Reações visuais aos sons do hipercentro da cidade

Leandro Araújo
Frame da reação visual à paisagem sonora da Praça 7, no hipercentro de BH
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marcelo santiago · Sabará, MG
24/6/2009 · 22 · 1
 

As “paisagens sonoras” resultantes da movimentação no hipercentro da cidade de Belo Horizonte, em meio ao contexto tipicamente urbano marcado por sons gerados por automóveis, pedestres e uma enorme variedade de personagens, são o ponto de partida do projeto Reações Visuais. A partir do registro sonoro de ambientes como a Praça Sete e o Parque Municipal Américo Renné Giannetti inicia-se o processo de transformação e reapresentação das “paisagens sonoras” em reações visuais: imagens resultantes da interferência tecnológica e da manipulação humana.

O artista plástico e arquiteto Leandro Araújo, idealizador do projeto, explica que o desenvolveu como “uma aplicação da arte e tecnologia para um diálogo com o espaço público que passasse pela música contemporânea e pela software-arte”. A ideia surgiu ainda quando vivia na Europa a partir de seu contato com obras e artistas que relacionavam a música eletrônica à software-arte e, aliada à sua bagagem como arquiteto, resultou em um projeto próximo aos debates sobre o espaço urbano. Marcado pela sinestesia, o projeto Reações Visuais explora possibilidades da interlocução entre o espaço urbano, arte contemporânea e novas tecnologias através de uma abordagem estética e teórica.

No dia 1° de julho, quarta-feira, o Reações Visuais chega ao fim de sua primeira fase com a performance audiovisual realizada por Leandro Araújo e o músico Daniel Nunes nos jardins internos do Palácio das Artes. Imagens digitais serão criadas em tempo real por Leandro, a partir dos sons gravados nas ruas, e serão projetadas nas paredes do espaço enquanto Daniel manipulará o áudio registrado, inserindo novas camadas, buscando uma forma de concepção visual e sonora inédita.

Daniel explica que os sons registrados “são irregulares, e em sua grande parte, ruídos, o que desperta uma grande curiosidade em ordená-los criando nossa (ir)regularidade”. E, citando José Miguel Wisnik, explica um pouco da relação entre os ruídos da cidade e a criação artística que apresentarão:
“O som é um traço entre o silêncio e o ruído (nesse limiar acontecem as músicas)".

A performance marca o início da instalação que leva de volta à rua o resultado da obra inspirada pelo espaço urbano. Durante 15 dias, obras visuais criadas por Leandro Araújo a partir das “paisagens sonoras” estarão expostas nos abrigos dos pontos de ônibus ao longo da Avenida Afonso Pena, no centro de BH, permitindo que os agentes criadores dos sons que inspiraram o processo artístico do artista tenham contato direto com as obras finais.

O desenvolvimento do projeto está registrado no site www.lar.li/reacoesvisuais, que reúne as gravações de áudio realizadas em pontos-chave do centro de BH e o mapeamento desses locais, de forma a compor uma cartografia urbana que mapeie através dos sons as atividades humanas (culturais, econômicas e sociais), atividades naturais (ecologia urbana) e da configuração espacial da área urbana central (vias, construções, equipamentos urbanos).

Contemplado pelo Prêmio Interações Estéticas da Fundação Nacional de Artes (Funarte) e com a parceria do Centro de Convergência de Novas Mídias da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o projeto Reações Visuais se estende ao ambiente educacional através de oficinas realizadas com alunos da rede pública municipal. Estudantes de 13 e 14 anos, de 10 instituições, debateram temas relacionados à arte, tecnologia, espaço urbano e aprenderam noções básicas de programação. Ao final dos cinco encontros realizados, os participantes programaram softwares que geram gráficos, imagens e animações a partir do som. As criações dos alunos também serão exibidas no Palácio das Artes no dia 1º de julho e poderão ser acessadas no site do projeto.

O passo seguinte será capacitar professores da rede pública para dar continuidade à utilização de softwares de código aberto para a criação artística. Essa é uma das contrapartidas sociais do projeto e que contribui para a expansão de sua proposta.

