A Embolada por JPVeiga

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jpveiga · Rio de Janeiro, RJ
9/3/2006 · 0 · 1
 

A EMBOLADA


Moleque recém saído dos cueiros, um dia, Manézinho engrossou a voz.

E que voz ele arrumou!

Em pequeno sua mãe o carregava pra cá e pra lá, nas festas, batizados e afins, pra garantir um trocadinho. A voz de anjo embalava belas cantigas, fazia o povo sonhar, encantando as festas do lugar. Mas foi só a voz engrossar que Manézinho caiu no mundo e foi buscar seu lugar no sol. E tome chuva. E tome voz grossa.

A cidade era perto de Tabuí, onde o cumpadre Orico morava, seus causos, conhecidos em todas as vizinhanças, foram convidados pro casório. Manézinho chegou, bateu as palmas no portão e foi logo contando as novidades pro padrinho:

Também tinha sido chamado pro casamento do Coroné Helio Freire, que ia ter festança comemorando a união. O cego Dió ia declamar seus sonetos na beira da fogueira e seria a melhor ocasião pra Manézinho inaugurar sua nova fase de cantoria: a embolada.

Foi a noitinha chegar e uma fila parecendo uma cobra se desenroscava pras bandas da fazenda. Lá pro final da fila vinha a bela professora Dona Sterzinha, puxando seus filhos gêmeos Pedrim e Alvim que não paravam de falar. Ô mininada encapetada! Manézinho tocou a conversar com a professora e explicou que agora não cantava mais as musiquinhas de igreja, agora era um versejador de emboladas e iria fazer sua estréia na festança.

O terreiro todo enfeitado mostrava como a coisa ia ser grande, fogueira, espetos de grande churrasco e o cego Dió (que enxergava mais que metade do povo) puxando seus versos; ia começando a grande reunião.

Manézinho, empurrado pelo colega de cantoria e versos nhô Filipi di Paula, subiu num banco e, bem antes do casamento começar, tascou sua embolada:

Ôi, o peixe que eu pesquei lá numa pescaria
Botei no galinheiro ele se acostumou
E tão habituado que milho comia
Até junto do galo que não estranhou

Até pelo costume tinha liberdade
E muita vez na mão foi que se alimentou
Mas um dia que mal digo tive piedade
De ter tirado o peixe donde se criou

Levei-o para praia e fui botar no mar
Mas ele ao que parece disso não gostou
Pois tendo se esquecido de saber nadar
Coitadinho do peixe n'água se afogou!

Que sucesso! Que vozeirão! O povão aplaudia, Manézinho envergonhado gaguejava, a cozinheira gritava, o dono do boteco da cidade, Seu Josué, falava que ia contratar o cantador pras noites de seu pé sujo. O noivo e a noiva ficaram pra trás, a coisa agora era ouvir o novo cantador com sua verve e sua nova voz.

E que voz!

De manhãzinha, cinzas ainda quentes, lá no horizonte, deu pra reparar o tal de Manézinho saindo enrabichado com uma dona, todo feliz, arrastando sua nova conquista.

Foi só até a nova festa que o povo fez fofoca. De casa montada e tudo, Manézinho agora vivia carregando pra cima e pra baixo sua senhôra. Que se mais velha em idade, era mais nova nos folguedos do amor. Manézinho exibia umas olheiras de causar inveja.

A festa, aniversário da professora Sterzinha, prometia ser das boas. Os gêmeos, diferentes de rosto e iguais no vestir, vinham de coletinho e goma no cabelo. Não durou muito, para o desespero do fotógrafo Seu Barros, que tentava eternizar o momento. Logo, logo estavam todos sujos e fazendo a maior bagunça. Só pararam quando o Seu Zé Bráz, com um sotaque carregado de vinho, avisou que o cantador tinha chegado, e sozinho. Rapidinho, arrumaram um caixote pra servir de palco e todos se calaram esperando a embolada e a voz de veludo.

