Aos pedaços

Europa Filmes
1
Túlio Moreira · Goiânia, GO
4/10/2007 · 11 · 1
 

Dois diretores² do american way to film no projetaço Grindhouse: motorista-assassino trata carinhosamente suas vítimas usando carro possante; zumbis maconhados atacam casalzinho. Quentin Tarantino e Robert Rodriguez vão lançar o novo filme nos Estados Unidos no dia seis de abril e a polêmica rola solta em relação à distribuição da fita nos cinemas do resto do mundo.

Gentes boníssimas Bob e Harvey Weinstein querem dividir os dois longas que fazem o filme – Death Proof e Planet Terror, de Tarantino e Rodriguez, respectivamente – nas salas dos países de cultura não-inglesa, com a desculpinha de que os espectadores desses lugares não têm costume com o cinema de grindhouse – salas de subúrbio da década de 70 com sessões duplas de filmes pornográficos e/ou violentos.

Na brincadeira de criança dos amigos Tarantino e Rodriguez, o longa duplo Grindhouse, inicialmente planejado como a união de um par de médias-metragens, foi finalizado com dois segmentos de aproximadamente 80 minutos cada, costurados por quatro trailers falsos e toscos, como Machete, do próprio Rodriguez, e Werewolf Women of the S.S., de Rob Zombie (A Casa dos 1000 Corpos, de 2003). A duração da fita chega aos 185 minutos e os fãs brasileiros precisam rezar (ou dirigir carro assassino, ou matar zumbis) para que o new cult chegue inteiro por aqui.

Confira a seguir entrevista com o crítico de cinema Fabrício C. Santos, dos sites AgendaGyn e Poppycorn, sobre o filme mais aguardado do ano (por motivos notáveis).

Depois de Kill Bill, Tarantino está envolvido em outro projeto grandioso. Rodriguez já planeja duas continuações para o cultuado Sin City. Qual o impacto do lançamento de Grindhouse no contexto de agorinha do cinema americano?

O cinema americano, atualmente meio moralista, está preocupado com a visão dos dois sobre a violência num filme assim. Acho que o impacto será mais sobre toda essa bobagem de discussão sobre violência do que sobre a importância do filme mesmo. No caso do Tarantino, o impacto vai ser menor do que quando Kill Bill foi lançado, por ser seu primeiro filme em sete anos. Grindhouse vai ser comentado pela união de dois amigos com estilos próprios – Tarantino é fã de Rodriguez e vice-versa. Rodriguez considera Tarantino como sua grande influência para fazer cinema. Grindhouse trás esses dois juntos para fazer filmes de terror da década de 70, aquelas sessões de filme B mesmo, de madrugada. Une os dois com toda essa violência. Hollywood reclama, mas vai ser sucesso, todo mundo vai adorar. É uma bobagem reclamar da violência dos dois, porque é completamente estilizada, não tem o que falar, é assumidamente irreal, é diversão, eles fazem a arte do escracho, é bonito de ver.

Kill Bill foi inicialmente planejado como um filme só, e por influência do estúdio Miramax, acabou dividido em dois volumes. Agora, os distribuidores de Grindhouse querem separar os longas que compõem o filme nos países que desconhecem o conceito de grindhouse. Até que ponto isso pode prejudicar a idéia dos diretores de prestar uma homenagem às sessões duplas e filmes de terror dos anos 70?

Essa divisão não faz o menor sentido. Em Kill Bill, a gente podia até aceitar, porque o Tarantino construiu o filme dividido em duas leituras – ocidental e oriental. A divisão ficou até bonitinha, de certa forma não ficou chato, era um filme muito longo. Em Grindhouse, fazer isso é estúpido, eles estão quebrando parte da intenção dos autores, que é de resgatar uma idéia. O argumento do Weinstein é que aqui no Brasil e nos outros países de língua não-inglesa não existe essa cultura do cinema dividido, do cinema B, que foi recorrente na década de 70 pra eles. Mas eu acho que seria até um motivo a mais para colocar os dois filmes juntos aqui. Existe até um boato de que talvez os trailers que eles inseriram nos intervalos não sejam exibidos também, o que seria catastrófico. Acho que os dois deveriam ser exibidos juntos, numa mesma sessão, porque foram feitos pra isso, com essa finalidade. Nos tirar esse prazer vai mutilar a obra de forma questionável. Eu fiquei revoltado quando eu li sobre isso.

