Um conto "malicioso" de Monteiro Lobato

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Coração de Rubis
1
Cláudio Carvalho Fernandes · Teresina, PI
17/6/2014 · 7 · 0
 

Uma outra faceta muito interessante de Monteiro Lobato:

“Contos como “Rubis . . . ” são comuns na prosa lobatiana do período acadêmico. Tudo indica que tinham endereço certo para alguma namorada. Cheio de malícia, aproximando-se mesmo do picaresco, com leves tons fesceninos, provocavam entre os leitores de “O Povo” e do “Minarete” os mais desencontrados comentários. Já velho, gostava de relembrar êsse tempo e essas colaborações, e era entre típicas gargalhadas que falava do ar assustado do Dr. J. Pereira Matos ou do amigo Benjamim Pinheiro, quando algum trabalho mais audacioso fazia com que os leitores de Caçapava ou Pindamonhangaba devolvessem, com violentas censuras, exemplares dos jornais nos quais estampara suas “brincadeiras.”


Rubis . . .

A

- Gostou? Disse Paulo no momento em que Lúcia terminava a leitura do sonêto. Ela com um risinho de maliciosa ingenuidade fixou nêle os olhos côr do mar e: o primo tem cada uma!
- Cada uma? Por que, Lúcia?
- Estas comparações . . .
- Acha-as más?
- Não sei, não é isso . . . mas na minha opinião . . .
- São falsas?
- Espere; podem ser verdadeiras, mas . . .
- Mas? A prima é tôda reticências hoje!
- É que . . . tenho vergonha de dizer! – e baixando os olhos maciamente úmidos – tanta ousadia, assim em público . . .
- Ousadia? Onde? Como? Não entendo! – fêz o moço franzindo os sobrolhos num arzinho de ignorância e de riso interrogador.
- Bem sabe! O que quer é que eu diga tudo, o santarrão! Pois direi está aí!
- Fala neste sonêto em magnólias entreabertas, em botões de rosa. É ousadia; pois não; como sabe? – terminou Lúcia dando ao rosto a mais encantadora expressão de malícia requintada e pudica.
- Como sei? – repetiu o rapaz meio embaraçado – sei porque já . . . li os poetas, nos romancistas . . .
- Não creio, não. Já viu d’aprés nature com certeza; há mulheres tão impudicas!
- Acha impudor isso prima? Mostrar uma mulher o que possui de mais formoso? Oh!
- Oh que exagerado! Então para o primo o . . ., os botões de magnólia são mais belos que o rosto, que os olhos, a bôca, as mãos? Oh!
- Talvez não seja assim; mas o recato que mantém sempre o . . . – e ela baixou ràpidamente os olhos, a deliciosa hipócrita! – o seio defeso aos olhos do mundo, dá-lhe um encanto, uma beleza quinta-essenciada e aguda, capitosa e ardente. E depois êle é realmente belo. Tão roliço, tão cetíneo, tão aveludado, servindo de engaste a dois rubis tão vivos . . .
- Primo! O que é isso? Está muito ousado hoje – ralhou a deliciosa prima levando o dedo róseo à flor dos lábios contrafeitos num muxôxo tentador. – Foi nos livros que aprendeu isso? Queime-os; são falsos.
- Falsos? Acha má a comparação dos rubis?
- Acho sim, acho que não exprime bem o . . . – e corou assustada.
- Meu Deus! Por que caminho me ia enveredando!
- Oh não! Continue! Peço-o encarecidamente.
- . . . não dá o rubi uma idéia perfeita do . . . do . . . botão de rosa.
- Não dá uma idéia? Ora prima! Prove-o se for capaz.
- Prová-lo? como?!
- É bem fácil. O seu corpete é rendado, o que custa deixar através de uma das malhas do entremeio . . . o rubizinho respirar um momento a deliciosa frescura da manhã?
- Primo! Repreendeu Lúcia – que confiança!
- Não é confiança, meu anjo, é amor à Verdade, à Ciência; a prima acaba de apodar de falsa uma comparação minha; quero que o prove; com isso ganhará o meu estilo, a perfeição do meu verso; ganhará a Verdade, a Arte e a Ciência.
