Tenho uma visão equivocada do Jornalismo, já me disseram e concordo. Associo, que crime!, os membros dessa irmandade maçônica aos antigos bardos, bravos narradores de eras remotas, que muito antes do cinema inventaram um jeito de projetar imagens de longínquas odisséias para deleite dos desafortunados que passavam suas vidas miseráveis distantes dos grandes eventos. Os poetas de então rondavam léguas sem fim, perpetuando os nomes dos heróis, incitando o temor aos deuses, cativando a audiência, as mentes jovens do mundo.
Nesse ponto devo argumentar em meu favor que sou louco, que me encontro atado à nau da insânia a milhas de qualquer cais. Afinal, sugiro ter sido o grande Homero nada mais que um precursor da Imprensa! Os iluminados que compuseram os vedas não obtiveram um furo de reportagem ao dissecar a essência sutil dos homens? E, por acaso, não se valeram de alguns “critérios de noticiabilidade” os felizes autores da Bíblia? Ora, graças a Deus, naqueles tempos não havia ainda a décima terceira praga, a técnica da pirâmide invertida!
Que temos nesses exemplos, quiçá exagerados, mas ainda assim sinceros, que se possa contrapor à Mídia contemporânea e seus cânones? Simples! São boas histórias contadas de modo excepcional. Certo, quase ninguém as lê, mas ainda assim reverberam séculos após sua concepção nas mentes de seus leitores e dos leitores de seus leitores. Desfrutam de peculiar eternidade. Seguirão sendo contadas enquanto houver humanidade. Que jornalista hoje espera mais que a atenção de uns dias?
Quando entrei para a Faculdade, queria ser um colecionador de estórias. Eu partilharia minhas preciosas narrativas com todos, seria lido com a ânsia que a criança (do século XIX) lia Júlio Verne, ou os relatos de um Crusoé. Falaria de terras estranhas e de costumes estranhos, mas não dos encontravéis na face oposta do globo, não, falaria dos que estão incrustados no coração da cidade. Estenderia o mundo aos olhos do mundo, como se apresenta um bicho a si mesmo no espelho e ele se estranha.
Jornalismo para mim era partilhar experiências, engrandecer a vida de cada pessoa com relatos sublimes. Que desvio tomamos, que a informação seguiu na contramão do conhecimento? Em que momento a atualidade adquiriu tal autonomia da História? Afinal, a Humanidade é mais que o instante, é o constante. Ficar preso ao efêmero inda há de nos pôr vazios.
Tinha essa idéia estúpida quando entrei para a Universidade. Mas nada melhor para assassinar a inocência do que constantes doses desse cinismo arrogante dos acadêmicos de alma enrugada. Eles vivissecam passionalmente seu objeto de estudo, violentam com gozo, tomam posse de cada peculiaridade, cada reentrância formal. Tornam-se, enfim, donos de certas verdades invioláveis. Estabelecem dogmas ateus, como quem ergue obeliscos em honra a suas consciências fálicas, rasgando o Céu como à boceta de Pandora.
Aplicam suas regras como quem ata um cão a um canto por uma corrente cortante. Há certo sadismo de sua parte ao ver o sangue escorrer fino dos animais revoltos. Valem-se de seu sarcasmo, com um sorriso irritante, um deboche em forma de pergunta retórica... Somente quando percebem que o aluno adaptou-se à coleira, sossegam e se recostam em suas poltronas reclináveis para os delírios cotidianos.
Gostam de nos empurrar certos conceitos fugazes, inúteis, frustrantes. Não admitem, mas temem a criatividade como quem foge à cruz. Almejam a sociedades perfeitamente regradas, onde reine a infalível Moral, em que cada qual aja conforme o plano, atenha-se ao combinado, e nada seja imprevisível. Têm frêmitos ejaculatórios ao ler “A Revolução dos Bichos”.
A seus aprendizes, carneiros rumo à tosquia, nada resta senão rezar por sua cartilha. Afinal, é isso que é jornalismo, não? Ou será que um outro jornalismo é possível? A resposta, meus amigos, não me cabe dar. Leia a Bíblia.
