Reggae e tambor no Carnaval

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Itevaldo Júnior · , MA
21/5/2006 · 0 · 0
 

A crioula levanta requebrando-se e no chão bate faceira em meio a uma roda ligeira. A cena é reveladora da alma de uma das mais importantes manifestações culturais da gente maranhense: o tambor de crioula. No período de Carnaval - assim como nas festas juninas - é fácil cruzar com os grupos de tambor de crioula na área do circuito carnavalesco. Em meio a escolas de samba, blocos tradicionais, organizados, alternativos, tribos de índio, os sons dos tambores ecoam na folia.

Para estudiosos da cultura popular, o tambor de crioula é tão somente um batuque para a liberdade. Liberdade, que permite bater o tambor em qualquer época do ano, seja no Carnaval ou no São João. Para o tambor de crioula, não existe calendário.

Se em São Luís a manifestação é um dos temperos da fuzarca carnavalesca, na Ilha do Cajual, em Alcântara, é o prato principal da festa de Baco. Das entranhas da Ilha do Cajual não afloram somente vértebras, costelas e dentes de titanossaurídeos, terópodas, carnossauros e crocodilos gigantes. A ilha, que é um dos mais importantes sítios fossilíferos da América Latina do período cretáceo, guarda uma riqueza que vai além dos fósseis de 95 milhões de anos. Com uma população negra de aproximadamente 300 habitantes, Cajual traz na sonoridade do tambor de crioula uma de suas tantas outras marcas. E com uma característica muito singular: em Cajual, tambor de crioula é sinônimo de Carnaval juntamente com o reggae.

Rosalina Mendes, nascida no povoado Tijuca, no interior da Ilha, criou o seu tambor de crioula há 26 anos, como pagamento de promessa a São Benedito. Casada pela segunda vez, Dona Rosa, como é conhecida, é quem realiza as festas na Ilha, junto com Urbano Soares, marido dela.
Durante o Carnaval, seu Urbano Soares realiza as festas de reggae, chamadas de bailes. Dona Rosa, por sua vez, arma o tambor de crioula no terreiro em volta do barracão - onde acontece a jornada regueiro-carnavalesca.

Os bailes, com radiolas contratadas em Bequimão ou Alcântara, acontecem duas ou três vezes durante o período momesco. As festas acontecem em barracões de sapé e chão de barro batido. Rosa Maria Diniz Melo, 20 anos, mãe de quatro filhos, aguarda com ansiedade as festas. ?O Carnaval aqui é ao som do reggae e do tambor, é diferente e muito bom?, avalia. O avô de Rosa Maria, José Antônio Cantanhede, conhecido como Pandeiro, 84 anos, afirma gostar muito dos bailes. ?Eu dancei muito nesses bailes. Era um bom par para as moças do lugar. Hoje, eu não posso mais ir, mas continuo gostando?, diz Pandeiro.

Isso o promotor da festa, além de custear a radiola deve oferecer comida aos participantes e convidados. ?Às vezes tem morador que oferece alguma criação, uma farinha, um porco, galinhas, boi. Pois, o dono do baile tem que dar comida para todos que vêm a festa. Cada pessoa ganha seu prato de comida?, conta. Além das dificuldades com o ?rango? da festa, Dona Rosa disse que é preciso contratar coreiros para o tambor em outros povoados, ou trazê-los de Alcântara. ?Temos a dificuldade de encontrar tocadores. Os velhos vão morrendo e os homens mais novos não foram preparados para tocar o tambor?, declara.

Entre os novos tamboreiros, está Raimundo Nonato Sá, conhecido como Pimenta: ?As festas de tambor têm diminuído. Quando acontece é em homenagem a um santo ou porque terá a radiola de reggae. Antigamente nos terreiros das casas, aos domingos, sempre tinha uma roda de tambor." Raimundo Pimenta afirma que aprendeu a tocar tambor com os irmãos mais velhos e se tivesse que optar entre o tambor e o reggae não saberia o que fazer. ?Ficaria com os dois?, responde. E nada surpreendente, em se tratando de carnaval na Ilha do Cajual.

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