O Ano Epifãnico de Joyce

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João da Mata Costa · Natal, RN
10/11/2012 · 1 · 0
 

O Ano de Joyce

Tudo é perda, tudo quer buscar, cadê / Tanta gente canta, tanta gente cala / Tantas almas esticadas no curtume / Sobre toda estrada, sobre toda sala / Paira, monstruosa, a sombra do ciúme (Caetano Veloso, O Ciúme)

O ano de 1904 foi para Joyce um ano talismânico. Tudo na sua vida converge para o grande encontro com Nora Barnacle em Junho deste ano. Foi nesse período que ele elabora a sua teoria sobre o Hamlet, de Shakespeare. Segundo sua teoria, quem foi chifrado pela rainha com o seu irmão foi o pai de Hamlet. Assim como o próprio Shakespeare teria sido traído por seu irmão com Anne Hathway. Muitos dos heróis de Joyce são cornos. O tema do ciúme está presente na sua única peça “Exílio”, e no último conto “The Dead” do livro Dublinenses. Um dos maiores contos do século XX foi levado às telas por John Huston com o título “Os Vivos e os Mortos” (EUA 1987). Na sua peça exílio há um simbolismo que jorra numa efusão cósmica: A pedra (a mulher como objeto sexual, segundo Bertha da peça Exílio) que Robert acaricia pela sua beleza, a chuva ( símbolo da fertilização), as rosas exuberantes ( símbolo místico), etc.

No Ulisses, Joyce fala muito através dos sons. O leitor sente prazer e dor ao ouvir o som da trombeta, o suspiros das folhas, o ruído do mar e o som da água escoando no ralo da pia em espiral. Joyce é um alquimista da palavra e a linguagem é o personagem principal desse imenso cipoal cheio de ruídos e labirintos, enciclopédico romance Ulisses. “Deus é um barulho na rua”. A história das pessoas é a história da linguagem, escreve Joyce.

Até os vinte anos, Joyce só conhecia as mulheres de prostíbulos. Nora era uma ruiva alta iletrada de Galway que entrou definitivamente na sua vida. No dia 10 de Junho de 1904, eles se encontram pela prima volta. Joyce usava um boné de marinheiro e passeava na Rua Nassau calçando alpargatas, quando encontra a camareira do Finn´s Hotel. Combinaram um encontro para o dia 14. Nora não pareceu e recebeu um bilhete. … Gostaria de marcar um encontro, mas poderia não lhe servir… (James Joyce – Richard Ellmann).

Outro encontro foi marcado para o dia 16 de junho. Esse encontro foi um ponto de inflexão na vida de Joyce. Ele deixava a solidão que o perseguia desde a morte de sua mãe e encontrava a mulher de sua vida. Stephen Dedalus é o seu alterego e sofre com a consciência pesada no Ulissses por não ter rezado no leito da morte da mãe. Nora deu a Joyce segurança, confiança e ternura que ele precisava para escrever sua obra genial. E inspiração para Gretta Conroy em The Dead, Bertha em Exiles, Molly Bloom em Ulissses a Anna Lívia Plurabelle em Finnegans Wake.

Joyce passou a maior parte de sua tumultuada e sacrificada vida no exílio. Trieste, norte da Itália (1904-1914), Zurique – Suiça, onde ele foi sepultado (1915-1920 e 1939- 1941) e Paris (1920- 1939), cidade onde foi lançado o Ulisses em 1922.

Nora Barnacle e James Joyce

Um encontro comum. Um dia comum. Assim acontece o dia de Bloom. Nora era uma mulher simples e só tinha instrução primária, não entendia de literatura, nem tinha poder de introspecção. Até os 13 anos freqüentou a escola de um convento católico e depois foi trabalhar como porteira de um outro convento. Antes de Joyce, Nora conheceu outro menino de quem ela gostava muito, seu nome era Michael (Sonny) Bodkin. Nós íamos à loja do pai dele para um pêni de balas de conversa os doces chatos com versinhos neles ( tipo eu te amo e eu quero te ver essa noite ). Sonny morreu muito cedo (R. Ellmann op. Cit. ).

Depois ela conheceu William Mulvey em Galway City, com quem se encontrava às escondidas por causa do seu tio Tommy Healy. Uma noite leva uma surra de seu tio, ao ser apanhada na rua, e resolve ir para Dublin, deixando o tio bruto e a religião opressora.

