Cresci numa cidade onde as praças, parques, monumentos históricos, museus e etc. não são vistos como bens culturais e espaços de interação/lazer da comunidade local, e sim como meio de um pequeno grupo de privilegiados, ganhar/acumular dinheiro. Praças e parques? Como meio de ganhar dinheiro?
Não me refiro aos vendedores de pipoca, nem a banda do coreto ou a qualquer outro personagem que ajuda (ingenuamente, ou não) a reforçar a imagem estereotipada de uma cidade do interior de Minas Gerais. Me refiro as investidas infelizes, da Prefeitura e Câmara dos Vereadores, e na rabeira, da Guarda Municipal e Policia Militar, no sentido de tentar preservar essas características (praça-limpinha-com-velhinhos-turistas-tomando-sol-junto-com-sorveteiro-simpático-e-pipoqueiro-sorridente) em detrimento do conforto e liberdade da população, que, por conta dessas medidas, paga, e usufrui muito pouco desses espaços.
Quando falo da prefeitura, estou falando, na verdade, do uso do dinheiro público para reformar - constantemente- essas praças e monumentos, localizados nas regiões centrais, próximo ao reduto comercial turístico, em consonância com o total descaso com as estruturas de lazer (isso quando elas existem) dos bairros, das periferias e da zona rural.
Ao assistir o vídeo que está rodando nas redes sociais, que mostra Guardas Civis da cidade de São Paulo tirando, à força, skatistas que andavam na Praça Roosevelt, do local, me pus a pensar, qual deve ser a função social de uma praça?
Logo me veio à cabeça uma crônica que li a um certo tempo, do escritor Paulo Mendes Campos, e que nunca esqueci. Nela, Paulo descreve uma situação embaraçosa entre uma menina de 14 meses e um policial adulto – em idade, pelo menos-, onde o policial tenta convencer a menina que pisar na grana é proibido. Na contrapartida, a menina, junto com seu pai, questiona: "se não for pra ser pisada, porque é que Deus, ou o Estado, colocariam grama em uma praça?"
Nada me tira da cabeça que essa é uma postura indistintamente higienista, no sentido de preservar estereótipos de “civilidade” (que não existem, de fato) em lugares com excelente potencial turístico e, consequentemente comercial.
Dessa vez as vítimas foram os skatistas da Praça Roosevelt em São Paulo, dias atrás foi o Pinheirinho, em São José dos Campos-SP. Os espaços estão em disputa. Entre o público e o privado. E nós, sociedade civil estamos no meio, ou nos organizamos pra brigar juntos, com força, ou a próxima vítima pode ser a gente mesmo.
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