia, tomamos a primeira cachaça e vamos pra arrumação. Tudo é arrumado. As cobertas dobradas e empilhadas. Toda manhã a gente acorda, deixa a ‘casa em ordem’ e voltamos pra tomar a segunda cachaçaâ€.
A Rua da Autoafirmação.
Jeferson, capixaba, um dos membros da maloca, na casa dos trinta anos, fala que as cracolândias, que para ele são cenários de decadência moral, transgridem os princÃpios da sociedade convencional e são também fortes alicerces da autoafirmação dos transeuntes. Ele diz ainda que apesar de já ter prejudicado seus familiares, ganhou a admiração do pai por conseguir sobreviver nas ruas sustentando seu vÃcio.
“Eu tenho quatro irmãos, todos ficam na aba dele (do pai). Só eu que tive uma postura diferente. Antes eu tinha medo de demonstrar o que eu sou. Graças a Deus, eu tive que sair pra rua, sofrer um tiquinho, pra voltar pra eles (a famÃlia) e falar: E aÃ, tô aqui.â€
As Circunstâncias Segundo o Artesão.
A rua é um lugar sinistro, segundo um outro Jeferson, artesão de rua, maluco de estrada, que arrumava seus panos na pedra da Praça Sete. Lá, continuou ele, só existem pessoas de má Ãndole, como ladrões e assassinos. O que tem de ruim e não é aceito nas favelas, vai todo para a rua, onde é mais fácil se conseguir drogas do que um pedaço de pão. Jeferson viciou-se há alguns anos, enquanto trabalhava em uma penitenciária. Diz que o crack “acende um pedaço do cérebro que não funcionava, dá um prazer que não encontra em outras coisasâ€. A partir daÃ, busca na rua algo que não encontra dentro de casa.
“As vezes eu me sinto até um zumbi. O crack me controla. Mas nunca precisei maltratar, roubar coisas, porque eu sou artesão. Pior pra mim: faço vários trabalhos maravilhosos, que a galera fala, vou vender e vou trocar em drogaâ€.
Poucas pessoas em Belo Horizonte têm informações coerentes e não romantizadas sobre a Cracolândia. Isso se deve aos furos jornalÃsticos da MÃdia tradicional, com seus relatos densos, imagens capturadas ao longe, aparentemente ousadas e mediadas por interlocutores que provavelmente nem se fizeram presentes nas cenas. A população, então, tem se munido de um repertório superficial, que a torna incapaz de mensurar os contextos sociais de forma correta.
“Esse lance da sociedade achar que todo mundo que usa é ladrão ou estuprador tá errado. Tem essa classe (de usuários), e nós que não gostamos da criminalidade pagamos pelos erros deles. Pra mim isso é tipo uma doença, pior que a AIDS. E acho também que o maior problema da sociedade é o preconceito. Eles não usam drogas, mas são viciados em pornô de criança. Uso mesmo, fumo mesmo, e não incomodo ninguém.†Afirma o artesão.
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