Oi, eu conheci um homem que era distraído
Fazia dessa vida uma atrapalhação
Andava pelo mundo tão absorvido
Que a nada de interesse prestava atenção

E contam mesmo dele um caso engraçado
Que eu não duvido mesmo que seja invenção
Dizem que chegou em casa muito preocupado
Com um grande charuto que trazia na mão

Entrando no seu quarto todo prazenteiro
Fez naquele momento uma tal confusão
Que deitando o charuto no seu travesseiro
Jogou-se no cinzeiro só por distração!

Novo sucesso, palmas, discursos, a platéia gargalhava, revirava os oinhos; a embolada e a voz de locutor, foram novamente o ponto alto da festa. Festa essa que contada em causo e verso pelo S'Ôrico, iria se transformar no maior
acontecimento dos últimos tempos - ô homi danado de mentiroso!

O cego Dió (que visão!) fez até um sonetinho engrandecendo o cantador:

Deus quando forma a humana criatura
põe na fornalha um tempo pra cozer
se sentir por alguns maior ternura
mais tempo na fornalha os vai reter

Mas a coisa não foi só assim, descobriram depois, que o cantador e sua voz tinham arrumado outra admiradora, e ele, tal qual da primeira vez, tinha saído agarradinho! Foi um Deus nos acuda! Até a Diretora do Ateneu, que de fofoqueira não tinha nada, falava no assunto! Corria à boca pequena que Manézinho chegou em casa arrastando a nova dona e foi logo dizendo pra outra com voz de rádio FM: ela fica também!

Que escândalo! Bigamia na cidade! Duas!

Se com uma a coisa já era difícil, que dirá com duas! Bofé!

As olheiras do coitado causavam mais e mais inveja nos homens. O danado desfilava de braço dado com as duas, distribuindo sorrisos e dando uma palinha da sua bela voz.

Pois foi a fama que o tal cantador conquistou que fez com que a festa da cidade, que já já ia acontecer, fosse cada vez mais esperada. Contam que só lá de Tabúi vieram 3 caminhões! A cidade estava toda engalanada, o Prefeito Waldir do Vau, prometeu dar a chave da cidade; todinha pintada de dourado ao mais novo felómeno da região - Manézinho Rei da Voz, o embolador de corações!

No dia, chuva fininha no horizonte, palanque pintado de branco escorrido com microfone da rádio montado, o Seu Barros ajeitava o tripé de sua caixa preta, preparando a fota do ano. O pessoal foi chegando, um e outro discurso falado e o povão já inquieto murmurava algo sobre o cantador.

Manézinho se chegou todo enfatiado e sozinho de novo. Um zumzum correu pela praça. Sozinho! Logo ele que tinha duas!

E tome embolada.

Apresentado (e precisava?) como o filho pródigo da região, Manézinho atacou:

Oi, lá vinha pelo rio uma pedra boiando
Em riba dessa pedra 3 navegador
Um deles era cego nada enxergando
Outro não tinha braço pois o trem cortou

Mas deles o sem vergonha era o terceiro
Pois estava nuzinho como Deus criou
E eis que adiante o cego num berreiro
Olhando para o fundo um tostão gritou

Então ouvindo aquilo o tal que era aleijado
Passando a mão no fundo o níquel apanhou
E o tal que estava nu tendo o tostão tomado
Mais do que ligeirinho no bolso guardou!

Novamente foi uma loucura, aplausos, a chave da cidade trocando de mãos, apupos, assovios, discursos e lá pro final, sem que ninguém percebesse, Manézinho saiu com outra.

Manhã seguinte, charrete na porta, Manézinho se mudava com suas, agora 3 mulheres, para uma fazenda lá pros cafundós. O sorriso das senhôras dava um toque melancólico.

Manézinho, em suas palavras: deixava a vida pública para entrar na privada!

