Eu, por estranho que pareça, tenho boas lembranças ligadas ao filme O Exorcista. Por agora, ficarei com a mais recente. Estávamos eu, o poeta Bruno Tolentino e a escritora Hilda Hilst, apenas os três, na residência desta última, assistindo ao tal filminho diabólico pela Direct TV. Isto foi em 2000, talvez em 1999. Quem já ouviu falar da Hilda sabe que, nessa época, ela tinha 90 cães em sua chácara: 75 no canil, 15 dentro de casa. O Bruno, de maneiras altamente civilizadas, ex-professor de Oxford e tal, inglês que só, não era muito fã daquela situação. Os sofás da sala, apinhados de cães de todos os tamanhos e graus de vira-latice, não deixavam espaço para os não-resignados. Já eu, que morava ali desde fins de 1998, estava com o "foda-se" ligado havia muito tempo. Na verdade, eu era o único com cães no colo, mantendo outro, o Zidane, sobre meus pés, pois era inverno e fazia muito frio. (A lareira, aliás, não tinha muita serventia, uma vez que a porta permanecia perenemente aberta para que os digníssimos animalitos pudessem sair e satisfazer suas necessidades fisiológicas.) Pois então. Eu no sofá, a Hilda um pouco à frente, em sua poltrona - dizíamos trono - e o Bruno mais adiante, em seu banquinho, os joelhos mais altos que o assento. A Hilda, a fumar Chanceller, "o fino que satisfaz", mantinha um sorriso extático, pós-vinho do Porto, aparentemente desfrutando o desconforto do Bruno. Não era das mais tolerantes com quem não curtia cachorros... Bom, a cena está montada, sigamos.
Lá pelas tantas, eu dizia aos dois que o filme fora cortado, que estava faltando aquela cena onde um padre encontra, na igreja, a imagem da Virgem totalmente profanada, com seios postiços enormes e um big caralho entre as pernas. O Bruno me contestou, disse que isso deveria ser mais adiante e tal. Ao contrário dele, porém, eu assistira ao filme havia pouco tempo e, por isso, tinha certeza: estava realmente censurado, um absurdo. O tempo passou, o diabo tomou o corpo da menina e, justamente na cena em que ela vira a cabeça para trás, a Grampola, que estava no cio, entrou na sala e se deitou às onze horas do Bruno. O Zidane, então, levantou-se de sobre meus pés e, sendo o maior e mais forte dentre os demais, foi o único macho a se aproximar da cadela, deixando atrás de si uma nanica e invejosa platéia canina. Grampola, seguindo um instinto mais afim a seu sexo que à sua espécie, levantou-se, deu uma rosnadinha, fingiu que estava magoada e deu as costas ao Zidane - sim, justamente o que ele queria. E, claro, tudo isso a dois passos do coitado do Tolentino que, resmungando algo incompreensível, afastou seu banquinho um pouco para trás. A Hilda, totalmente na dela, fazia de conta que não se passava nada de anormal. Bem, talvez ela não visse nada de anormal mesmo, ao contrário de myself que, sentado no ponto mais distante da TV, tinha, no meu campo de visão, a própria Hilda Hilst, o Bruno Tolentino, dois cães já atrelados um ao outro e, como cereja desse repasto visual, uma menina tomada pelo diabo vomitando verde a dois metros de distância. Logo, eu, que também estava numa situação pós-vinho do Porto, comecei a sentir cócegas insuportáveis no cérebro. Quando finalmente Zidane se satisfez, colocando-se então de costas para Grampola, ambos ainda ligados pelo, digamos assim, "fio do amor", eu me senti mergulhado num filme grotesco, numa história completamente surreal. E o pior: Zidane quis voltar para o fundo da sala, o que fez com que guinchasse sua companheira na direção do Bruno, quem, mergulhado em desesperado constrangimento, ainda tentou empurrá-los com os pés. A Hilda, completamente impassível, a mirar a TV, emitia longos círculos de fumaça, toda charmosa, mantendo o cigarro na mão caída para trás. Neste momento, interrompi o silêncio: "Olha, espero que vocês dois não se incomodem, mas é que eu não agüento mais...", e só então comecei a gargalhar loucamente. A Hilda me observou com atenção, um sorriso inefável nos lábios, sem dizer qualquer coisa. Já o Bruno levantou-se, riu um tanto nervoso e, como se tivesse sido salvo pelo gongo, acrescentou: "vou fazer um chá", e saiu pela porta da cozinha. E finalmente a Hilda, encarando-me com aquele ar maroto de menininha: "Ué, será que ele não estava gostando do filme?" E eu ri de novo: "Pois é, Hilda, parece que não, né." "Vai lá, Yuri, vai ver se nosso hóspede está bem." Eu fui. Entrei na cozinha e o Bruno já estava com a lata de Jacksons of Piccadilly nas mãos. Ele me encarou com aquele olhar faiscante, e ao mesmo tempo irônico, que só escorpianos como eu e ele conseguimos ter. Eu: "E aí, Bruno, o que você achou da experiência?" Ele: "Experiência?!... Bom, a Hilda não diz sempre que essa casa aqui pertence aos cachorros? Pois então, essa é a casa do cão. Foi muito interessante assistir ao Exorcista na casa do Cão..." E rimos juntos.
