A era das antologias

Divulgação
Seria possível arbitrar quem são os melhores autores nacionais da atualidade?
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Delfin · São Paulo, SP
5/7/2012 · 10 · 1
 

O ímpeto geracional da literatura dos anos 2000 tomou conta das editoras, a um ano do Brasil ser o país homenageado na Feira do Livro de Frankfurt, a mais relevante do mundo para o mercado editorial. Não necessariamente por causa do evento, mas, talvez, pela imensa projeção que o país vem tendo no cenário internacional. Ao que parece, o País está se tornando a bola da vez também no campo das letras. E, neste jogo, editoras e autores se depararam com o fato inegável de que a literatura brasileira, com exceções muito pontuais, nunca teve destaque meritório no gosto dos países que não falam português. Por isso mesmo, foi redescoberta uma arma antiga e funcional para apresentar uma multiversidade de autores a esse próspero e letrado público de uma só vez: a antologia.

Apenas no último mês, o Brasil teve anunciadas três importantes antologias voltadas para fora do Brasil. A mais comentada delas é a da revista inglesa Granta, que selecionou vinte autores como sendo a nata da produção ficcional brasileira e, com esse posicionamento, exportará o talento desses escritores para os todos os países em que há edições da revista, como Estados Unidos, Inglaterra, Itália, entre outros. Mas também haverá a coletânea da editora alemã Lettrétage, que selecionou 27 autores nacionais para representar o Brasil, também como sendo uma amostra representativa da produção das letras brasileiras, na Feira de Frankfurt em 2013. E ainda há uma terceira seleta, ainda sem nome, que será igualmente divulgada na feira alemã, com um terceiro extrato de escritores do País.

O que diferencia todas elas é justamente o critério de seleção. Geralmente eles são pessoais, como no caso das duas seleções que estão sendo produzidas para Frankfurt. O material da Lettrétage foi organizado, por exemplo, por Marlen Eckl, e teve como critério principal buscar escritores brasileiros já publicados, conhecidos no Brasil, mas que ainda não tivessem nenhuma obra vertida para o alemão. Isso eliminou alguns bons nomes da seleção final e abriu espaço para que os nomes fossem mais variados do que o esperado pelos críticos literários.

Já a antologia da Granta passou por um processo de seleção que foi muito questionado nos bastidores. Não porque houvesse dúvidas quanto à comissão selecionadora, mas, sim, porque havia dúvidas sobre a leitura da totalidade dos 247 textos inscritos para concorrer a uma das cobiçadas vagas. Os nomes foram revelados no dia 5 de julho numa entrevista coletiva de imprensa que contou com a presença de jornalistas dos mais importantes veículos de imprensa nacionais e alguns estrangeiros.

A seleção da revista inglesa, ainda que seja uma seleção de respeito e digna de representar as letras nacionais, acaba caindo em descrédito a partir do momento que um dos jurados, justamente o editor da Alfaguara (publicadora da Granta no Brasil), Marcelo Ferroni, admite nessa coletiva que apenas cerca de 80 textos foram realmente lidos pelos jurados. Isso equivale a aproximadamente 30% dos textos enviados, que antes foram submetidos a uma pré-seleção, executada por pessoas que não faziam parte do processo de seleção divulgado no regulamento do concurso. Isso torna a seleção da Granta, que deveria ter ares de justa e imparcial, também uma seleção com ares de pessoalidade, ainda mais quando os critérios dessa pré-seleção não foram explicitados de modo convincente.

As antologias, no entanto, não são exclusividade das editoras que querem mostrar para o mundo o que o Brasil literário tem. Há também publicações deste tipo voltadas para o público nacional, já que, por aqui mesmo, a maioria dos novos autores é ilustremente desconhecida do grande público.

Uma escolha de autores relevante foi publicada no ano passado: Geração Zero Zero, organizada pelo também escritor Nelson de Oliveira. Esta antologia busca mapear escritores relevantes surgidos neste século, sem nenhum recorte quanto ao estilo ou escola estilística, mas sim em relação à relevância literária dos autores. Novamente, a pessoalidade se faz presente, mas amparada pelo trabalho anterior do organizador, que já havia feito o mesmo trabalho nos anos 1990, em dois livros que apresentaram ao mercado nacional dezenas de escritores que, hoje, figuram entre os nomes relevantes do mercado nacional.

Mercado? Mas em relação ao público leitor? E os novos nomes que a crítica e as antologias julgam irrelevantes, mas que são aceitos pelos leitores e estão entre os mais vendidos do Brasil? Felipe Pena, mestre em literatura brasileira, também com esse questionamento em mente, decidiu ele mesmo organizar sua própria coletânea de vinte nomes ignorados por críticos, mas de grande aceitação entre os leitores. Ela se chama Geração Subzero, numa clara alusão à coletânea de Nelson de Oliveira, e busca dar visibilidade e relevo crítico a esses autores que, como consta na capa do livro, estão congelados pela crítica literária brasileira.

Como se vê, as peças estão sendo movimentadas para que o Brasil e o mundo conheçam melhor os autores brasileiros da atualidade. O importante é perceber que, agora, os próximos anos serão fundamentais para todos esses escritores selecionados, de uma forma ou de outra, para mostrar as qualidades literárias que o País possui. Se forem bem sucedidos, será uma longa e impressionante viagem, que apenas foi vislumbrada por nomes como Paulo Coelho, José Mauro de Vasconcelos e Jorge Amado. Porém, se não forem, talvez seja o início de um tempo de profunda reflexão para as letras brasileiras, que muitas vezes se perde em egos e lutas editoriais fúteis em detrimento do que seria o mais importante: o fortalecimento da cultura literária brasileira.

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Cezar Ubaldo
 

Excelente texto,Delfin.Gostaria de citar a escritora e editora Miriam Salles,da Bahia,que participará com uma Seleta,da FLIP e da Feira Literária de Frankfurt.
Concordo plenamente quandoafirma que o mais importante é o fortalecimento da cultura literária brasileira,deixando de lado o ego editorial.
Creio,ainbda,que precisamos de mais Feiras Literárias e Festivais Literários pelo pais inteiro,difundindo os novos nomes que darão uma nova face à nossa literatura.

Cezar Ubaldo · Feira de Santana, BA 12/7/2012 03:16
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