Em Manaus, há uma máxima que classifica a cidade como um lugar onde tudo acontece de modo completamente diferente do restante do país. Mencius Melo é um habitante, estudante de ciências sociais, repórter de cultura de um jornal impresso da grande mídia local, fazedor de cultura e líder da banda de rock Zona Tribal. Um indivíduo que acumula estes papéis sociais e empilha sob os ombros as esperadas dificuldades enfrentadas por cada um destes postos, exercitados nesta semi-metrópole amazônica com idade mental de província. Sorte a dele ser parintinense, fator que proporciona a particular habilidade intelectual possivelmente genética dos nativos da ilha para sobreviver na babilônia nortista, sempre em ação, sempre realizando.
Fundada em 1996, a Zona Tribal possui a trajetória da resistência do rock amazonense. Com apenas dois CDs gravados, Zona Tribal (2001) e Extremo Norte (2007) comemora atualmente a gravação de um terceiro trabalho. Mas Crônicas não tem músicas inéditas, a alegria fica por conta do interesse de uma gravadora carioca, cujo nome a banda prefere manter em sigilo, que pinçou dez músicas dos dois primeiros trabalhos para um tão sonhado CD com distribuição nacional. Nesta entrevista, Mencius fala deste importante momento da banda que aproveita para voltar aos palcos de Manaus com as contradições que só quem vive na cidade compreende. Como o estilo das suas músicas, não poupa disparos. Leia e esquive-se, se for capaz.
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OVERMUNDO: A Zona Tribal está voltando aos palcos. Como os integrantes da banda sempre se posicionaram de forma crítica à cena atual, o que os admiradores podem esperar desta nova apresentação?
MENCIUS MELO: Mero entretenimento, pura e vã indústria cultural. Preparamos o show Rock Circus Show para uma apresentação de duas horas, são 40 músicas entre covers, versões especiais para alguns clássicos selecionados pelos integrantes da banda e algumas músicas da Zona Tribal.
OVER: Quantas músicas da banda?
MENCIUS: Nossas? Acho que apenas oito se me lembro.
OVER: Porque tão poucas?
MENCIUS: Fizemos uma opção para não forçar a barra no nosso mercado de Manaus. Estamos nos apresentando para manter vivo o nome da banda. Como o show é longo, vamos colocar um mágico vestido de palhaço no intervalo da primeira hora para entreter o público.
OVER: Nào deixa de ser uma mudança de postura para uma banda que sempre fez questão de tocar suas composições. A banda não estaria se entregando à tendência ao autopreconceito que o manauara tem sobre a cultura produzida aqui?
MENCIUS: Na verdade sempre tocamos covers nos nossos shows. Quanto à postura, isso depende da semântica da cada banda. Têm grupos que fazem da música autoral sua opção de trabalho e limitam-se aos acordes que constroem. A Zona Tribal nasceu com o objetivo de fazer música, alcançar o sucesso e ganhar dinheiro. Isso não é proibido.
OVER: Em pleno século XXI, quando dizem que vivemos em uma sociedade de comunicação total, o que move uma banda de Manaus a procurar ainda a antiga rota do “sul maravilha” para tentar reconhecimento e sucesso?
MENCIUS: Não se pode ignorar que os meios de comunicação e as grandes e médias gravadoras estão no Sudeste. Você acha que eu almejo morar no Rio? Eu não tenho vontade nenhuma de morar no Rio de Janeiro, amo morar em Manaus, inclusive considero uma violência “geo-emocional” sair daqui para empreender um sonho. Mas o que nós podemos fazer daqui isolados?
OVER: Eu me refiro às novas possibilidades proporcionadas pela Internet. O que a banda tem feito para explorar este recurso que, em tese, põe abaixo esta noção de “territorialidade” que vocês colocam como uma das principais barreiras?
MENCIUS: Mas a internet é tão escrota em Manaus que desestimula toda a minha curiosidade. É muito facíl para o “Cansei de Ser Sexy” fazer sua divulgação em São Paulo e obter um feedback enorme do público. É uma cidade onde existe uma cultura de acesso consolidada na busca por novidades que é estimulada e possível pela qualidade/velocidade do serviço, em comparação, aqui levamos um tempo enorme para abrir uma única página se não quisermos pagar um absurdo para ter acesso de banda larga. Depois, existe público de massa em Manaus consumidor de cultura para justificar o uso da ferramenta? Acredito que apenas 30% da população de Manaus acessa internet, disso, muito pouco deve utilizá-la além de MSNs e Orkuts, onde inclusive temos uma comunidade para divulgar a banda e nossos shows, mas sinceramente, por telefone poderíamos atingir o mesmo público que são de amigos e admiradores, quem no fim das contas acaba indo, com ou sem internet.
OVER: Um sulista pode dizer que você acaba de subestimar publicamente o poder da web.
MENCIUS: É muito confortável para um sulista dizer que o Norte não utiliza ou acessa pouco a web deslizando na rapidez da super banda larga 3G. Eles desfrutam de algo que na realidade nós pagamos, assim como a eficiência e os baixos custos da Internet na Europa e América do Norte são financiados pela exploração do serviço nos continentes mais pobres pelas empresas provedoras transnacionais pós-privatização, isso é fato. Quem não quiser acreditar nisso pode explicar também pela chamada lei de mercado, mas o resultado de um motivo ou de outro é que nós não temos dinheiro para bancar o absurdo de uma Internet rápida aqui, restrita a poucos, nem paciência para coisa simples como abrir uma página. Não quero ser deselegante, mas duvido que o Overmundo seja uma febre em Manaus, portanto, não dá para dizer daqui “estou na internet, sou feliz, tenho mídia”.
