VÃdeo amador que registrou agressão a filhote de poodle em Porto Alegre gerou impacto social através da internet
Com a ascensão e a proliferação da internet no planeta, o jornalismo vem sofrendo uma transformação incrÃvel. Isso acontece através de pessoas comuns que estão na hora certa e no lugar certo. Testemunhar um acidente ou relatar a precariedade de uma determinada rua, por exemplo, chama a atenção do cidadão de tal forma, que ele hoje passa a ser um narrador de fatos, e não somente um mero espectador. Para isso, é fundamental que ele tenha em mãos a ferramenta adequada para o compartilhamento, quase sempre um smartphone.
A crescente força do Jornalismo Cidadão
É comum encontrarmos na web sites em que os internautas postam textos, fotos e vÃdeos de acontecimentos que julgam ser relevantes. Esse tipo de publicação ocorre geralmente em sites de redes sociais, como Facebook, e microblogs, como o Twitter. De olho nessa prática atual, veÃculos tradicionais desenvolveram canais virtuais para esse tipo de contribuição, como o Você no G1 e o IReport CNN. A interação entre cidadão e jornalista, está inclusa no Jornalismo Cidadão.
O Jornalismo Cidadão, segundo os autores Ana Carmen Foschini e Roberto Romano Taddei, é dividido em braços, entre eles o cÃvico, o participativo, o colaborativo e o grassroots. A cada termo, uma maneira de fazer. Mas como a imprensa trabalha com essa atual realidade? Oferece perigo? Ajuda? São questões que a princÃpio podem parecer simplórias, mas que rendem um estudo muito mais complexo do que pode ser descrito.
O jornalista e âncora do programa Gaúcha Repórter (Rádio Gaúcha/Porto Alegre), Daniel Scola, afirma que a interação da rádio com o ouvinte é fundamental “desde sempreâ€. O espaço do receptor em seu programa permite trabalhar o assunto de um formato diferente, trazendo o público para a roda de debate. Isso poderia se enquadrar na categoria de Jornalismo Participativo (somente com comentários e opiniões), mas sua idéia vai além. “Hoje com rede social, telefone celular, torpedo, ninguém mais é dono da informação. O que eu gosto é de pegar o dado que vem do ouvinte, trazer um especialista e fazer um cruzamento de informações, vendo ela por todos os lados e analisando o impacto que isso causa à sociedade. Hoje o ouvinte é uma espécie de pauteiroâ€, afirma.
Scola conta que 50 a 60% do conteúdo transmitido no seu atual programa é oriundo de ouvintes. “Chamo de informação compartilhada. É tu compartilhares uma informação que tu deténsâ€, explica. No matutino programa Gaúcha Hoje, que foi apresentado por Scola durante oito anos, ele diz que 90% das informações de trânsito, ocorrências policiais e de prestação de serviços, vinham dos ouvintes. Nota-se então, que hoje em dia o cidadão tem cada vez mais o poder nas mãos para pautar a imprensa, que desencadeia as mais diversas opiniões entre o público.
Todo o progresso da internet e das evoluções dos dispositivos tecnológicos, causam alvoroço nos meios midiáticos. Recentemente, a redação do Chicago Sun-Times demitiu toda sua equipe de repórteres fotográficos e deu aos jornalistas smartphones. Polêmica no meio jornalÃstico! A Rede Globo não pronuncia mais as palavras “Twitter†e “Facebookâ€, se dirigindo a elas como “rede social de mensagens curtas" e "uma grande rede social", respectivamente. No livro "Jornalismo digital: audiovisual, convergência e colaboração", de Demétrio Soster e Walter Lima Junior, há uma ideia do presidente da CNN, John Klein, sobre a concorrência da web.
Leia-se que "o maior desafio mercadológico da Cable News Network hoje não são as novas emissoras dedicadas à informação em tempo integral, como é o caso da FOX, mas ser mais confiável que redes sociais em vertiginoso crescimento, como Facebook e Twitter". O trecho segue. "Na opinião do presidente da CNN, portanto, a concorrência jornalÃstica é menos preocupante que ambientes de produção colaborativa de informação". Eternas discussões.
