Na edição de 27 de dezembro, 2011, o SETV1, Sergipe Noticias Primeira edição, Rede Globo, mostrou mais um caso resolvido pelo quadro “Calendário”. Desta vez, em Socorro, na Rua 61 do Marcos Freire II. O Governo municipal cumpriu com o agendado entre televisão e comunidade, e fez recapeamento asfáltico para satisfação dos moradores da localidade. É louvável a prestação de serviço por parte da emissora, fazendo-se cumprir sua função social e colaborando para ampliação dos direitos e deveres de cidadania. Porém, atribuir-se a si própria, emissora, programa ou a um jornalista é contribuir para descrédito por parte da população do seu poder de mobilização social.
O quadro do telejornal tem como estratégia colocar frente a frente poder público e a comunidade. Ouvem-se as partes na qual se faz a denúncia ou reclamação. É estabelecido prazo para o atendimento da prestação de serviço reivindicado, marcando-se num calendário o reencontro entre as partes para comprovar a realização do que foi, previamente, combinado. Resolvido o caso, atribui-se ao quadro “Calendário” do SETV1 a solução do problema.
Essa forma de tratar as carências que afligem as comunidades, sejam necessidades coletivas ou individuais, é muito comum no rádio. E foi na Rádio Sandino, na Nicarágua, em 1989, que se teve noticia, pela primeira vez, desse tipo de programa. Por aqui, no Brasil, vem ganhando adeptos. Assim, virou praxe entre jornalistas, repórteres, apresentadores de rádio ou televisão, de tal tipo de programa, atribuírem-se a si próprio o papel de solucionador dos problemas que atingem a sociedade.
É inegável o poder dos meios de comunicação de mobilizar a população para um fato, seja como espectador ou participante. Muitas vezes, ouvimos falar “passamos anos lutando por isso e bastou à televisão chegar pra ser resolvido”. A presença da TV é imprescindível, pois sem ela a reivindicação cairia no esquecimento.
No entanto, quando a emissora vai numa determinada localidade, assim o faz a partir da sugestão de pauta da própria comunidade. Esta por sua vez, precisa se fazer presente no dia e horário combinado com a produção do telejornal, caso não ocorra a pauta jornalística não vingará. Antes, a população se reuniu, debateu, discutiu e, por fim, decidiu utilizar o meio de comunicação para expressar suas aspirações na luta pelos direitos de cidadania. Portanto, o protagonismo pelas conquistas deve, sempre, ser creditadas à população, cabendo aos meios e seus profissionais os papéis de mediadores.
Outro exemplo que podemos citar, é o repórter-cidadão, como se denomina o deputado-radialista Adelson Barreto, do Tolerância Zero. Com apelos em tons melodramáticos, procura soluções para problemas de pessoas carentes da periferia de Aracaju. Na maioria das vezes, o repórter tem seus pedidos atendidos, mas estes se realizam por uma resposta da sociedade civil. É esta, a sociedade, que deve ter os méritos da ação concretizada.
A história política do Brasil mostra que, em momentos de repressão política e social, a população soube se mobilizar criando espaços de resistência. Na luta por liberdade de expressão e opinião, os meios de comunicação foram instrumentos no combate ao regime militar. Foi nesse período, entre o final dos anos 70 até meados de 80, que surge um processo comunicacional conhecido como Comunicação Popular, também chamada de alternativa.
Podemos dizer que a comunicação popular emergiu da ação dos movimentos populares, tendo como característica seu caráter político e reivindicatório das classes populares num processo de emancipação, luta pela sobrevivência de suas necessidades sociais e de maior participação política. Foi uma das experiências mais criativas, já vista no Brasil, entre 78 e 82. Surge uma multiplicidade de formas e meios de expressão, motivadas pela necessidade de dar um basta numa situação que se tornara insustentável, que envolvia comunicação, política, informação, participação, educação e cultura popular.
Tudo era válido pra se comunicar e expressar-se. Jornais, boletins informativos, jornal livro, jornal mural, livretos, panfletos, cartazes, faixas, reuniões, encontros, ações culturais, teatro de rua, literatura de cordel, vídeo popular, cineclubes, paródias musicais foram algumas das formas de expressão e participação política, utilizadas no período. Diz-se ser uma comunicação feita do povo para o povo, tendo este como ator principal. A população era, ao mesmo tempo, produtor e receptor de suas mensagens.
A partir dos anos 90, a comunicação popular toma novas configurações. O aspecto combativo e político cedem espaço para questões ligadas a educação, a informação local, cultura, lazer e entretenimento. Novas tecnologias e linguagens foram absorvidas buscando formas mais ágeis e profissionais de comunicação, agora chamada de comunitária, mas sempre tendo a população como protagonista.
Foi nessa década, que a mídia comercial passou a se interessar por questões, antes apenas, dos meios populares e dos movimentos sociais, abrindo espaço para um jornalismo dito de “utilidade pública”. Hoje as redes regionais fazem jornalismo de proximidade buscando os laços de familiaridade, identidade e pertença, caracterizadora da mídia local. Nesse novo ambiente, o povo participa ativamente dando depoimento, entrevistas, sugerindo pauta, participando de pesquisas e utilizando as mídias digitais.
Não é intenção condenar as formas de contribuição social da mídia local. Mas apontar exemplos de participação popular, ao seu modo, nas conquistas pelos direitos à informação e comunicação, educação, saúde, lazer, moradia e cultura. Aos meios cabe apenas se colocarem como mediadores do processo e ampliar cada vez mais os canais de relações com os públicos. O contrário, é colocá-los em condição de passividade e desarticular seu modo particular de mobilização.
Bibliografia consultada no site: www.ceciliaperuzzo.pro.br
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