Quedou-se inerte, ao abrigo do céu, aquele homem
perscrutava o caos resultante daquele repentino temporal
o naufrágio de sua identidade, de seus simplórios sonhos
a devastação de suas memórias, de seu parco patrimônio
Talvez esperasse reunir forças e, ao menos, sentir agonia
rogar o amparo do Criador e não sucumbir na zona abissal
revoltar-se contra aquele fenômeno, um insólito pesadelo
chorar, enraivecer-se, gritar, lutar, sair da letargia
Para onde levara o Mundaú sua esposa, seu filho, seu cão?
para onde levara seu pequeno baú de quinquilharia?
arrebatara-lhe, sim, seus projetos, sua identidade
deixara-lhe um corpo desalmado, um cérebro obnubilado
Antes habitava uma singela casinha à margem do rio
e agora é um resumo do ar que entra e sai dos pulmões
sua sina será peregrinar sem rumo, sofrer o arrepio do frio
e esmolar um taco de pão para acalmar o estômago vazio
Poesia inspirada numa vÃtima real das enchentes ocorridas em Alagoas. O homem retratado foi fotogrado quando estava sentado em escombros da Cidade de União dos Palmares/AL, contemplando o nada.
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