No dia 15 de Agosto de 1904 ele escreve:

Minha querida Nora,

Neste instante soou uma hora. Cheguei em casa às onze e meia. Desde então estou sentado numa poltrona como um bobo. Não pude fazer nada. Não escuto nada a não ser a tua voz. Sou como cretino a ouvir-te chamar-me “querido” . Quando estou com você deixo a lado da minha natureza desdenhosa e desconfiada. Queria sentir sua cabeça no meu ombro agora. Acho que vou para a cama.

Jim

À medida que Joyce foi se aproximando de Nora começou a sentir medo de revelar o seu lado obsceno e bestial, de quando era um frequentador assíduo dos bordéis. No encontro do dia 16 eles foram até o Parque Ringsend. Nora desabotoou as calças de Joyce e tocou profundamente no seu sexo num rito iniciático, “blooming”.

“Como odeio Deus e a morte, como gosto de Nora.”

Joyce deixava a sua imensa solidão e estava apaixonado. Bloom era a morte que prevalecia na decadente Irlanda de 1904. Nora era a vida nova que chegava. Um antídoto contra a solidão e paixão que sentia para consigo mesmo.
O protagonista do Ulisses Leopold Bloom também se masturba na praia. Na correspondência “one way” que ia se estabelecer entre Nora e Joyce (uma das poucas cartas que Nora lhe escreve é copiada de um livro), ele pergunta a ela se alguém a masturbou. … “Eu sei que fui o primeiro homem que te comeu, mas será que nenhum homem jamais te masturbou? Aquele rapaz que você amava não fez isso contigo?”

No período de 1904 – 1912 James Joyce escreve muitas cartas a Nora “sua menininha do convento”, falando da sua solidão e produção literária. Cartas íntimas, pornográficas e reveladores de uma complexa mente urdida na literatura. Nada era perdido para Joyce. Para nos leitores de Joyce, também nada é perdido quando escrito com as vísceras e pulsão de um dos maiores escritores de sempre. Joyce e nora tiveram dois filhos. George e Lucia. Vinte e sete após o encontro epifânico eles se casariam. As cartas de Joyce a Nora foram publicadas no Brasil pela primeira vez pela Massao Ohno – Roswitha Kempt Editores 1982, com tradução da Mary Pedrosa. A seguir uma das belas cartas dessa inestimável correspondência.

2 December 1909: 44 Fontenoy Street, Dublin.
My darling

I ought to begin by begging your pardon, perhaps, for the extraordinary letter I wrote you last night. While I was writing it your letter was lying in front of me and my eyes were fixed, as they are even now, on a certain word of it. There is something obscene and lecherous in the very look of the letters. The sound of it too is like the act itself, brief, brutal, irresistible and devilish.
Darling, do not be offended at what I wrote. You thank me for the beautiful name I gave you. Yes, dear, it is a nice name ‘My beautiful wild flower of the hedges! My dark-blue, rain-drenched flower!’. You see I am a little of the poet still. I am giving you a lovely book for a present too: and it is a poet’s present for the woman he loves. But, side by side and inside this spiritual love I have for you there is also a wild beast-like craving for every inch of your body, for every secret and shameful part of it, for every odour and act of it. My love for you allows me to pray to the spirit of eternal beauty and tenderness mirrored in your eyes or to fling you down under me on that soft belly of yours and fuck you up behind, like a hog riding a sow, glorying in the open shame of your upturned dress and white girlish drawers and in the confusion of your flushed cheeks and tangled hair. It allows me to burst into tears of pity and love at some slight word, to tremble with love for you at the sounding of some chord or cadence of music or to lie heads and tails with you feeling your fingers fondling and tickling my ballocks or stuck up in me behind and your hot lips sucking off my cock while my head is wedged in between your fat thighs, my hands clutching the round cushions of your bum and my tongue licking ravenously up your rank red cunt. I have taught you almost to swoon at the hearing of my voice singing or murmuring to your soul the passion and sorrow and mystery of life and at the same time have taught you to make filthy signs to me with your lips and tongue, to provoke me by obscene touches and noises, and even to do in my presence the most shameful and filthy act of the body. You remember the day you pulled up your clothes and let me lie under you looking up at you as you did it? Then you were ashamed even to meet my eyes.
You are mine, darling, mine! I love you. All I have written above is only a moment or two of brutal madness. The last drop of seed has hardly been squirted up your cunt before it is over and my true love for you, the love of my verses, the love of my eyes for your strange luring eyes, comes blowing over my soul like a wind of spices. My prick is still hot and stiff and quivering from the last brutal drive it has given you when a faint hymn is heard rising in tender pitiful worship of you from the dim cloisters of my heart.
Nora, my faithful darling, my sweet-eyed blackguard schoolgirl, be my whore, my mistress, as much as you like (my little frigging mistress! my little fucking whore!) you are always my beautiful wild flower of the hedges, my dark-blue rain-drenched flower.
JIM

