A PRESENÇA DE ALICE RUIZ,
VAMPIRA BUSCANDO SANGUE VIVO
Sérgio Augusto Silveira*
A presença e a fala da poeta curitibana Alice Ruiz, na edição mais recente do Festival Recifense de Literatura, trouxe de volta aquela antiga e mal resolvida discussão em torno do papel da poesia concreta neste paÃs. O tema não gerou – durante sua fala no auditório da Livraria Cultura, no Recife – nenhum quebra-pau, tal como aconteceu há anos, mas foi oportuno para percebermos a existência, hoje, de um vale profundo no qual Alice plantou e fez crescer uma safra nova na nossa literatura.
É a safra do hai-kai, ou seja, um salto dialético após o confronto entre as poesias sentimental, confessional, neo-romântica, e a poesia concreta. “Ela – a poesia concreta – teve um papel benéfico, embora tenha sido tão destratada. Creio que isso ocorreu porque estávamos na entre-safra do final do perÃodo getulista e o inÃcio da ditadura de 1964. naquele momento, muitos exigiam engajamento social na poesia.†– recorda Alice, que naquele momento ainda não conhecia o poeta Paulo Leminski, que veio a ser seu companheiro alguns anos depois. Em seguida, a poeta ensinou, negando que a literatura possa ser uma ferramenta para mudar o sistema polÃtico de qualquer sociedade:
“Revolução se faz com poesia para revolucionar a formaâ€.
Ou seja, não é com poesia que vamos derrubar um regime. Hoje existe muitÃssimo mais consciência sobre isso do que há 40 anos. Por falar em tempo, Alice notou que já está perto de fazer 100 anos que a forma poética japonesa, o hai-kai, chegou ao Brasil. O centenário será em 2008. Vamos comemorar, já que nos trouxe um grande aprendizado a partir de uma nova forma, concisa e nunca usando a primeira pessoa.
“O hai-kai que faço é uma prática zen (não é esse uso da palavra zen que se faz por aà para diluir o seu sentindo), como atitude de vida. O zen deu-me o estado de fazer poesia†– ensina Alice Ruiz, notando em seguida outra coisa fundamental:
“O hai-kai é o oposto da poesia ocidental. O eu não pode aparecer. No exercÃcio da ausência do eu não se fala nem de sentimentos e nem se emite opinião. Fala-se sempre sobre coisas concreta, no sentido material. Daà as referências à s estações do ano, para descrever a impermanência das coisas. Na prática do zen aprendemos que paramos de sofrer quando nosso desejo deixa de ficar nas coisasâ€.
Alice reforçou a fala seguinte, do poeta Cláudio Daniel, no momento em que ele colocou, num tom didático, que a poesia confessional, coloquial cotidiana “não nos interessaâ€. Então, o que interessa? “Interessa a poesia centrada na linguagem poética, em cima daquilo que não foi esgotado e nos surpreende. O poema que não surpreende nada, não informa nadaâ€.
O caminho para eliminar a surpresa de uma composição poética é ficar seguindo, como um cachorrinho, o trabalho dos mestres, perdendo-se no conteúdo e esquecendo de questionar a forma. Por isso, Alice, sem imitar o cachorrinho, lembrou o que disse Bashô, fundamental poeta japonês da Antigüidade: “Não siga os antigos. Procure o que eles buscavamâ€. Ao final, a poeta curitibana foi definitiva: “De certo modo, o poeta é um vampiro. Precisa de sangue quente, vivo!â€. Sejamos todos vampiros.
* jornalista no Recife
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