A menor TV do mundo e o jornal que já foi considerado o mais rápido do Brasil, ficam em Minas Gerais. Quase três décadas separam o Jornal do Poste da TV Muro, mas eles possuem muito em comum.
O Jornal do Poste é lido, até hoje, nas ruas de São João del Rei. Em momentos de efervescência na cidade, a tiragem já chegou a três edições diárias, dando ao jornal o tÃtulo de o mais ligeiro do paÃs. A TV Muro, por sua vez, recebeu o apelido de "menor" pelo alcance da sua audiência remota: no total, são dez residências que recebem o sinal.
João Lobosque Neto, vulgo Joanino, figura lendária e criador do jornal, em 1958, era fiscal fazendário e proprietário do bar Bife de Ouro. A história começou a ser escrita lá mesmo: ele afixava no mural de madeira do boteco notÃcias que escutava no rádio, durante a madrugada, e as conversas que ouvia pelas esquinas da cidade. O bar fechou, mas o jornal persiste até hoje, em sua terceira geração, coordenado por Cláudio Monteiro.
A "invenção" atual de Francisco dos Santos, ou simplesmente Chiquinho, não é muito diferente. Fundador da TV Muro, em Sabará, ele nunca ouviu falar sobre inclusão digital e a internet ainda é algo distante, mas sobre o propósito da sua criação, responde prontamente: "Só queria ficar famoso. Todo mundo que é aficcionado por televisão sonha em estar do outro lado", afirma.
Professor de artes na rede municipal, ele é conhecido em toda a cidade. A sra. Eva, umas das primeiras telespectadoras e anunciantes da TV Muro, afirma que Chiquinho está sendo desperdiçado em uma cidade do interior como Sabará. "Ele é inteligente demais para ficar aqui. Ele faz tudo na TV e aprendeu sozinho", elogia. "E o marmitex dela é o melhor da cidade. Eu sempre falo para todo mundo comprar", devolve o produtor/diretor/apresentador.
Joanino era um são-joanense de comportamento insólito. Na redação do jornal, criava cobras em um cômodo anexo. Entrevistados eram surpreendidos, vez ou outra, com uma jibóia cruzando a sala. Como fiscal alfandegário era impiedoso. Comerciantes ricos e criadores de galinhas, todos sofriam com as suas apreensões.
"Uma briga num bar é mais importante do que uma revolução no Chile"
Essa era a frase que Joanino costumava utilizar como sua linha editorial. Falar, principalmente, sobre temas que envolvem a comunidade local é o objetivo principal do Jornal do Poste e da TV Muro. Com um linguajar familiar e facilmente reconhecido pelos leitores/espectadores. "Era a "linguagem de esquina" utilizada por Joanino, a qual procurava reproduzir a conversa de bar. Nas sextas-feiras, quando as pessoas da zona rural vinham fazer suas compras na cidade o texto era bem coloquial e popular, já de segunda a quinta-feira havia um maior apuro linguÃstico", explica Eliana Tolentino, pesquisadora do Jornal do Poste. Devido aos muitos erros ortográficos cometidos pela redação, em 1962, Lobosque recebeu o tÃtulo de "o único jornalista da Associação Brasileira de Imprensa que não sabia o ABC".
A TV Muro fala aos vizinhos da Rua São Francisco. "A transmissão começa quando o sol some. As crianças voltando da escola, e os adultos do trabalho: muita gente vai passando na frente do meu muro e fica assistindo", afirma Chiquinho. A programação que começou com uma única atração: o Jornal Legal - hoje é diversificada. No Domingo do Fuxico, as últimas fofocas da cidade são reveladas ao público, já o Muro Espetacular fala dos campeonatos de futebol de rua e de queimada.
Outra caracterÃstica em comum aos dois é a necessidade de deslocação do público. É ele quem deve ir ao local onde as notÃcias estão sendo exibidas. A TV Muro fica logo ali, na rua de trás da Igreja de São Francisco. Já os murais do Jornal do Poste estão espalhados por diferentes pontos: Campus da Universidade Federal, Sapataria Islã, papelaria A Colegial, Terminal TurÃstico, Rodoviária (de São João del Rei e Tiradentes) e na Drogaria São Camilo.
O que uma vez foi peculiar ao Jornal do Poste acabou se tornando uma prática do jornalismo de São João del Rei. "Nos últimos anos, os murais proliferaram intensamente, por força de interesses polÃticos ou financeiros. Alguns tiveram curta duração e a maioria sobrevive com uma periodicidade irregular", afirma Guilherme Rezende, professor da Universidade Federal de São João del Rei. A distribuição do espaço de fixação dos jornais segue a posição polÃtica do dono. Jornais de oposição não frequentam os muros próximos à prefeitura e os governistas não estampam páginas no "território" da oposição.
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