Homo Solitarius

anacris 2010
1
Ana Cris · São Paulo, SP
10/3/2010 · 3 · 0
 

[ Máscaras ]

Um dia desfaleceu e quando retomou a consciência olhou para mim e disse:
- Não te amo mais.
- Eu sei. Mentira, não sabia, mas não quis que ele me pegasse desprevenida.
- Acabou porque descobri que não posso te fazer feliz.
Do que estava falando? Pensei em tudo o que ele poderia me dizer enquanto a toalha caía inútil no chão. Esperou que eu a pegasse. Agachei abatida com a idéia de desmerecer amor e só levantei a cabeça quando tive certeza que a lágrima não escorreria.
- Você sabe que toda vez que vejo seus olhos marejando quando fala dela e como fica corada quando ela aparece...Você costumava corar por mim, lembra? Eu quase morro, toda vez, quase te mato também. Tem que parar, isso, você tem que parar...com
- Luca, do que você tá falando?
- Eu, eu...eu sei, você é...
- Sou?Sua mulher? Sorri engolindo as lágrimas para amenizar o rumo da prosa.
- Não! Você sabe. Você tá apaixonada por ela, você é...Você é gay.
Sabia!
- Que importância tem isso agora? Também não acreditei quando disse. Horrível. Saiu tão cinicamente que senti meu rosto se desfigurando, inventando expressão nova para sustentar a máscara.
- Deus! Toda importância. Juramos não ser como casais impostados em papéis sociais. Lembra da promessa? Nenhum valor burguês neste lar, demagogia, hipocrisia e aparências. Fizemos aquele antipacto nupcial e nosso compromisso sempre foi satisfazer a carne enquanto inventávamos uma alma. Sabe, me dei conta agora que talvez nossa alma nunca tenha ficado pronta.
Pronta? Ele poderia ter formulado melhor nosso fim.
- E você descobriu hoje pela manhã que não me ama mais? E você desmaiou, você desmaiou...Você tá bem? Tem um corte na sua testa, vi quando bateu na mesa. Deixa eu olhar...
- PARA! Olha para mim. Eu estou cansado, você não está cansada de tudo isso?
Acabamos assim.


[ Casamento ]
Daquele momento para trás nenhuma lembrança ficou no lugar. Fiz um exercício maluco de reentender as coisas. Absurdo! Parecia aqueles críticos escrutinadores inventando teorias extremamente sofisticadas para cada traço de artista que, provavelmente, tenha morrido louco, pobre ou maldito.
É engraçado pensar na minha vida como filmes que nunca aluguei ou peças de teatro que perdi ou exposições que deixei passar. Ou quando a gente sai de casa atrasado e lembra no meio do caminho que esqueceu alguma coisa, mas não se anima em voltar.
Tenho 33 anos, um ex-marido, nenhum filho e uma certeza. Não importa o que aconteça, daqui por diante vou deixar meus sentimentos fluírem com ouvidos tampados, sem neuroses ou corticóides. Luca só tinha razão em uma coisa, ela me encantava, sim. Gostava quando ela me esperava na frente do cinema olhando cartazes dos filmes que escolhemos não ver, talvez para não se arrepender antes de entrarmos na sessão. Sempre sorria ao me avistar e olhava para o chão para não sustentar o sorriso para qualquer um, aquele era só para mim. Como ele pôde dizer tão rápido que não me amava mais na quarta pela manhã, depois de tomar café? Ele estava lendo jornal? Não, caiu no chão de mãos vazias, quase levou a quina da mesa consigo. Tão estranho aquele dia.
Nosso casamento era normal, mas um bom normal, não um normal não-aguento-mais, era mais um normal sem-grandes-surpresas. Sem-surpresa é bom. O que há de tão espetacular em não se saber como vai ser o dia? Prefiro saber onde estou, prefiro atravessar a rua na faixa com o sinal aberto para mim, prefiro minhas roupas escolhidas na noite anterior, prefiro ter sempre um de sobra a deixar qualquer coisa acabar. Não é normal isso?
Louca, pobre e maldita, assim me via depois da separação. Há este lugar exposto e eu no meio de um mundo novo, no topo de uma montanha criando coragem para descer. Não é que eu tenha necessidade de afirmação ou autorização, nem mesmo validação. Não me sinto escolhendo um lado, diante de todas as possibilidades da vida não vou criar restrições. Os outros existem para isso. Só tenho medo de não ter com quem falar, sem enigmas. Medo de nunca mais andar de mãos dadas, sem preconceitos. Medo das perguntas evitadas.
Meu casamento. Luca empacotou nossa vida tão depressa que parecia ansiar por isso há tempos. Houve outros momentos em que nós nos interessamos por outras pessoas. Trocamos olhares, aquele flerte inerte que não daria em nada, mas fazia bem para o ego. Calávamos sobre esses momentos porque sabíamos serem passageiros. Pequenas concessões diante da honra de termos um ao outro. A construção da nossa relação foi uma jornada incrível e prazerosa, eu achava.
- Tudo o que sinto por você não te basta. Somos dois grandes amigos que chegaram naquele ponto de pequenos sacrifícios em nome de uma causa maior. Sabe qual é nossa causa maior? Entretenimento. Fizemos companhia um para o outro porque conversar com você é esse pulo no abismo. Você tira a gente do chão. Nesse tempo todo eu acho que permaneci envolto em sua simpatia. Agora eu acredito que você não me buscou, você evitou outra vida...
Essas coisas que ele me disse são as que menos compreendo, “tudo que sinto por você não te basta”, “você não me buscou”, “evitou”. Não entendo as pessoas que esmiúçam tanto a personalidade alheia a ponto de sentirem que sabem mais sobre o outro do que o próprio. Sempre achei esse comportamento pretensioso, um embuste. Não sabia que tinha casado com um impostor. Evitei? Como ele pôde achar que não o tinha escolhido, que não me bastava. Ele não era fraco, não teria me apaixonado por um homem sem personalidade, inseguro. Talvez o tenha posto de lado sem intenção. Por outro lado, ninguém abandona ninguém sem motivo, devo ter perdido alguns pontos. Éramos um quebra-cabeça que supostamente estava montado, porém, olhando de perto, algumas peças eram de outros quebra-cabeças. No quadro geral a figura agradava aos olhos, na ampliação não fazíamos sentido. Achei! Essa foi a melhor definição do meu casamento, até agora...


