100 anos depois e o mundo continua dividido entre o ideal e o real
Completa-se em 2011 cem anos que o escritor fluminense Lima Barreto trouxe a lume, por meio de folhetins, o livro Triste Fim de Policarpo Quaresma. Através desta obra de indispensável leitura Lima Barreto objetivou causar impacto e grande abrimento de boca. Foi pra verdadeiramente tornar as pessoas de sua época boquiabertas perante a verdade que ninguém queria ver! Com uma irônica e bem afiada espada-palavra ele foi cortando as carnes sociais do seu tempo. Deliciando-se naquelas bonitas aparências. Gozando a bela e regrada vida das nobres famÃlias do Rio de Janeiro nos primeiros dias republicanos... Exaltando a sinceridade dos patriotas brasileiros, que apenas tinham por objetivo fazer alçar o Brasil ao pódio das grandes potências... Relembrando que nas Terras de Santa Cruz tudo que for plantado há de crescer... Louvando nossos guerreiros, nossos heróis que tão valorosamente entregaram a vida pela república brasileira... Mostrando com perfeição o nosso repúdio à intromissão estrangeira, pois, afinal, somente tÃnhamos algumas dezenas de nomes vindo do Francês e do Inglês... Louvando nossas várias faces, nossos Brasis que tão corretamente sabem lidar com etnias diversas... Homenageando à quelas corretÃssimas estruturas... As perfeitas e imaculadas estruturas sociais... Ali até se mostrou a beleza do casamento de outrora e tão assustadoramente atual: aquela em que as pessoas se casam porque muito se amam e que para tanto amar tão unicamente precisam dar suaves e discretas amostras exteriores, pois, de novo afinal, que vale o interior?! O mundo é feito de exterioridades...
E no meio de toda essa perfeita sociedade republicana Lima Barreto descreve a imagem dum miserável qualquer que pensou poder transpor e destruir as pérolas excelentes da vida nobre: Policarpo Quaresma. Quem ele era!? Um louco! Um desmiolado! Uma malfeita encarnação de um Ãndio pré-cabraliano!!!
Mas doido ou não, Quaresma foi insistindo nas suas excentricidades. Talvez ele esperasse adquirir aquela “candura e a pureza d’alma que vão habitar esses homens de uma ideia fixaâ€1... Ou talvez ele fosse doido e nada mais...
Todavia é uma pena que o mundo possua mais normais do que idealizadores! E é em consequencia a esta constatação que outra aparece: a constatação de que sempre as minorias padecerão da pressão que inevitavelmente a maioria em algum momento fará. Ora sutilmente, ora descaradamente. DifÃcil dizer qual a pior forma de pressão. Se pior é a que se faz com torcidas e retorcidas de boca, levantamentos e abaixamentos de cenho, piscadelas e olhares maliciosos, disparates e trocadilhos quase imperceptÃveis; ou se pior é a pressão que se faz desbragadamente, desmedidamente, esdruxulamente, semvergonhadamente!!!
O Major Quaresma sentiu queimar na pele a segunda forma de desprezo. E o major mesmo bem conhecia aquilo pelo qual passava:
"─; O major, hoje, parece que tem uma ideia, um pensamento forte.
─; Tenho, filho, não de hoje, mas de há muito tempo.
─; É bom pensar, sonhar consola.
─; Consola; talvez; mas faz-nos também diferentes dos outros, cava abismos entre os homens"...2
E qual o fim do pobre coitado Quaresma? Qual o fim encontrado por este doido, desesperado e desconjuntado socialmente? A resposta resta cada um descobrir lendo o livro. Não é uma leitura cansativa, como pode alguém dizer. O interesse certamente está contido no livro, mas é imprescindÃvel para ler Triste Fim de Policarpo Quaresma ─; assim como para a leitura de outros clássicos brasileiros ─;, que a pessoa deseje e alimente alguma expectativa. Eis uma boa expectativa: você estará lendo um livro de 100 anos atrás! Isso significa voltar ao tempo. Voltar ao nosso próprio tempo brasileiro e não à quele tempo europeu! Apesar de que sempre nossos tempos foram extrangeirizados! Se isto não for suficiente para fazer uma leitura prazerosa, então se busca outras ideias... O mundo está cheio delas.
“Errava quem quisesse encontrar nele qualquer regionalismo; Quaresma era antes de tudo brasileiro. Não tinha predileção por esta ou aquela parte de seu paÃs, tanto assim que aquilo que o fazia vibrar de paixão não eram só os pampas do Sul com o seu gado, não era o café de São Paulo, não eram o ouro e os diamantes de Minas, não era a beleza da Guanabara, não era a altura de Paulo Afonso, não era o estro de Gonçalves Dias ou o Ãmpeto de Andrade Neves ─; era tudo isso junto, fundido, reunido, sob a bandeira estrelada do Cruzeiro.â€3
1. BARRETO, Lima. Triste Fim de Policarpo Quaresma. São Paulo: Editora Ãtica. 1997 – Pág. 54
2. Idem – Pág. 61
3. Idem – Pág 22
Belo texto,bela homenagem ao genial Lima Barreto.Não vi em outro veÃculo alguém menionar essa temática...
inocencio · Sobral, CE 21/4/2011 22:05Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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