sobre o colaborador
É bem provável que não vou me lembrar de todos os lugares que trabalhei, mas dos biscates semanais que lembrei hoje, foi os dois dias que ralei na montagem de um circo ali na marginal do Tietê, à quela época morando em albergue e fazendo bicos por uma paga de dez reais com almoço incluÃdo, foram dias de trevas. Foram necessários mais de vinte homens para tirar parte da lona que era acoplada a uma carreta, e seu mastro principal, os demais postes eram fincados no chão por um homem excessivamente musculoso que parecia fazer parte do espetáculo, como a pessoa mais forte das Américas, tamanha era sua facilidade, com a marreta pesando muitos quilos. A certa altura um camelo surgiu do nada e avançava na direção dos incautos montadores, mordia feito cachorro feroz, por milagre ninguém se feriu gravemente. Havia uma ferramenta estrela com catraca, em cada ponta da lona que tracionava uma faixa e a prendia em volta dos postinhos que serviriam para a cobertura das arquibancadas de madeira e dava o contorno caracterÃstico de um circo. De cada fato que me lembro minha certeza é que os ciclos findam. Bons ou ruins em minha vida tudo faz sentido, á medida que a experiência é incorporada á vida meu olhar é desviado para o não julgamento imediato, uma pausa muito eficiente ligeiramente necessária é, a da aceitação que as coisas são mais simples quando executadas em cooperação para o crescimento conjunto, gosto muito daquelas anônimas, onde se colocam os egos fora dos interesses, não confunda anonimato, com obscurantismo. Dia desses uma mulher em situação muito vulnerável caiu ao meu lado, seus ombros estavam carregados de sacolas plásticas e reciclagem recolhida, lhe perguntei – tá pesado? À queima roupa me respondeu que pesada era a lÃngua do Homem! Sabedoria de primeira grandeza; ajudei-a levantar-se, mas quem saiu dali modificado fui eu. E assim meus ciclos têm esses fundamentos, aprender e aprender levou muito tempo para entender, ainda hoje me pego ingrato com minhas aflições e ansiedades sem entender porque algumas pessoas se vão, ou porque outras não permaneceram, porque não sinto tanto por aquelas, mesmo sem se despedir, por que também eu não permaneço? No pesado bruto, na lida das marretadas o cotidiano por vezes parece caçoar e dizer que aprender com os próprios erros é razão de tanto pesar, mas que fazer? Na inquietude é que me sinto bem, mesmo sabendo que sábio é quem aprende com erros alheios e o vazio da alma não encontra haste nem mastro, tampouco amparo.