Saberes e Sabores
Outro dia viajei com a famÃlia para Caldas Novas, ficando hospedado em um hotel de uma rede bem conhecida na cidade. Resolvemos almoçar no restaurante do hotel, para nossa decepção.
Não sabÃamos o que era pior naquele ambiente: a comida sem sabor, sem cor, insossa, ou os hóspedes devorando-na com desespero. Minha esposa e eu fizemos ali uma reflexão sobre como as pessoas, hoje em dia, comem qualquer coisa, sem degustar, sem exigir sabor: uma comida sem qualidade.
Nós crescemos em famÃlias habituadas à boa mesa. Não estou falando de comida requintada, mas sim, de pratos simples, saborosos, bem-feitos. E mais, a mesa era um espaço social, onde a famÃlia se reunia, conversava, fosse almoço ou jantar, ou simplesmente para um café acompanhado de alguma guloseima. Quem nunca se reuniu para uma pamonhada, não sabe o que está perdendo.
Quem não tem, gravado na memória, os aromas, os sabores da infância? Pé-de-moleque, maria-mole, o doce de leite da vó, o quindim daquela padaria, os bolos e salgadinhos que a gente encomendava da quituteira... E acrescente nessa lista tapioca, galinha caipira, queijo minas, doce de figo, queijadinha, biscoito de polvilho, de nata... Me lembro de um vendedor que passava com um carrinho de mão, cheio de uma cocada cheirosa e deliciosa, gritando: "olha aê a cocadinha! / Tem da branca, tem da moreninha! / Cocada fresquinha / cocada gostosa!"
Minha mais antiga lembrança gustativa talvez seja a de um doce chamado chouriço, que nunca mais vi, nem ouvi, nem comi... Recordo-me da geléia de mocotó verdadeira que minha tia fazia, escura, forte, caseira... E os fiós, que prometeram fritar pro casamento da minha prima, mas não fizeram? Fico com água na boca só de lembrar. Olha, tomar um café colhido, torrado e moÃdo na hora é uma experiência inesquecÃvel, acreditem.
Por essas e outras fiz questão de participar, como voluntário, do Terra Madre Brasil 2010, evento do Slow Food, um movimento mundial de ecogastronomia que preza pelo que é bom, limpo e justo à mesa. E que surpresa agradável... Conhecer novos sabores e saberes, pessoas simples de todo o paÃs, que se reuniram com a intenção de resgatar essa tradição, sem perder o respeito aos valores agregados, aos costumes transmitidos e ao trabalho do homem do campo. Era açaÃ, cupuaçu, bastão de guaraná, coco licuri, umbu, pimenta-de-macaco e uma infinidade de delÃcias que não basta simplesmente comer, é preciso que elas percorram os cinco sentidos, para que se compreenda - ou se volte a compreender - o que é comer bem.
Ficou com água na boca? E você, quais são os sabores da sua infância?
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