O DIA QUE A CIDADE ACORDOU SEM SABER O QUE É

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Evandro CalistoFilho · Salvador, BA
17/2/2015 · 1 · 0
 

O DIA QUE A CIDADE ACORDOU SEM SABER O QUE É
Acordei liguei a TV e sintonizado estava na Rede Globo, Jornal da Manhã, os apresentadores sorrindo falavam da novidade, a obesidade do Rei Momo deu lugar a maestria do Príncipe do Gueto, e começou a matéria, alusão ao corpo tatuado, imagem, entrevista com o Príncipe, imagem, um fonoaudiólogo foi chamado para dar dicas de como o Príncipe com sua linda voz rouca conseguisse chegar até o fim, som, e o texto acabava a reportagem da seguinte forma “o refrão não sai da boca do povo, ou da favela como ‘eles’ gostam de ser chamadosâ€.
Atenção “Favela†vocês podem se chamar de comunidade, favela, gueto. Mas para quem os anuncia vocês são “elesâ€. Talvez por isso o refrão grite “é nada deles tudo nossoâ€. Não sei o que é nosso, até ontem o nosso não passava de um discurso racista que sugeria de forma incisiva o genocídio de todos os elementos que transgredisse a lei. A lei deve ser cumprida, quando não deve se dar a possibilidade de reflexão, mas a favela que o “deles†fala na voz de Bocão, Casimiro Neto e as ridículas apresentadoras vespertinas que não estudaram ou foram criadas na favela e à visita para falar as gírias e imitar a linguagem corporal, para eles todo meio-dia, você favela tem que ser exterminada, aniquilada, chacinada, executada, mostrada em sangue vivo ou ridicularizada com as entrevistas dos presos analfabetos.
Hoje a cidade nasceu sem saber o que é, “deles†que é dono de tudo disse que “eles†que não tinham nada agora tem um Príncipe, entronado com direito a matéria de TV, chancela do prefeito, música do carnaval, donos da avenida, coletiva de imprensa e buffet de fim de tarde. Impossível não lembrar do brilhantismo dos versos de Haiti de Caetano quando mostra como “deles†percebem sempre os “quase brancos pobres como pretos, como pretos, pobres e mulatos e quase brancos, quase pretos de tão pobres são tratadosâ€.
Depois da quarta-feira de cinzas como vamos resolver este paradoxo? A imprensa racista vai considerar “eles†humanos e vai produzir matérias que impulsione a educação, segurança e desenvolvimento humano ou o discurso marginal do gueto patrocinado por forças ocultas produzira uma Revolução Francesa bizarra as avessas, onde a burguesia será engolida e o “tudo nosso†incentivará invasões, saques e bandeiras fincadas em cada condomínio de luxo tomado?
Será que Salvador da Bahia vai promover a primeira Revolução Socialista real, no Comércio, Mundo Plaza, Suarez e Shopping Salvador os autofalantes do sistema interno em alto som gritará “tira a camisá, tira a camisá!†e os scarpains, blazers e terninhos vão voar numa libertação estética nunca antes vista?
Ledo engano queridos, o que é “deles†é deles, o resto são “eles†ou como gostam de falar “favelaâ€. Vista a “camisá†e vá estudar para perceber como somos iludidos, vá se cuidar para ter saúde, vá para casa e abrace sua família e perceba como eles são humanos e não a caricatura animal que “deles†é produzida.
Eu sou Evandro Calisto, um escrevinhador que acordou na terça-feira de carnaval sem saber se sou “deles†ou “eles†e com a única certeza que meu filho é meu amor e orgulho.

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