A Ciência?
- Sim, a Ciência para qual a verdade está acima de tudo. Prove-me a falsidade da comparação e mais um átomo de verdade irá se agregar ao imenso acervo da Verdade com V grande. Por amor à ciência, prima, prove-o.
- Já que é em benefício da ciência vejo-me forçada a ceder. Mas olhe, e sacudindo o dedinho com seriedade – olhe bem! Isto não é uma brincadeira, é um estudo, uma observação científica muito séria! Fique carrancudo e grave como um filósofo e vire-se para lá.
Enquanto o primo ansiosamente esperava, olhando através da janela, o “pronto”, ela com os dedinhos de rosa, fêz vir a uma das janelinhas do entremeio a mais preciosa gema jamais burilada pelas mãos da natureza.
- Pronto – fêz ela – olhe-o, estude-o conscienciosamente . . . e depressa.
- Como é lindo! Como é galente! Mas . . . – e fitando bem os olhos – a prima está-me enganando! Isso é o rubi do anel cujo aro está oculto na renda! Ora prima!
- Não é, não primo; o anel está no escrínio.
- Não me embaças! É o rubi do anel sim – levou a mão para apalpar.
- O que é isso, primo! Que ousadia! – fêz Lúcia encolhendo-se num coleio de cobra assustada. E êle, sorrindo vitorioso: É o rubi do anel mesmo; é por isso que não quer que eu pegue; é, estou vendo um pedacinho do aro.
- Pois pegue, seu incrédulo – fêz a moça com impaciência. O rapaz levou ousadamente as mãos ao ponto róseo, e depois de acariciá-lo com ternura: realmente! A prima tem razão; mas – e concentrando a vista – aqui existe qualquer cousa de anormal. Olhe, no centro é bem rosado; depois, à medida que descamba para a periferia toma nuanças de lilás pálido; depois parece que o lilás se funde num tom róseo amorenado . . . Não compreendo bem êste engaste; aqui há artifício!
- Oh juro que não!
- Prove!
- É em nome da Ciência?
- Sim, certamente, e lesto descobriu mais uma polegada do seio divino de Lúcia. Estava encantado; nunca viu tamanha perfeição! E que perfume tênue e subtil êle exalava! Tudo concorria para torná-lo sedutor; a pureza da curva, a maciez da penugem, a côr pàlidamente rósea, a delicadeza do perfume; Paulo, a pretexto de estudar-lhe o sabor, beijava-o demoradamente.
A moça em bruscos arrepios deixava que os estudos prosseguissem e cada vez mais se alargava o campo das experiências; por todo êle Paulo estendia um tapête de beijos ardentes. Os olhos de Lúcia cobriam-se de névoa úmida do desejo e semicerrados despediam raios de volúpia inenarrável.
- Meninos, o que estão fazendo aí? Murmurou uma voz à porta; Lúcia de um salto foi abrir; era a velhota.
- Nós estamos discutindo sôbre a côr dos rubis – disse logo a moça com encantadora naturalidade - Paulo afirmava que êles têm perfume e nuanças arroxeadas; para decidir a questão examinávamos aquêle par que papai me deu.
- Qual? Quando? Interrogou a esquecida velhinha.
- Mamãe não se lembra mais? Está sem memória a minha mãezinha – e beijando-a, pois saiba que papai me presenteou com um belíssimo par de rubis, na opinião de Paulo perfumosos e nuançados de roxo; uma verdadeira preciosidade! Não mostro à mamãe porque mamãe não enxerga mesmo.
- Mas como você tem uma jóia dessas e não me mostra?
- Ora mamãe! Que memória a sua! Pois a sra. muito bem os conhece! Se muitas vêzes os lavou, há anos.
- Pode ser; a minha memória anda tão fraca.


LOBATOYEWSCKY

(“o Povo” – Caçapava, 18 de junho de 1903.)”


Recolhido de “Obras Completas de Monteiro Lobato”, volume 14 ( Literatura do Minarete ), Editora Brasiliense, 1964, páginas 47 a 53.

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