"A saga de Israela
Esse poderia ser o tÃtulo desse primeiro livro de Tiago Viana. Acontece que ele preferiu colocar o nome de Individuais para seu primeiro romance. Escrito entre 2002 e 2004 e relacionado no IIº Edital de Incentivo à s Artes do Ceará, o autor preferiu publicá-lo pela Editora Século, de São Paulo, o que já lhe proporcionou uma distribuição nacional em livrarias e congêneres.
O romance tem como cenário a cidade de Fortaleza e trata de uma história de amor impossÃvel. A personagem principal é Israela. Os dramas por que passa essa garota, ao longo da história, mostram que a juventude atual é vitimada pela angústia da falta de perspectivas. Parece que, para o homem urbano e solitário, só há um interlocutor, a cidade, com seus prédios, praças e monumentos. Por isso que Tiago Viana alinhou como personagens de seu livro, a Praça Portugal, o Teatro José de Alencar, a Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção, o Mercado Central, a Estátua de Iracema, a Praça dos Leões, a Ponte dos Ingleses e a Catedral.
A transfiguração que se processa nesses Ãcones da cidade faz com que cada um tenha participação ativa no enredo. Não ocorre apenas uma personificação. Esses personagens irradiam luzes incomuns. E o responsável por essa epifania é o autor, com sua magia criativa.
Jovem publicitário, Tiago Viana está em contato permanente com os dramas da juventude, com as mazelas da vida na cidade grande, e, agora, estudante de Letras, faz uma ponte entre a criatividade da Publicidade e as investidas no mundo da literariedade. Segundo Luciana Mota constatou, o narrador é a Esfera Armilar, instrumento cientÃfico utilizado no estudo da astronomia e que está esculpido na Praça Portugal. Mas os Ãcones da cidade, devidamente personificados, estão em constante diálogo com o leitor. O leitor também fala porque é instigado pelo texto para se posicionar.
Nesses momentos em que ele chama a atenção do leitor, imprime na linguagem uma função fática para que o elo de ligação autor/leitor não seja prejudicado. ´Sei que tem muita coisa que toma seu tempo, entretanto, porque continua lendo este livro? Você não está perdendo tempo? Ou será que seu tempo é quem está perdendo você?´ Como se vê, o discurso se centra diretamente no leitor, como resposta a uma ânsia do autor em não perder o elo de ligação narrador/ouvinte. É uma resposta a essa grande angústia do falante da modernidade em perder o controle daquele que é seu decodificador.
Outro portal por onde se pode ingressar no mundo de Individuais é através do alerta do seu autor em torno dos males advindos da globalização: desemprego, prostituição, fome, miséria, discriminação, preconceito, ganância, violência e drogas, tudo isso proveniente da desigualdade social que se instaura. Essas mazelas são bem conhecidas por Tiago Viana Feitosa, que apesar de tão jovem e nascido no interior do Ceará (Crato), logo cedo veio estudar em Fortaleza e posteriormente em Campinas, São Paulo.
Esse seu lado itinerante lhe dá uma visão de mundo que o faz conhecedor do que está acontecendo em todos os quadrantes. E apesar de enquadrar sua história num perÃodo que começa em 1985 e vai passando pelos dias de hoje, já que seus temas são convividos ainda agora, Tiago não revela em nenhum momento do livro ou de sua biografia, a data de nascimento. Nem a ficha catalográfica revela essa data. Não fora eu seu professor de Literatura Cearense, no Curso de Letras, em 2006, não teria como comprovar sua juventude tão igual aos outros alunos da classe que se distribuÃam numa faixa etária quase sempre dos vinte aos trinta anos.
Mesmo com essa jovem idade, Tiago Viana já possui uma rica visão de mundo e um senso crÃtico dos mais aguçados. Uma das últimas bandeiras que abraçou, fica por conta da falta de distribuição das obras de autores cearenses. Isso ele comprova, divulgando, pelos meios de que dispõe, que conforme exigia o Edital da SECULT ao qual se submetera, repassou à quele órgão, 20% dos mil exemplares editados, ou seja, 200 livros. Assim, no dia 11 de dezembro de 2006 ele entregou 200 exemplares à SECULT (Secretaria de Cultura). No dia 14 de maio de 2007, cinco meses depois, ainda não havia chegado à Biblioteca Governador Menezes Pimentel nenhum exemplar de Individuais. E é porque essa Biblioteca é um equipamento dos mais visitados pela população, e pertence exatamente à Secretaria de Cultura. O autor e seu livro não estão nem cadastrados na Biblioteca.
Esse fato demonstra a dificuldade que tem o autor cearense de extrapolar os limites da cidade de Fortaleza, com seus livros publicados. Fortaleza possui hoje 24 editoras, editando livros dos mais variados quilates. Há vários lançamentos semanais de livros, em clubes elegantes, em livrarias, em universidades, colégios, igrejas, teatros e espaços culturais os mais variados. Não há em Fortaleza, no entanto, uma distribuidora sequer. O que aqui se produz, aqui se encerra.
A comprovação de Tiago Viana com relação a seu livro é também um problema oriundo da globalização. O regional, o produto cultural com cor local, é marginalizado pelo acachapante peso do que vem de fora. Assim, é preciso o leitor local reagir e não apenas comparecer aos lançamentos de nossos livros, comprá-los e guardá-los para alimento das traças. É preciso que se leia nossa produção literária e que se faça com que os novos leitores (Colégios e Faculdades) também leiam. Exemplo disso é que Individuais não fica atrás de muito best-seller que se expõe nas livrarias de nossa cidade. Portanto, pode-se dizer que Tiago Viana começou exatamente por onde muitos apenas conseguem terminar."
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Batista de Lima é Escritor, Membro da Academia Cearense de Letras, Coordenador do Curso de Letras na UNIFOR, e Professor de Literatura Cearense na UECE.
Sua coluna é as terças no Jornal Diário do Nordeste:
http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=450441
Querido Tiago:
Já estão lá os meus votos!
beijos e abraços
do Joca oeiras, o anjo andarilho
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