Leia aqui em Espanhol:
2 de diciembre de 1909
44 Fontenoy Street, Dublín

Querida mía, quizás debo comenzar pidiéndote perdón por la increíble carta que te escribí anoche. Mientras la escribía tu carta reposaba junto a mí, y mis ojos estaban fijos, como aún ahora lo están, en cierta palabra escrita en ella. Hay algo de obsceno y lascivo en el aspecto mismo de las cartas. También su sonido es como el acto mismo, breve, brutal, irresistible y Nora Barnaclediabólico.

Querida, no te ofendas por lo que escribo. Me agradeces el hermoso nombre que te di. ¡Si, querida, “mi hermosa flor silvestre de los setos” es un lindo nombre! ¡Mi flor azul oscuro, empapada por la lluvia! Como ves, tengo todavía algo de poeta. También te regalaré un hermoso libro: es el regalo del poeta para la mujer que ama. Pero, a su lado y dentro de este amor espiritual que siento por ti, hay también una bestia salvaje que explora cada parte secreta y vergonzosa de él, cada uno de sus actos y olores. Mi amor por ti me permite rogar al espíritu de la belleza eterna y a la ternura que se refleja en tus ojos o derribarte debajo de mí, sobre tus suaves senos, y tomarte por atrás, como un cerdo que monta a una puerca, glorificado en la sincera peste que asciende de tu trasero, glorificado en la descubierta vergüenza de tu vestido vuelto hacia arriba y en tus bragas blancas de muchacha y en la confusión de tus mejillas sonrosadas y tu cabello revuelto. Esto me permite estallar en lágrimas de piedad y amor por ti a causa del sonido de algún acorde o cadencia musical o acostarme con la cabeza en los pies, rabo con rabo, sintiendo tus dedos acariciar y cosquillear mis testículos o sentirte frotar tu trasero contra mí y tus labios ardientes chupar mi pija mientras mi cabeza se abre paso entre tus rollizos muslos y mis manos atraen la acojinada curva de tus nalgas y mi lengua lame vorazmente tu sexo rojo y espeso. He pensado en ti casi hasta el desfallecimiento al oír mi voz cantando o murmurando para tu alma la tristeza, la pasión y el misterio de la vida y al mismo tiempo he pensado en ti haciéndome gestos sucios con los labios y con la lengua, provocándome con ruidos y caricias obscenas y haciendo delante de mí el más sucio y vergonzoso acto del cuerpo. ¿Te acuerdas del día en que te alzaste la ropa y me dejaste acostarme debajo de ti para ver cómo lo hacías? Después quedaste avergonzada hasta para mirarme a los ojos.
¡Eres mía, querida, eres mía! Te amo. Todo lo que escribí arriba es sólo un momento o dos de brutal locura! La última gota de semen ha sido inyectada con dificultad en tu sexo antes que todo termine y mi verdadero amor hacia ti, el amor de mis versos, el amor de mis ojos, por tus extrañamente tentadores ojos llega soplando sobre mi alma como un viento de aromas. Mi pija está todavía tiesa, caliente y estremecida tras la última, brutal embestida que te ha dado cuando se oye levantarse un himno tenue, de piadoso y tierno culto en tu honor, desde los oscuros claustros de mi corazón.
Nora, mi fiel querida, mi pícara colegiala de ojos dulces, sé mi puta, mi amante, todo lo que quieras (¡mi pequeña pajera amante! ¡mi putita folladora!) eres siempre mi hermosa flor silvestre de los setos, mi flor azul oscuro empapada por la lluvia. (http://www.tijeretazos.net/N001/Joyce/Joyce001.htm)
JIM

Ouça aqui na voz do ator Caco Ciocle, a pedido da Revista Bravo, na tradução recente da editora Iluminuras com organização e tradução do Sergio Medeiros e Dirce Waltrick do Amarante, 2012.
http://bravonline.abril.com.br/materia/desejos-expressos

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