Iria viver de amor, plantar e colher filhos e filhas. Uma multidão de umas 20 pessoas se aglomerou ao redor dos retirantes.

Um coro se formou: Canta! Canta!

Manézinho, em pé na caçamba da charrete, como um político atendendo seus eleitores, soltou sua maviosa voz:

Oi, um homem que comprou um burro numa feira
E quando para casa ela ia levar
Foi que ele arreparou olhando a dianteira
Que fartava dois dentes no maquiçilarrrrrr

E o r foi prolongado e prolongado e foi sumindo e foi ficando fino e fino até que a velha vozinha de menino tomou seu lugar.

Voltou para fazer sua reclamação
Ao homem de quem acabou de comprar
E este respondeu cheio de conviquição
Depois de ter ouvido o comprador falarrrr

E a voz fininha foi ficando sumidinha, sumidinha.

Lá do alto da charrete, uma das mulheres, perguntou a hora e foi saindo devagarinho, carregando sua maleta de papelão.

As duas restantes se olharam, se mediram, lançaram um olhar de esguela pro cantador que se esgoelava tentando fazer sua voz voltar, deram-se as mãos e uma delas chicoteou o cavalinho.

A charrete andou e jogou lá do alto o Manézinho, que caiu de cara numa poça de lama. Uma das partes da dentadura voou longe, a roupa nova toda manchada parecia camuflagem de exército. Manézinho se levantou e começou a correr atrás das mulheres, e gritava e gritava e só saía um fiapinho de voz.

O povo sem entender o que ele falava corria atrás.

Um cachorro latia, o cego Dió sacudia a cabeça perguntando o que acontecia prele fazer um soneto, os gêmeos Pedrim e Alvim jogavam pedras nas poças d'água molhando todo mundo e o coitado do Mané corria e caía e corria.

Quando percebeu que não ia conseguir, Mané caiu. Sentado no chão meteu a cara entre as pernas e chorou.

O povo se chegou perto e em silêncio ficou.

Um minuto, dois, três, cinco.

Só se ouvia o choro descontrolado do Manézinho.

Foi quando uma das pessoas arriscou:

Seu Manézinho, será que dá pro sinhô cantá o restinho da embolada?

Ora que despautério, não estava então vendo a situação?

Mas que coisa!

Ora Seu Mané, squece essas sirigaitas, cantaí o restinho, farta tão pouco pro finar! Falou uma das mulheres da roda.

E parece que a coisa pegou, logo estavam todos ajudando o coitado e pedindo, implorando, exigindo o final, vamos, cante, cante mesmo com essa vozinha de bosta, cante!

Como que recobrando sua postura, Manézinho se ajeitou, limpou uns pigarros inexistentes, e sem cantar declamou.

Oi, e disse com toda força que a razão lhe dava
Ô meu caro senhor queira me descurpar
Quando vendi o burro não adivinhava
Que o senhor queria para assoviar

Fraquinha essa não? Falou alguém lá do meio do povão.

Ruinzinha mermo! Respondeu outro.

E assim, reclamando foram saindo, deixando o pobre Mané, lá, em pé, todo sujo, sem suas mulheres, sem sua bagagem, sem sua voz.

Agora, que a história tá contada, aparece sempre alguém acrescentando algo, é a coisa do quem conta um ponto...

Pois bem, andam dizendo por aí, que o cego Dió viu o Manézinho lá pelas bandas da Cascatinha, vestido de coroinha e cantando um Te Deum fraquinho, com uma voz de menina moça chatinha e acabando sempre com um soluço de cortar o coração.

Sei não!


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Vivian Caccuri
 

Oi.
Esse espaço de publicação é reservado para reportagens e atualidades, não textos literários.
Minha sugestão é que mude esse texto da fila de edição do overblog e coloque-o no banco de cultura.

Vivian Caccuri · São Paulo, SP 8/3/2006 16:22
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