O homem, ou mulher, cochilava debaixo dos benjamins pendurado ao pescoço de Rachel, a escritora, enquanto, num banco próximo, seu Galdino, elegantemente vestido para um inÃcio de manhã, respondia as perguntas de um estudante. Noutra quina da praça, o Valdeci, senhor apequenado e tÃmido que cuida da General Tibúrcio juntamente com outros três idosos participantes do projeto Encanto das Praças – e que, por isso, recebe a bagatela de R$ 150 da prefeitura de Fortaleza –, acendia um cigarro na brasa do outro. A poucos metros, o amigo falante de seu Valdeci dava informações a um grupo de estudantes de jornalismo. Ele, no seu cantinho, apenas observava.
“Seu Valdeci, o que foi aquele prédio torto ali?â€, perguntava apontando a construção inclinada para a esquerda e cuja pintura descascava em muitos pontos. “Pergunte ao outro, o Francisco, que ele sabe. Eu não seiâ€.
“Ali, meu filho, funcionou o comitê do PMDB, eu trabalhei por lá durante muito tempo, hoje só tem um vigia que vive colocando a molecada pra correr do prédioâ€, explicava um Francisco solÃcito.
Enquanto os vendedores vendiam, os engraxates engraxavam, os devotos rezavam e os vagabundos vagabundeavam, o estudante ouvia atento seu Galdino. Haviam chegado à praça quase juntos, ele, atrasado para a aula de campo; Francisco Galdino Neto, na hora exata. À distância, o professor-orientador apenas farejava – esperava que, posteriormente, um dos alunos escrevesse sobre o episódio da estátua. Ou sobre qualquer outra coisa, desde que escrevesse.
Da Praça General Tibúrcio ou Dos Leões, sobressai-se a imagem pré-estabelecida: prostituição e insegurança. Naquela terça ou quarta-feira, porém, não se viam as meninas – ou, pelo menos, nenhuma que correspondesse ao perfil que se espera de uma “mulher da vida†– e, das quatro esquinas da praça, pelo menos uma estava ostensivamente ocupada por viaturas da Guarda Municipal de Fortaleza.
“Hoje tem até um policiamento por aqui. Acho que já é o projeto do governador eleito, o tal da ronda do quarteirão. Deve ser issoâ€, estranha seu Galdino. E, num movimento de memória cuja razão espanta, relembra também o nome dos guardas que por ali se abancavam nos idos de 1940. “Eram dois, um chamado Cordeiro Neto e outros dois, Cosme e Damião. Aliás, tinha só dois não. Eram uns quatroâ€.
O Pega-pinto do Mundico
Era, sem sombra de dúvida, terça-feira. O mês, outubro. Fazia sol, o tempo abafado nesta época do ano. Em seguida, uma chuvinha fina. Na praça, a passarinhada dava o seu show particular. Em bandos, papagaios, ou louros, azucrinavam o juÃzo de uns; para outros, amainavam o ruÃdo do trânsito ainda lerdo na rua Sena Madureira, umas das quatro que demarcam um dos quadriláteros mais prenhes de memórias, individuais e coletivas, do Centro. Em verdade, se aquele miolo de cidade fosse uma penteadeira, certamente a Praça dos Leões ocuparia, ao lado da Praça do Ferreira, lugar de destaque.
A propósito de uma pergunta que lhe fizera o menino-repórter, seu Galdino, sem pressa, enfia a mão no bolso traseiro da calça rigorosamente engomada. Entre os documentos, salta à mão o registro da habilitação, exibido com orgulho. “Preciso de lente pra nada, sei dirigir muito bem. O médico é que não recomendaâ€, confessa. Antes disso, já havia dito da peleja que fora a vida, as idas e vindas entre Cascavel e Fortaleza, o casamento, à beira de completar sessenta anos, com Maria Margarida M. Galdino e o tal do pega-pinto do Mundico, a dois quarteirões de onde estavam agora.
“Nos finais de semana, a diversão era vir até aqui, engraxar os sapatos com o Jacques – à época, o único engraxate nas redondezas – e depois apanhar o bonde ali na esquina. Sim, ali mesmo ao lado do prédio da assembléia. É. Por ali passava uma linha de bonde. Dali seguÃamos até a Praia de Iracema. Chegando lá, era tomar banho e voltar.â€
“E o pega-pinto?â€
“Sim, era uma mistura que o Mundico, dono de uma lanchonete aqui perto, fazia e dava pra genteâ€. Ajudava, de acordo com seu Galdino, a fazer descer garganta adentro “meio-pão sem manteigaâ€. Depois, era ir embora. Eis o barato de outrora: praia de Iracema e pega-pinto do Mundico.
Aos 82 anos e morando no bairro Edson Queiroz, seu Galdino enfrenta a distância e, de ônibus, desembarca na Praça dos Leões diariamente. Procura, sem pestanejar, um banco. Dali a pouco chegarão os amigos de dominó, cerca de quatro ou cinco rapazes, contemporâneos seus, que varrem a manhã encurvados sobre uma tábua gasta pelo arrastado das pedras. Valdeci, agora decidido a falar, atesta: “Eles jogam todo dia aqui, a manhã inteiraâ€.
E jogam mesmo. Ao erguer a cabeça do bloco – o maldito bloco de notas –, encontra seu Galdino, já de pé, lhe estendendo a mão. Cumprimentam-se: viesse mais vezes, que estavam ali quase todos os dias, dizia o senhor. O “quaseâ€, claro, é um baita eufemismo – a verdade é que, dia sim, dia sim, os meninos levantam vôo de seus lares, largando os seus e, dentes na fresca, reúnem-se em torno do tabuleiro.
Efeito dominó
Já distante, a trupe de jogadores inveterados de dominó se prepara. Armam o ringue. Começam a partida. Logo caem respingos de uma chuvinha que deixa qualquer um esbaforido com o mormaço subindo e, sem pedir licença, invadindo as narinas de quem ali estava. Era o jeito mudar, banco era o que não faltava. Foram arranjar-se ao lado de umas plantinhas espinhosas. Escorregasse a perna do banco e, de costas, seria o adeus.
A postos, começa, finalmente, o game. Em pouco, seu Galdino dispara com três vitórias consecutivas, mas logo é alcançado. No encalço, o páreo mais duro, senhor empertigado e metido a galanteador. A sorte, pelo visto, lhe vira as costas, e permanece cinco ou mais partidas sem vencer. Àquela altura, todos, à exceção do mais novo entre eles, emparelham-se com mais de seis pontos cada um quando, as pernas estalando de dor, o menino-repórter desiste de assistir e vai embora.
Antes, tivera o cuidado de anotar expressões, pensamentos e lances da vida mirabolante de seu Galdino, que prefere não contar. Ou, por outra, achou por bem aguardar. Afinal, são, como gosta de dizer o amigo, mais de 60 anos “pastorando vento†na praça dos Leões ou General Tibúrcio. Quando, de posse do retrato inteiro, e não apenas dos pedaços, diz como foi.
No caminho, esbarra nos colegas de sala. Fulano enfiara-se na igreja: o pároco tinha permitido a visitação extemporânea. De modo que, encimados na torre, tinham visto a praça coberta de benjamins e, ao lado, após terem procedido à s mesmas explicações – a saber, de que eram estudantes e outras coisas –, conseguiram permissão para subir ao último andar do velho Hotel Brasil. De lá, descortinaram boa parte do centro de Fortaleza e o mar e o céu azul que doÃa na vista.
Em baixo, o menino-repórter. Ele, sim, tinha voado pra longe nas memórias de um velho.
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