A visão poética do percussionista Big Charles

Divulgação
O artista vive em Juiz de Fora-MG
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Bianca Melo · Belo Horizonte, MG
14/11/2012 · 1 · 0
 

Artista de Juiz de Fora apresenta primeiro livro de versos



“Se pausas a dor do caminho que tiveste
Se pares a flor do suor do seu fígado
Apagas a luz,
Cisma sua tarde cinza.”


Estranhamentos consigo e com o outro, o azul, a pedra, Deus, cães e cadelas, feridas e prazeres remexidos são a matéria do livro de poemas “Retrato de cabeça”, primeiro de Big Charles, lançado em novembro em Belo Horizonte. O artista é mais conhecido pelo trabalho de 50 anos como baterista e percussionista. Ele escreve desde menino, mas os textos iam parar no fundo do baú até uma amiga vê-los e animá-lo a publicar. A batida literária de Big Charles compõe versos secos e alucinados. “Não fico dando voltas, falo logo o que tem que falar”, diz. Daí saírem textos curtos e diretos que poderiam ser chamados de poemas, apesar de não se tratarem de escritos bordados ou com rimas e simetrias. Ao contrário, há liberdade de composição e descompromisso com a lógica. A forma de edição de “Retrato de Cabeça”, por conta própria sem qualquer interferência de editoras, reforça isso.
Big Charles parece nos indicar a cada verso que a poesia é um plano imagético, e não um lugar de ideias e reflexões. Nesse sentido, embora não se possa enquadrá-lo em categorias, escola ou movimento literário, ele se assemelha aos poetas da estirpe de Alan Ginsberg e Manoel de Barros, exímios tecelões de imagens. No livro, estão reunidos textos produzidos de 15 anos para cá. Os últimos, admite Big, são mais pessimistas, resultado, segundo ele, de certa desilusão com o humano. A constatação acaba alimentando mais sua criatividade: “É mais ou menos a certeza de que tudo é um grande teatro. E a gente fica engabelando a alma com isso tudo: com poesia, com música, com as tintas.”
O leitor vai encontrar também frases que podem ser lidas, talvez por alguém mais otimista, como sinais de esperança. Tal é a visão da escritora e pesquisadora Leila Barbosa: “Seu grito de silenciar a dor nos faz vislumbrar o poeta que dialoga consigo mesmo, que no abismo da solidão da vida de arame farpado, entrevê, mesmo ao longe, a felicidade.” É um pouco assim no poema que abre o livro:


“O poeta cai
câncer da solidão
fadiga das latas de sardinha
dos becos
O poeta cai,
cai aos berros do nada
pedras hão de florecer.
O poeta sobreviverá ao corpo.”


Aos 68 anos, Big Charles é um tipo de artista com escolhas que diferenciam seu ritmo de produção do que prevalece em tempos de divulgação virtual e urgência para por ideias em circulação. Sem perfis em redes sociais ou pressa para divulgar seus trabalhos, faz da sua casa em Juiz de Fora seu espaço de criação e confraternização com os amigos, tendo ao fundo um grande e inspirador paredão de pedras. É um artista fecundo, cuja potência criativa se dissipa em múltiplas inventividades. Parte do tempo dedica-se ao estudo da bateria que está sempre armada na sala de sua casa. Por ali também estão telas e pincéis que ele gosta de manusear e cadernos cheios de textos novos que Big pensa em publicar um dia. Da safra recente, deste ano, é o poema abaixo, sem título, como são todos os que ele escreve:

“O olho poeta come angu.
Profetiza a dor.
Passa a língua no dente careado.
Mama-pedra.
O olho poeta lembra o gozo do pai na mãe.
Cega o azul, acalenta borboletas.”


MÚSICA - Em tudo, Big Charles acredita que a música está presente, mesmo que não se saiba explicar direito como. “É uma praga, uma bruxa, e você não consegue se livrar dela. Tocar tambor é coisa de muita responsabilidade.” Ele começou na atividade com menos de 20 anos, no Rio de Janeiro. Vivendo o burburinho do Beco das Garrafas, trabalhando como músico nas boates de samba da época, ele conheceu e acompanhou Nelson Cavaquinho, Zé Keti, Monsueto de Menezes, João do Vale, Tânia Maria. Viu surgir a movimentação em torno da Bossa Nova, gravou com Sueli Costa, que foi criada em Juiz de Fora, e, como muitos da sua geração, se encantou com o jazz, hoje uma de suas grandes influências. Tem dois discos gravados, “Retrato de cabeça”, de 2000, e “Ancestrais Futuros”, de 2007, este com o saxofonista Glaucus Linx.

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