Sartre disse certa vez que “o inferno são os outrosâ€. O homem por si só não pode se conhecer em sua totalidade. Só através dos olhos de outras pessoas é que alguém consegue se ver como parte do mundo. Sem a convivência, uma pessoa não pode se perceber por inteiro. “O ser Para-si só é Para-si através do outroâ€, ideia que Sartre herdou de Hegel. Só através dos outros podemos reconhecer nossa própria essência. E cada uma precisa desse reconhecimento.
Isso é um imperativo categórico sociologicamente tão bem fundamentado na sociedade contemporânea que não seria preciso se perder em lucubrações escafandristas para reconhecer nele uma verdade simples: o inferno são os outros, mesmo. O consumismo é um exemplo objetivo da premissa sartriana que invade sem pedir licença nosso cotidiano. Ao fazer-nos reconhecer no outro nossa essência, ele gera um paradoxo dentro de sua idealização de supressão da individualidade. Pois querem que como consumidor sejamos amebas – uma unica célula se auto reproduzindo. Mas para que consumemos é preciso incutir em nossas mentes uma ideologia da individualização.
E acreditando nisso vamos perdendo a individualidade. Igualdade é alienação (quem leu o célebre 1984 sabe do que estou falando). Individualismo é egoÃsmo. Individualidade é essência. A prosopopeia é que não nos reconhecemos no outro. Queremos ser o outro. O desejo de igualidade social fez da miséria um pensamento positivo. É por isso que o intelectual em um paÃs como o Brasil é ridicularizado, ninguém o reconhece como a sua essência e vemos sempre o conhecimento ser reprimido pela ignorância da maioria.
Quando capturei a imagem acima, imaginei ter fotografado a nossa miséria moral. “Ele não sou eu, não pode serâ€. Era o que os olhares de soslaio, e os desvios deliberados das retinas impessoais diriam se pudessem dizer, enquanto eu fotografava. Os meus pensamentos quase não gritavam outra coisa, não fosse a minha vontade de vencê-los. Eu estava ali, vendo as pessoas quase tropeçarem nesse homem, nesse estranho, sem nome, endereço ou qualquer referência que fosse relevante a nós a ponto de nos reconhecermos nele. Se não fosse a sua massa antropomórfica ter plasmado uma figura humana, talvez ele tivesse passado despercebido como tal. Essa, simbolicamente, não é apenas a imagem de um homem pobre, seria superficial demais. Essa é a imagem da nossa condição, o nosso para-si através do outro. Uma metáfora visual.
Abatido por um jocoso fluxo de reflexões existencialistas e tomado por um sentimento de impotência diante daquele que era o meu reflexo no espelho de um quarto escuro, filosofei com um martelo que alto infligi sobre minha abóbada craniana no intuito de causar, talvez, uma especie de lobotomia que ampliasse a minha perspectiva diante da cena-pensamento que capitava. Me fugiram respostas, e na condição paralÃtica de perguntas, meu pensamento tropeçava no molambo da lÃngua. O lixo era o homem ou o homem era o lixo? Filosofar sobre a miséria, e diante dela, me levaria aonde? O que seria uma filosofia da miséria? O que seria essa miséria? Social ou moral… intelectual?
Se o outro sou eu, eu sou a miséria. A pobreza, a impotência do espÃrito de meu tempo que vaga nos umbrais de um sentimentalismo hipócrita. Mas também sou a beleza, a poesia, a revolução. Não sou o outro, e por isso mesmo devo me perguntar qual a sua importância. Por que ele é o meu inferno, o que me afligi, o que me estorna as certezas e torna-as duvidas. Hoje, o inferno não são os outros. Somos nós mesmos diante de nós – o verdadeiro outro. Esse estranho incompreensÃvel que ao invés de dá sentido a nossa existência, o tira.
Não sou exotérico, muito menos um daqueles com frases de esperança prontas para serem cuspidas da boca para fora, do tipo: o outro somos nós, por isso temos que cuidar do outro, somos um mesmo organismo no mundo e blá, blá blá. Minha perplexidade vem exatamente da tomada de consciência dessa estranheza. Não é papel da ciência (filosofia) levar o homem ao absolutismo pragmático da ação. Se assim fosse, terÃamos a solução para tudo. E a mais forte seria essa filosofia ecológica metafÃsica que não significa nada além de devaneios boçais, de gente que desfruta do prazer vazio da alto ajuda logo ai, a mão, para criar efeitos simbólicos através de pensamentos sobre um hipócrita e humilde humanismo.
Parafraseando Woody Allen: “Agora, onde eu deixei aquele tanque de oxigênio?â€
Pensar, às vezes, é agir!
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