- Não dá pra entender não…
- …
- Por que acabar assim?
- Eu já expliquei.
- Não, você não explicou… Não tem que acabar nada, não faça isso, Nina, nos entendemos tão bem, ta tudo lindo, por que isso?
- Velho, eu já disse, não dá, é irreal, somos muito diferentes.
- Agora somos né?
- Eu sou muito velha pra você porra. Estamos em fases diferentes, queremos coisas diferentes.
- O que, por exemplo?
- …
- Não sabe?
- Porra, caralho, várias coisas.
- …
- …
- Nina, não vou deixar você ir.
- Não vai deixar? Você não tem que deixar nada!
- Não tô brincando, você não vai sair da minha vida assim.
- Por que tornar as coisas mais difíceis?
- Você não quer ir Nina…
- Não? Essa é boa…
- Vai pra onde então?
- Mas veja só! Eu vou, caralho, vou embora, só isso. Porra, facilite as coisas… Cê sabe que gosto de você pra caralho, mas… É injusto, saca? Você tem outras coisas pra viver, outras idéias, eu tenho outras prioridades… ah sei lá, é muita coisa e você sabe, porra!
- Cê me acha um menino, não é?
- Não, velho, você é mais homem que muitos de 30… Mas porra, não dá pra assumir nada, podia ser um lance mais calmo, mais aberto, saca? Mas você não quer…
- O que é um lance aberto, Nina? Me diga, o que é?
- Velho, não tem mais o que conversar não, sabe? É simples, é só cada um seguir pra seu lado e pronto. Não significa que a gente não vai mais se ver, não significa nada disso. É só entender que não rola uma coisa séria, saca?
- Isso não é sério?
As mãos no braço, um beijo afoito, quase intuitivo; dois lábios, saliva, língua, gosto. Os olhos mudos, faiscados de pequenas gotas; o coração.
…
- Não faz isso, Nina…
- …
- Não somos tão diferentes, não tem tanta diferença assim…
- …
- Olhe pra mim…
- …
- …
O rosto levanta, seu olhar se estende. Lágrimas fugidias espiam o horizonte. O sol num quase a se pôr, palmeiras ao vento, o mar… Nina não sabia mais o que dizer, porque os argumentos, abstratos, se escondiam em paradigmas que mereciam ser quebrados, mas talvez os nãos fossem pra ela o resto do silêncio que havia… Como se entregar para alguém? Era tudo muito confuso porque seus corpos, seus fluidos, seus encaixes, tudo cabia, tudo transgredia as razões. Mas ela sabia que precisa ir, não pra tão longe que não pudesse mais vê-lo, não para um distante tão doloroso, mas para uma colina mais alta, mais segura… Mas ele não entendia e era confuso mesmo… E aquela conversa era tão… Inútil… Desde o começo o aviso, mas Nina sabia que devia ir mais devagar. Mas a pulsação das coisas fogem aos nossos ritmos, é difícil manipular o acaso, quando ele se revela em concretudes variadas. Mas era preciso um fim. Era preciso sair dali rapidamente, pois aquele beijo havia revelado ainda mais de si, porque aqueles lábios dele, tão carnudos, tão fervorosamente carnudos, eram irresistíveis… E seu corpo todo pulsava junto com o beijo…
- Olha, não tem mais nada pra falarmos…
- Nina, você pode ir, mas você não vai conseguir fugir de você mesma.
Ela levantou. Olhou pra ele. “O coração na boca, antes da palavra louca que eu não digo”, pensou.
- Tem certeza do que está fazendo né, Nina?
Não. Ela não tinha. Mas certezas são troços tão irreais quanto coelhinhos na páscoa. Ela apenas queria acreditar que era o melhor a fazer. Era uma covarde e sabia disso. Mas tinha de ir embora dali, daquele homem, daquele instante. Tinha de ir, antes que se perdesse.
- Levanta, facilita as coisas.
- Levantar pra quê? Pra me despedir de você?
- Anda velho…
- Como você pode ser tão fria?
- Vai ficar aí então? Beleza, to indo.
Dois passos. Um mundo inteiro à frente. Para onde ir agora? Doía sim, mas doía menos do que ser deixada. E Nina conhecia essa dor e jurou que nunca mais a sentiria. O céu já não sangrava mais, nem ela. O ar perpassava livremente suas narinas, o mar procurava seus pés. Mais uma vez Nina ia embora, ficando. Mais uma vez não conseguiu acreditar, mais uma vez… E seria sempre assim, até que um dia…
Uma fuga, um adeus...
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