Desordem em agrupar sons e imagens, simultaneidade dos quadros, narrativa sem linearidade, montagem irreal, quebra do eixo da câmera, tudo para nos remeter a um estado onÃrico, tudo que podemos chamar de Pós-Cinema.
Analisei o filme "No Fundo do Coração" (original: One from the Heart) de Francis Ford Coppola lançado em 1982, que é um marco na carreira do diretor. Não por sucesso de crÃtica e público, o que de fato não ocorreu, mas por se reinventar em estúdio. O filme que originalmente era para ocorrer em Chicago e ser uma comédia romântica, é adaptado para Las Vegas e vira um musical, com um estilo lúdico, surrealista, quase como um video-clipe.
Não é somente essa novidade na carreira de Coppola, ele que foi diretor de produções como "Apocalypse Now" e "O Poderoso Chefão", na década seguinte, de 80, se auto-intitula um industrial e não um diretor. Isso significou que, a princÃpio, as obras não seriam mais autorais como as anteriores e novas experimentações estavam por surgir, como por exemplo, a pré-produção do filme ocorrer intercalada com a produção e pós. o roteiro era dividido em módulos, Coppola o filmava, assistia durante as gravações, editava o material e montava as cenas de acordo com o andamento do filme, podendo selecionar os módulos do roteiro da maneira que desejasse.
O contexto todo é inserido nesse mundo ilusório, é como se Coppola previsse "O Show de Truman" (1998, Peter Weir) e criasse fronteiras imaginárias aos protagonistas. Frannie e Hank são um casal em crise, que na véspera do dia 4 de julho possuem um conflito de interesse e terminam a relação que faria 5 anos. Assim, o casal se vê na obrigação de ser feliz no dia da Independência dos EUA, momento que todos estão na rua comemorando. O fato é que Frannie é sonhadora e Hank apegado à realidade e com isso fazemos uma viagem fantasiosa na relação e nessa contradição existente entre a vontade de fugir e necessidade de ficar, como se o mundo fosse aquela estúdio e aquele simulacro existisse.
São as contradições, o que é real e o que é fabricado, suas diferentes formas de encarar o tema, de receber as imagens hÃbridas, criadas digitalmente e simultâneas que fazem com que haja uma participação ativa do público. Pois ainda há a preocupação em como a produção será compreendida e por isso o diretor cria sequências sem ligações entre si, mas que causam prazer nos espectadores fazendo com que eles, a medida que vão compreendendo o filme, sejam os co-autores.
Se Las Vegas é uma ilusão fabricada e que só existe no imaginário de Francis, ele torna essa irrealidade melhor que a realidade, pois a imagem transmitida vai além do que se vê na tela, possui maior significância, visto a metamorfose dela digital.
A técnica domina a criação humana e uma não existe sem o suporte da outra, esse é o pós-cinema que pode utilizar ou não as imagens pós-modernas a favor dele para complementar essa narrativa na lógica do sonho surrealista e utilizar da cultura POP. Essas são as tecnologias que o imaginário se apropria, como pós-industrias, para a criação de suas realidades, que apesar da estrutura irregular e história fraca, ele prima pelo bom gosto visual e musical, com trilha de Tom Waits e ótima direção de arte de Dean Tavoularis.
O filme, então, não é somente apenas um fracasso de estúdio mas um alavanco para o cinema, este que é a arte em movimento, se tornando cada vez mais mutante, mais reflexivo e anti-vanguardista e explorando mÃdias abertas a todos, proliferando e virtualizando o real desde 1982. Pós-cinema é a anarquia audiovisual.
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