A Caverna ou Num instante, a eternidade!

Divulgação
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Ivana Bentes · Rio de Janeiro, RJ
24/2/2013 · 24 · 0
 

Entre as pinturas e desenhos de cavalos, bisões, rinocerontes, animais de grande porte, todos de uma beleza e técnica impressionante, vemos uma pedra com a marca de uma mão humana, deliberadamente impressa na rocha. Um gesto, traço, murmúrio anônimo, de 30 mil anos atrás!

Impossível ver o filme “A Caverna dos Sonhos Esquecidos”, documentário em 3D de Werner Herzog, sobre essa “cápsula de espaço e tempo” que é a Caverna de Chauvet, na França, sem disparar todas as especulações, mitologias e fabulações sobre o passado, o tempo e o “intervalo” em que aqui estamos.

Veja o trailer!

As cavernas e grutas são deslumbrantes e assustadoras, com o brilho cintilante do calcário, estalactites e estalagmites formando arabescos, cortinas, peças incríveis gotejadas por centenas de anos num tempo absurdamente lento e mesmo incompreensível para nós.

O filme explora essa impossibilidade de acessar o passado. O que era estar vivo há 30 mil anos? Quem eram os homens que exploraram e imprimiram, desenharam, pintaram cuidadosamente aquelas imagens. Que funções teriam? Rituais, estéticas, registros? E há uma fabulação delirante na arqueologia que é também seu encanto e que Herzog capta nas falas over interpretativas ou demonstrativas dos cientistas. Como encher esse desconhecimento de sentido?

Animais pintados com oito pernas e patas como se simulassem a impressão de movimento. Uma pintura e desenhos que são um protocinema como nas séries de cronofotografias de Muybridge? A cabeça de um cavalo repetida, as imagens tornadas moventes e dinâmicas graças as sombras de uma fogueira há milhares de tempos atrás. A câmera do filme, a iluminação tentam simular e provar essas especulações ao longo do documentário. Uma ossada de urso numa pedra e logo alguém afirma: um “altar”!

Um dos arqueólogos fala de um mundo não do “saber”, do homo sapiens, mas do homo spiritualis, um mundo da reversibilidade e da interpenetrabilidade entre homens e animais, mundo material e espiritual, como nas mitologias ameríndias podíamos completar, em que todos, inclusive os animais, são humanos no seu departamento. A imagem de um corpo de mulher imbricado com o de um touro, num dos desenhos mais surpreendentes da Caverna, aponta para essa relação outra, homem-animal.

Toda essa especulação histórica e cosmovisão nos entretém (como nos filmes do History Channel que consagraram o delírio histórico mais ou menos crível como gênero), mas todas essas informações são o menos interessante dessa aventura cine paleontológica em 3D pela Caverna de Chauvet.

A história, as datas, o que faziam, como viviam, tudo isso é pequeno demais diante de um só gesto de “representar”, invocar, apresentar esses animais em movimento, luta, galope, ou hibridados a um corpo humano, nas pedras-telas, e pelos nichos formados ao longo da gruta.

Tudo parece irrelevante diante dessa mão (com o dedo mindinho torto, o que possibilitou identificar uma “autoria” em alguns desenhos) espalmada e impressa na eternidade da pedra.

Quando a câmera passa lentamente apresentando cada um desses desenhos/pinturas e quase tocamos a pedra com a mão e com os olhos a caverna dos sonhos se ilumina. E não há como não delirar sobre o fato de termos essas imagens “proibidas” (não haverá abertura da Caverna para turismo, tudo lá é controlado e raro) ao alcance da mão, imersos na caverna e diante das imagens em 3D desse que foi um primeiro cinema (ou proto cinema).

O mais tocante é ver o passado incomensurável de 30 mil anos atrás se tornar sensível. Eis um dos momentos, não há nada para descobrir ou para entender, de pura sensorialidade e de afecção diante dessas imagens que nos olham.

Em 2012 tive uma dessas experiências marcantes na Gruta da Torrinha, em Lençóis-BA, quando o guia apagou a lanterna e se fez silêncio total (há uma cena assim no filme). Num instante, a eternidade! Uma sensação indescritível, silêncio e escuridão total tomando todo o lugar. Um outro espaço-tempo que se instala. Experiência do vazio, da morte e do nada em brevíssimo minuto levemente apavorante, onde percebemos o micro intervalo de vida que temos, imersos numa eternidade que nos precedeu e que espera por nós.

Um minuto e o mundo inteiro desaparece nesse “âmbar” que ali se cristalizou!

O Cinema sempre esteve estreitamente ligado ao imaginário das cavernas e das sombras, do “cinema de Platão” e sua Alegoria da Caverna em que os prisioneiros acorrentados tomam as sombras produzidas pelo fogo como a própria realidade até as “caves de realidade virtual”, espaços de imersão nas imagens.

Em a “Caverna dos Sonhos esquecidos” essa relação e proximidade está por todo o filme que busca estar a altura de um grande acontecimento: a entrada, excepcionalmente autorizada, de Herzog e sua equipe na Caverna de Chauvet, com arqueólogos e paleontólogos, para registrar “pela primeira vez e talvez a última” esses desenhos e pinturas de 30 mil anos atrás.

A ideia de uma cápsula de espaço e tempo, preservada por uma obstrução da entrada original da Caverna, como uma jóia ou âmbar em que a equipe do filme e dos pesquisadores penetra é fascinante.

A musica e os depoimentos contribuem para a solenidade da ocasião. E ai entramos também em todo a fabulação de um passado inacessível, o passado que passou irremediavelmente e do qual ficaram apenas frágeis restos, ossos, vestígios, marcas, traços, gestos.

Todo o contrário do mundo over mapeado, com capas de informações, registros, representações, rastreamentos on line em que vivemos.

Herzog termina o filme visitando uma outra caverna, uma experiência de criação de um ambiente tropical artificial, uma estufa com floresta, fontes e “rios” tropicais, habitadas por jacarés albinos no meio do rigoroso inverno natural e mantida pela energia de uma usina nuclear.

Uma bolha tropical, vida artificial, no meio da neve. E faz uma pergunta um tanto surreal: O que aconteceria se essa espécie de jacarés desprovidos de encanto e cor chegasse na “Caverna dos Sonhos” e se visse diante das pinturas rupestres. Mundos incompossíveis?

A espécie humana, vivendo num ambiente “artificial” está em mutação e o nosso nível de “conhecimento” e incompreensão de tudo aquilo pode ser tão distante quanto a visão dos jacarés albinos.

Só nos resta delirar, fabular e construir mundos, de 30 milhões de anos atrás, esse aqui em que estamos, e os que virão depois de nós. (IB)

FILME: CAVERNA DOS SONHOS ESQUECIDOS
Título original: Cave of Forgotten Dreams. Direção: Werner Herzog. Gênero: Documentário (França-EUA-Reino Unido, Alemanha, 2010, 90 min. )

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