*por Diego Calazans, aprendiz de bardo
Compartilho de alguns pontso em que você pincela que o jornalismo "falaria [fala em alguns casos~] de terras estranhas e de costumes estranhos, mas não [só] dos encontravéis na face oposta do globo, não, falaria dos que estão incrustados no coração da cidade". Realmente compartilho.
Mas acho que você faz uma análise um tanto maniqueísta e personalista ao creditar o atual estágio do jornalismo aos acadêmicos. Pelo menos foi mais ou menos isso que entendi.
A compreensão do jornalismo parte primeiro pela estatuto da imprensa enquanto ramo mercantil e depois pelos processos de instauração de valores centrais como o "novo" .
Outra coisa é que as redações de jornais são contraditórias na sua prática jornalistica. Claro que quase sempre pende para o lado da notícia enquanto mercadoria de prazo de validade curtíssimo. Mas a paixão e o bom jornalismo transparece até mesmo nas grandes redações. E é sempre bom lembrar que as grandes é uma parte, a mais vísivel, mas apesar uma parte do jornalismo praticado. Eis o Overmundo para dizer o difente.
de fato. concordo que fui restrito demais.
esse texto foi uma espécie de desabafo. fiz para o CMI daqui. o CMI também é uma exceção, como o Overmundo.
fiz o texto porque estava saturado com o curso de Jornalismo (que acabo de concluir), foi meio um texto de despedida (quando eu ia desistir novamente da carreira). a realidade do jornalismo daqui também é de pôr qualquer um pra lá de azul.
mas não vi muita diferença na grande imprensa do resto do país ou do mundo. acho que o Jornalismo tradicional de apego extremo ao efêmero é muito frustrante pra quem, como eu, não crê que o mundo se refaz a cada amanhecer, mas permanece com suas mesmas contradições quase que perpetuamente. prender-se à idéia de "notícias frias" x "notícias quentes" é frustrante. vejo muita coisa que não é nenhuma novidade (jornalisticamente falando) mas é preciso que se diga, e rende excelentes histórias (jornalisticamente falando também).
acho que falta aquela sensação de que o jornalista é um historiador da contemporaneidade. um arquólogo do cotidiano.
enfim...
Compartilho com você Diego essa frustração. Tb acabei de me (de)formar em jornalismo e vejo essa reconstrução das mesmas coisas permanentemente embaladas com papéis diferentes ou às vezes apenas um laço de outra cor, expostas nas prateleiras como se fossem diferentes. A pirâmide invertida realmente é um chute no saco.
Agora o jornalismo que faremos depende da gente apenas. Trabalhar para um veículo qualquer (TV, jornal, rádio ou intenet) não nos obriga a esquecer que sonhamos, a esquecer o que lemos ou o que assistimos. A nossa linguagem pode provocar seja em uma palavra chave seja em uma frase estrategicamente colocado num txt.
As pautas podem ser sugeridas por nós mesmos na maioria dos veículos, aliás por aqui eles rezam para que as pautas apareçam... Bom... Continuam dividindo-as como se fossem compras de supermercado: sacola azul, produtos de geladeira, sacola branca, produtos de armário. ehehe
Adorei esta parte do txt: "Eles vivissecam passionalmente seu objeto de estudo, violentam com gozo, tomam posse de cada peculiaridade, cada reentrância formal. Tornam-se, enfim, donos de certas verdades invioláveis. Estabelecem dogmas ateus, como quem ergue obeliscos em honra a suas consciências fálicas, rasgando o Céu como à boceta de Pandora."
Ainda assim, ouvir e fingir q concorda. Ser indiferente àquilo que não nos serve...
Tem um discurso do Buda no livro Cem discursos históricos, Carlos Figueiredo, que sugere isso... Aliás, o livro é ótimo. Vc conhece?
Abraço e parabéns pela inquietação.
obrigado, Cláudio.
não conheço o livro. vou procurá-lo.
abs!
faço faculdade de jornalismo e digo: também me decepcionei bastante com a profissão. Como disse nosso amigo diego, o jornalista é um histpriador contemporâneo - é uma bela definição.
jujuba · Santo André, SP 14/7/2007 12:19Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
A Revista Overmundo está chegando ao fim de sua primeira temporada e você não pode perder a oportunidade de colaborar! A edição nº 6 da revista,... +leia
Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!
+conheça agora
No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!