[ Homo solitarius ]
Não vi mais o Luca, também nunca tive coragem de ligar para ela. Não sabia ser nada além de uma amiga. Não queria ser nada além. Ele conseguiu fazer essa bagunça nos meus sentimentos, na minha cabeça. Puxou o gatilho da minha homossexualidade, mas sei que ele errou o alvo. Sentia um encantamento despretensioso por ela, não era a única. Todos se enlevam quando figuras de presença felina rompem os lugares onde pisam. Conheço tanta gente assim, não sou tão promiscuamente romântica a ponto de me apaixonar por todos que me encantam. Gosto do encantamento desses encontros frugais. Não vejo crime nisso, além do mais, não engorda!
Desconfiei que ele tivesse outra, deveria ter perguntado na hora. Que coisa...Vou ressignificar meu casamento e ele vai ficar, muito reles, como meu espectador. Eu propus, ele aceitou. Do mesmo jeito que aceitamos fazer a lição de casa, dobrar os cobertores, deixar o chinelo embaixo da cama, os óculos no criado-mudo, a vida na varanda. Não me ama mais. Pois se ele tivesse me perguntado diria que ainda o amava, amo, com tanta sinceridade quanto há na sorte confúcia de biscoito: “Isto também passará”.
Ontem acordei com um nó na garganta, afora câncer, acho que fiquei com coisas por dizer, só não sei se não disse porque não me achei confiante para tal ou porque esperava que ele me perguntasse mais e aceitasse menos. No frigir dos ovos eu saio com esse novo estado civil: minha homossolteirice.
Devo ser o primeiro caso de pessoa puxada para fora do armário que resolve migrar para debaixo da cama. É uma mitigação perplexa da dor, nada melhorou, nem sutilmente. Você não vai sair da cama? Ninguém me dirá isso. A cama é neutra. Eu tenho que contar para as pessoas? Talvez um jantar para seis amigos por vez, ou de uma vez, não sei se tenho que contar para mais que seis. Nem sei se tenho que contar. A família vai ser a última a saber, fica resolvido assim. Pior que vão achar que é piada e perguntar onde está a mulher que virou minha cabeça. Típico! Somos héteros por default.
Apesar da minha inocência presumida eu já havia me sentenciado: "culpada!".

[anacris – 08/03/2010]

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Ana Cristina de Souza
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