Leandro, que assina seus trabalhos artísticos como L_ar e já expôs seus trabalhos em espaços do Brasil e do exterior, como o Festival Internacional de Linguagem Eletrônica - FILE e o Centro de Pesquisas em Comunicação da Benetton (Fabrica, Itália) explicou um pouco da proposta e seus desdobramentos:

Como e quando surgiu a ideia do projeto e qual os seus principais objetivos?
A ideia foi um desdobramento de um interesse – trabalhar com as hibridações entre sons e imagens – que começou quando conheci pessoalmente na Fabrica o artista japonês Tomonaga Tokuyama e vi seus trabalhos de software arte com os músicos Ryoji Ikeda e Sora. Também vi uma exposição sobre o tema chamada Optronica onde conheci o trabalho do Superdraw e Addictive.tv. Esse foi um período de coincidências, quando fui conhecendo num curto período uma rede de artistas e técnicos trabalhando nesse mesmo assunto, voltei pro Brasil na pilha total para produzir também.
O Reações Visuais passa por esse área de investigação mas também tem um pé na discussão sobre o espaço urbano, que se relaciona com minha vinda da arquitetura e foi referenciada nesse trabalho pela pesquisa teórica da professora Regina Helena Alves da Silva. Outro pé estava nos experimentos que eu e o Daniel (Nunes, da banda Constantina e do projeto Lise) já vinhamos fazendo desde o show com o Bernhard Gál.
Enfim, todos esses pontos orbitavam como possibilidades de trabalho. Quando escrevi o projeto para o Prêmio Interações Estéticas, só os juntei, era exatamente com isso que eu queira trabalhar: uma aplicação da arte e tecnologia para um diálogo com o espaço público que passasse pela música contemporânea e pela software-arte.

Por que realizar parte do projeto dentro da rede pública de ensino e qual a importância dessa ação?
Pensei em realizar o trabalho na rede pública porque o projeto começou pelos recursos do Prêmio da Funarte, era um recurso público e isso me vez pensar que a produção de oficinas em escolas públicas seria um retorno à este recurso ganho. Isso tomou pé depois de firmada a parceria com o Centro de Convergência de Novas Mídias da UFMG. O grupo, dirigido pela professora Regina Helena, realiza uma série de atividades com uma rede de 10 escolas municipais, e a parceria com eles operacionalizou a ação. As atividades de ensino começaram como um ponto paralelo do projeto, mas logo que começaram já tomaram um papel central.

A performance no Palácio representa o término do projeto ou ele se estenderá?
A performance no Palácio mais a intervenção nos abrigos representa o fim de uma etapa no projeto, é a conclusão do projeto como ele foi proposto ao Ministério da Cultura/FUNARTE. Na investigação sobre o espaço urbano ele continua em BH e provavelmente em outras cidades, na área de ensino ele continua em parceria com o CCNM. O cronograma de oficinas será mantido e expandido no segundo semestre, com oficinas para alunos e professores.

O multi-instrumentista Daniel Nunes, que divide as baquetas da banda de pós-rock instrumental Constantina com seu projeto solo intitulado Lise, também explica seu trabalho no projeto Reações Visuais.

Qual a sua participação no ReaçõesVisuais?
Ficarei por conta do áudio. Captamos áudios em algumas regiões centrais de BH. Fui convidado pelo Leandro para editar os áudios e organizá-los para estruturarmos 4 peças sonoras/visuais.

De que forma o seu próprio trabalho artístico se relaciona com o projeto?
Trabalhar com novas formas de percepção sonora e organização sonora. Busco relações com o som de formas diferentes das tradicionais frequencias definidas, digo altura, notas musicais. Como diz Wisnik: "O som é um traço entre o silêncio e o ruído (nesse limiar acontecem as músicas)".
Percebi que o som que se produz nestes ambientes são irregulares e em sua grande parte ruídos, o que me desperta uma grande curiosidade em ordená-los criando nossa (ir)regularidade.

Quais as maiores dificuldades enfrentadas ao longo do processo de composição para o ReaçõesVisuais?
Ter um conceito interessante para um determinado ambiente sonoro. A partir disso, nossa escuta muda completamente, fica direcionada. Outro aspecto muito importante a salientar é a parte técnica, editar os áudios e organizá-los tá dando um grande mas BOM trabalho!

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Hermano Vianna
 

bacana! sempre gostei de arte que usa os sons da cidade como base do trabalho - como dizia John Cage neste link... por favor Marcelo e/ou Leandro: publiquem notícias pós dia 1 de Julho por aqui - queremos saber como a primeira fase do Reações Visuais terminou e qual o caminho para as próximas fases!

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 23/6/2009 18:00
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Frame da reação visual à paisagem sonora da rua Guaicurus, no hipercentro de BH zoom
Frame da reação visual à paisagem sonora da rua Guaicurus, no hipercentro de BH
Apresentação do Superfície (Leandro Araújo + Roberto Andrés) com Lise em 2008 zoom
Apresentação do Superfície (Leandro Araújo + Roberto Andrés) com Lise em 2008

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