O caso do poodle agredido em Porto Alegre
O começo do texto remete o leitor a pensar em pessoas que estão na “hora certa e no lugar certoâ€. No condomÃnio Viva Rossi, localizado na zona norte da capital gaúcha, houve um exemplo claro dessa situação.
Um vÃdeo postado no YouTube, sábado, dia 11 de maio, gerou revolta em grande parte da população. Na gravação feita por celular, uma mulher aparece agredindo junto com o filho, um filhote de poodle toy. O vÃdeo foi gravado por um vizinho da agressora. A repercussão veio através da publicação que ele fez no seu perfil pessoal do Facebook. Pela postagem, seus amigos tiveram conhecimento da violência e compartilharam as imagens. Esse compartilhamento em massa desencadeou uma visibilidade imensa, que chegou ao conhecimento da mÃdia local, que a reproduziu e pautou, inclusive, a imprensa nacional.
Não só em Porto Alegre, mas em todo o Brasil houve manifestações de repúdio contra a mulher, Fernanda Vanacor. O caso foi parar na polÃcia. Ela foi indiciada por crimes de maus-tratos contra animais, maus-tratos contra crianças e constrangimento de menores. Protestos foram mobilizados através das redes sociais. A comoção foi grande a favor do poodle.
O cãozinho agredido está sob os cuidados de Bruno Campelo, subsÃndico do residencial onde mora a agressora. Ele diz que o histórico da mulher “não é muito bom†(por isso o indiciamento de agressão não só relacionado a Rossi - nome dado ao cãozinho -, como também ao filho menor). A violência contra o poodle havia sido flagrada diversas vezes e depois de registrada por um morador com telefone celular, Bruno foi procurado por vizinhos revoltados.
“O pessoal me procurou pra falar sobre a situação que estava acontecendo no apartamento. Eu fui lá ao apartamento, conversei com eles e peguei o cachorro. Depois disso me perguntaram se era possÃvel postar no YouTube ou no G1 pra ver se poderia render alguma coisa e eu disse para postarâ€, relata Bruno. Entre uma pergunta e outra, retruca que sua vida não mudou desde a repercussão do caso. “Só não achei que ia repercutir tanto. Achei que poderia passar algo na mÃdia local, mas não imaginei que iria exagerar para a mÃdia nacional. Tanto é que hoje chegou uma amiga minha dos EUA e disse que viu lá na internetâ€, confessa admirado.
Na análise do jornalista Daniel Scola, esse é um exemplo claro do poder que as pessoas têm de gerar informação. “O vizinho identificou uma situação real, fez o flagrante e usou a internet para divulgar isso. Acho isso fantástico no jornalismoâ€, expressa. Nessas situações a imprensa faz um diferencial. “O vÃdeo somente na internet ficou rendendo polêmica, mas a grande repercussão e impacto social, com pedido de prisão da mulher e tudo, só veio quando a imprensa se apropriou do produto (que estava à disposição) e fez disso uma reportagemâ€, explica Scola. O papel da imprensa nesse caso foi chancelar a informação com a sua credibilidade. Ele diz que mesmo com as redes sócias, o receptor olha com muita mais atenção uma determinada situação quando ela é exposta pela imprensa.
Colaborar faz a diferença
Qualquer pessoa pode ser um cidadão jornalista, basta ter uma conexão de internet, créditos no celular ou qualquer outro tipo de acesso à rede. Para que isso se torne um material jornalÃstico, os fatos registrados precisam ser relevantes para a sociedade, seja por texto, foto ou vÃdeo. Hoje você faz a notÃcia e faz a diferença na sociedade.
É importante lembrar que nem todos terminam com a sorte de Bruno Campelo. Mesmo afirmando que sua vida não mudou desde o caso, ele recebeu um novo integrante na famÃlia: o adorável cãozinho Rossi. Entre as perguntas, ele deixa escapar: “A mulher da propaganda do Datena gostou do que eu fiz e me deu uma super frigideiraâ€, exibe-se sorridente.
*Colaborou Rodrigo Rodembusch, Sara Munhoz e Priscila Valério.
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