OVER: Então na sua leitura, esta seria uma mostra do conjunto de razões para a estagnação de várias manifestações culturais no Amazonas?
MENCIUS: Há um núcleo que produz e consome cultura no Amazonas e de alta qualidade, vale destacar, mas é restrito. Somos um estado meramente consumidor, não se exportou nada daqui em termos de música a não ser Chico da Silva, na década de 1980, e o boi de Parintins todo mês de junho, ou seja, sazonalmente o Brasil lembra que o Amazonas existe, quando não nos chamam de “Amazônia”. Nós, amazonenses somos obrigados a produzir em um deserto de emoções, percepções e recursos.
OVER: Explique por favor.
MENCIUS: Emoções por que o artista precisa emocionar, mas não vemos o grande público - condicionado aos modismos pré-fabricados – reagir ao que é amazônico e não-modismo. Isso explica também a falta de condições de percepção deste coletivo. Para produzir o artista precisa de recursos e na falta de qualificação burocrática para emplacarmos projetos culturais de grandes empresas, o meio artístico fica dependendo do poder público. Ai eu pergunto: Será que o poder público quer distribuir cultura e esclarecimento à população? Será que a população condicionada sente falta de algo? Sabemos o quanto uma cultura regional faz bem para a auto-estima e o desenvolvimento de um povo, e seu reconhecimento perante os demais, mas onde está o interesse? Pra quê um pólo industrial incentivado com mais de 600 indústrias se tudo se resolve em São Paulo ou nas suas matrizes? E o tempo passa e continuamos sendo chamados de "Amazônia".
OVER: Não ter a oportunidade de brilhar fora também atrapalha o reconhecimento interno de quem produz cultura em Manaus?
MENCIUS: Acho que mais grave que isso é a falta de intercâmbio. Não há troca quando você apenas consome. Quando eu vejo a comoção para assistir aos show dos Scorpions, Nightwish e não vemos uma banda consagrada local tocar para abrir o show dos caras, ou quando os empresários convidam uma banda local, mas condicionam o repertório à execução de covers, estamos assistindo ao deserto que falei anteriormente. No mês passado aconteceu o festival About Us, com shows em Manaus e São Paulo, onde nomes como Vanessa da Mata, Nx Zero, Ben Haper e Dave Matthews Band vieram pra cá me ensinar a preservar a Amazônia (risos), e pior ainda: com discurso colonizador-preservacionista dentro da minha própria casa (Manaus). Fui fazer a matéria e perguntei para a assessoria do evento quem eles levariam do Amazonas para São Paulo para fazer este intercâmbio de música, de pontos de vista, e procurei questionar quando soube que não haveria ninguém do Amazonas em um evento que fala de Amazônia. Afinal, isso não soa estranho? Bem, o resultado é que minha matéria foi vetada por um pedido da assessoria do evento junto ao veículo onde trabalho.
OVER: O que resta então diante desse quadro?
MENCIUS: Eu posso te responder com uma frase bem hollywoodiana: “A vitória pertence a quem acredita nela por mais tempo”, tudo bem que o Los Hermanos não querem ser vencedores, mas eu particularmente quero, nós da banda Zona Tribal queremos e sei que muita gente em Manaus quer. Há muito trabalho a fazer e mostrar por aqui.
Axe'
Mencius, beleza de 'fala'.. sendo "um" daih tb, e nao sendo, pois, sai com 19, e ate hj so volto de ferias quando vou ao BR... foi bom ler tuas "falas" , que me recordam 'myself' e minha jornada, gingando na rua, cantando no grupo que niniciou o coral do Teatro AM, indo pra BSB, pro RJ e SP pra graduar musica... e...
; o que ouvia que falavam sobre nois, amazonenses, as "ideias" mais absurdas e arrogantes, ignorantes de fato.
Bom, intercambio, entre norte e sul...deste... na maneira que vc expoe... :
nomes como Vanessa da Mata, Nx Zero, Ben Haper e Dave Matthews Band vieram pra cá me ensinar a preservar a Amazônia (risos), e pior ainda: com discurso colonizador-preservacionista dentro da minha própria casa (Manaus).
Ehh.... vagal ta "viajando"... e, tinha era que se olhar em vez de querer dar licao pros outros.
Em falando de cultura e artes que somos, (vc/s, claro, que estao aih produzindo e resistindo) e do que se exporta pro BR, e quica afora... faltou vc citar, ja que citou ate o boi de parintins, o pessoal do egberto, raiz caboclo, e, o zezinho & carrapicho... torrinho... pra nao dizer que nao falei das 'flores' do AM... em geral.
Malungo... aquele abraco e muita alegria, que possas produzir sempre e melhorar pra nossa gente aih, pro BR.
TamSU (!) aih, pro que possa servir pra causa da nossa evolucao, e comunicacao.
Caminhando e cantando e...
Precisa falar mais nada...ta dito Mencius e Yusseff... vida longa a Zona...apoio, divulgo e comento.....abraços
Rafael D. · Belo Horizonte, MG 28/11/2008 03:25
Obrigado Rafael, como diz Yussef: A luta continua!
mencius · Manaus, AM 2/12/2008 16:03Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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