Quando voltei à sala, a Hilda já havia desistido do filme e queria se deitar. "Que filme medonho, Yuri! Que filme medonho!" Acompanhei-a até seu quarto. "Boa noite, querido", se despediu. E eu: "Você não quer que eu tire os cachorros hoje, Hilda. Você disse que ontem eles não te deixaram dormir direito." "Tira só o Mister Tôuto, Yuri, as duas pequenas podem ficar." E, enquanto eu recolhia o tal cãozinho idoso, dei com o quadro de Francisco de Assis na parede. "Ele também gostava muito de bichinhos", me disse ela. "Eu sei, Hilda." "Boa noite, querido, durma com Deus." "Boa noite, Hilda, você também." Enquanto isso, o pobre padre Karras rolava escada abaixo...
Nossa, gostei muito do texto. De verdade! Ainda mais quando vi que você conviveu com Hilda Hilst. Cheguei a ler um livro dela... faz tempo, mas não me esqueço de alguns versos...
E a cena que você descreveu? Muuuito legal... deu vontade de ver a cara do seu hóspede.. aehuahuhaiuehuae
Quanto à sugestão de edição do texto digo que seria bom se você o fragmentasse em parágrafos menores, o que facilitaria a leitura; e corrigisse alguns poucos erros de ortografia!
Manda um beijo para Hilda. E para os cachorros também!!!
ABS
=)
Tenho 5 cães e 20 gatos numa terra que não gosta de cachorro, então não da pra receber nimguem em casa, e no tempo do cio é um drama, cachorros la fora esperando a vez, e dentro de casa tambem! Mas rir da 10graça alheia sempre foi (e é) BOM, agora este teu chapéu não édos melhores! K-KK_KK_KK
AZnº 666 · Rio de Janeiro, RJ 14/5/2007 11:07
Obrigado pelo toque, Bruna, de fato encontrei alguns erros de digitação já corrigidos. Já o beijo da Hilda enviarei por email cósmico, já que ela faleceu em Fevereiro de 2004.
Pois é, AZN, esse "chapéu" aí ganhei da própria Hilda. Um dia chegou uma caixa com vinho (francês ou italiano? não me lembro), esse chapéu e outros presentinhos de uma admirador que vivia na Europa. A Hilda disse: "Eu fico com o vinho e vc com o gorro de bobo!" Depois disso, sempre que ela estava mais pra baixo, eu ia até o escritório dela e ficava conversando seriamente - mas vestido com o chapéu de bobo! Às vezes ela resistia um bom tempo antes de rir...
Obrigado, Marcelo.
{}'s
só de ler que voce conviveu com hilda já senti quase ódio de você.
a inveja mata.
(bom texto, boa história, gostei mesmo. e "manda" um beijo meu pra hilda também. rs rs)
Valeu, André! Vou incluir sua mensagem no próximo email cósmico que enviar à Hilda. Abraço!
yuri vieira · São Paulo, SP 15/5/2007 14:26
Yuri.
Muito bacana o relato que contou para todos nós, fiquei muito envolvido com sua narrativa. E só de você ter vivido um tempo com a Hilda, com certeza está lhe servindo muito as experiências vividas ao lado dela.
Obs: O segundo parágrafo ficou gigante, mas como o texto é excelente não cansou nenhum pouco.
Abraços cordias!!!
Delicioso conto... muito divertido. Foi uma construção semiótica fabulosa! Cães, sexo animal, religiosidade, inferno.. hahaha adorei. Parabéns.
Jan Moura · Cuiabá, MT 16/5/2007 12:39como bem disse o Marcelo, aí em cima: precioso relato!
Erika Morais · São Paulo, SP 16/5/2007 14:30
Nossa Yuri, surreal esse texto, é o tipo de texto que dá vontade de ler a noite! =) muito bom! e foi bom conhecer a Hilda, ainda sofro um pouco de "ignorância literária", conheço poucos autores. Adorei mesmo seu texto! parabéns!
Um abraço.
Yuri amei a viagem pelo universo da Hilda, em sua companhia. Embora eu deteste filme de terror, e mais ainda o exorcista... arghhh... adorei o texto.
Abraço!
Tive que me controlar eu aqui também pra rir baixinho, neste cybercafé onde acabei de ler teu texto hilário.
Abraço,
hilda hilst... tudo que essa mulher fantástica escreveu me faz viver como nunca houvera vivido antes do dia de tê-la descoberto... bela narrativa, sobre momento único. Abraço.
edujr · Mineiros do Tietê, SP 16/5/2007 20:15
Yuri, não tô me aguentando de rir aqui de "assistir ao Exorcista na casa do cão". muuuito bom.
E conviver com Mrs. Hilst, nossa, que privilégio. Invejinha, invejinha de você.
Excelente texto, excelente histórias. Parabéns e me inclua na lista de beijos enviados no próximo e-mail cósmico, tá?
Nossa, obrigado a todos. Espero que vcs também baixem meu ebook aí no Banco de cultura. (O link está no meu perfil.) Foi depois de lê-lo que a Hilda me convidou para morar com ela. (E vcs irão entender por que ela me deu o gorro de bobo da corte...)
Os emails cósmicos serão enviados. :)
{}'s
Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
Está no ar o blog de pesquisas do Instituto Overmundo. Você já pode encontrar lá os primeiros dados da pesquisa “Análise de modelos de negócios... +leia
Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!
+conheça agora
No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!