O ouro perdido que transformou uma cidade de Minas

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Sander Kelsen · Belo Horizonte, MG
14/7/2013 · 1 · 0
 

Há alguns anos, haviam apenas 2 principais entradas para Conceição do Mato Dentro, região central de Minas Gerais. Uma passando por Itabira e seguindo até Senhora do Porto. O outro caminho é pela MG-010, de Belo Horizonte, cortando as montanhas da Serra do Cipó. O progresso por lá chegou: asfalto e também um aeroporto; o que eleva o número de entradas para 3.

O passado ainda se faz presente na cidade. Mas sua tranquilidade foi coada depois que a exploração de minério começou, segundo alguns moradores.

Após uma viagem de quase 3 horas, o ideal mesmo é seguir as placas quando está sem destino. Desembarquei em uma das áreas centrais. Um mercado - de arquitetura antiga - uma igreja e também um coreto (Tripé que normalmente caracteriza as cidadezinhas mineiras). Estava com fome; e o primeiro lugar que parei foi numa padaria. Alguns rapazes sentados na porta, cheiro de cerveja e muito mosquito ao redor dos pães, pães de queijo e roscas. A moça que me
atendeu tinha um quê de preguiça, mas respondeu as perguntas e me tratou com toda hospitalidade mineira. Pedi um suco de lata e um biscoito... O preço estava um tanto inflacionado para um estabelecimento de cidade aparentemente tranquila. Era sábado. "Hoje o movimento por aqui está fraco. Fim de semana é assim, o pessoal não gosta de ficar na rua nesse horário. Não tem muita coisa pra fazer... aí o povo fica em casa, assistindo TV", disse a menina de uns 18 anos.

Estava com uma amiga, também jornalista, que logo tratou de procurar um banheiro na venda ao lado. Venda de balas, alguns salgados e algo para beber. A menina que ali atendia também era responsável pela limpeza. "Acho que a cidade está muito suja de uns tempos pra cá... Muita gente de fora. Eu mesmo tenho medo de sair de casa sozinha. Só tem homem na cidade... e homem de outras cidades! A mineração deixou tudo mais caro. Aluguel aqui era 300 reais. A Mineração chegou e tem gente pagando 1.000 reais em uns quartinhos". Resolvemos caminhar. Impossível não notar a sujeira nas ruas.

Em uma das igrejas católicas, um anexo que
parecia um hotel. O moço, com chapéu na cabeça, logo informou: "Ai não é hotel. É a morada dos padres... de muito luxo para um distrito desse tamanho, né, menino?"

Ao cair a noite, resolvemos procurar um hotel. Pegamos algumas informações em um barzinho - bem estruturado, com TV de plasma e atendimento VIP. Subimos até a parte histórica de Conceição do Mato Dentro, próximo ao pirulito. No primeiro que paramos, ficamos. Fomos atendidos por Rosilene, uma distinta senhora de boa educação. Ela nos mostrou um dos quartos disponíveis. Ficamos por lá mesmo: 40 reais a diária para cada hóspede - um dos preços mais em conta. Dona
Ilda, a proprietária, nos contou sobre a história do lugar. "É um prédio que tem mais de 100 anos. Ubaldina, minha tia, era a dona... eram outros tempos. Hoje, o hotel é tombado. Para fazer qualquer mudança aqui, eu preciso conversar demais com as autoridades, com os governos. É um custo, mas eu cuido bem daqui. Olha só a fiação, que beleza. Troquei tudo. Administro tudo. E já tenho 83 anos, bem vividos. Já fui professora, sabe? De educação física. Tem muito aluno que vem ao hotel só para me rever. É uma alegria."

Quisemos fazer um passeio pela noite. Comemos em um restaurante, digamos, mais elitizado - ou que pelo menos se parecia mais elitizado. A conta final? 52 reais. Uma pizza pequena, omelete e duas latas de refrigerante. Ao andar por Conceição, a descoberta de um novo mundo para os moradores. "Aqui já foi tranquilo. Não mais". Ou aquela máxima, "a mineração estragou a nossa serenidade. Olha essa avenida, cheia de homens. Parece Serra Pelada". Outros eram críticos quanto a economia. "Dizem que o dinheiro está aqui... sei não! A gente sempre viveu sem a mineração e chegamos onde chegamos. Tá tudo muito estranho".

Ao chegar novamente no hotel, presenciamos uma cena um tanto estranha. Um rapaz, encostado em um poste, dizia ao celular: "Eu quero um revólver! Ele me deu um tapa na minha cara", exclamava. Ficamos preocupados: tinha uma faca em mãos. Apressamos o passo.

Uma mulher, de feições sofridas e que também viu a cena, afirmou:

- A culpa é da mineração. O ouro perdido e que está acabando com nossa cidade. A gente só quer paz. E só.

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