No começo da carreira, Tarantino foi tido como fenômeno do cinema independente, e hoje aproveita a estrutura dos grandes estúdios para continuar prestando homenagens às referências cinematográficas que o marcaram. Como você vê essa evolução de Tarantino a partir do momento em que ganhou projeção internacional?

Tarantino é quase a Cinderela. Ele é a realização do sonho de todo menino cinéfilo, que de repente tem a oportunidade de fazer um filme superindependente e consegue alguma parceria de maior renome, entrega Cães de Aluguel, de 1992. Em seguida, a Miramax vira o olho pra ele, abraça Pulp Fiction e aí explode. A Miramax, produtora independente, consegue colocar esse filme e o diretor no mundo. Depois de Pulp Fiction, a Miramax começou a ficar mais ambiciosa e o Tarantino aproveitou. Não que ele tenha ficado mais ambicioso – talvez sim, Kill Bill é mais ambicioso, mas ainda é uma obra autoral. O Tarantino soube aproveitar isso. Como qualquer diretor autoral faria, ele pega esse sucesso e poder que tem agora e continua fazendo seus filmes autorais, só que com o total apoio de grandes produtores. Tarantino hoje é marca, não tem como dar errado, ele tem o lugar dele garantido. Ele teve a idéia de fazer Kill Bill, completamente exagerado, foi lá e fez. Vai dizer “não†pra ele como?

Rodriguez e Tarantino já participaram de outros projetos juntos, como os filmes Grande Hotel, de 1995, e Um Drink no Inferno, de 1996. Ambos têm estilo bastante pessoal e fazem questão de dirigir filmes seguindo o próprio instinto. Qual a posição dos dois diretores dentro do esquemão hollywoodiano voltado para o lucro?

Os dois nasceram dentro do cinema independente, se conheceram no começo da década de 90. A forma como os dois pensam e realizam cinema me faz pensar que não tinha como eles não se aproximarem. Ficaram muito amigos, assistiam filmes juntos de madrugada – daí a idéia para fazer Grindhouse. Rodriguez chega a ser mais independente que Tarantino. Segundo boatos, quando ele fez El Mariachi, conseguiu os poucos mil dólares servindo de cobaia para medicamentos. Chega a ser até meio absurdo, legal o esforço dele. Eu não sou muito fã do Rodriguez, dele eu gosto de verdade só do Sin City. Mas é legal ver essa parceria deles. Um Drink no Inferno é bastante divertido, Tarantino roteirizou, Rodriguez dirigiu. Eles ficam com essas trocas de favorzinhos, um fazendo cafuné no outro. Em Sin City, o Tarantino participa. Como o Tarantino, Rodriguez entra nesse esquema de começar superindependente, ele faz praticamente tudo nos filmes dele – edita, fotografa, já o Tarantino tem o montador dele, o diretor de fotografia. Rodriguez não, faz absolutamente tudo e faz de tudo, porque da mesma forma que ele mexe com violência, ele brinca com os filmes infantis dele, como Pequenos Espiões. Rodriguez ainda nega um pouco a indústria, ele faz as coisas sozinho, mas também tem apoio. Os dois estão na mesma linha, e não é a toa que eles estão soltando um filme juntos, desafiando a violência, a moralidade e o exagero do cinema, trazendo o filme B para o cinema comercial. Olha só o que eles conseguiram, eles vão trazer aqueles filmes relativamente vazios da década de 70 para o cinema comercial. É incrível, exatamente o tipo de filme que era renegado, que era da margem, filmes baratos, toscos, velhos, feios, sujos, caindo aos pedaços, e eles vão trazer isso para uma leitura do cinema comercial. Isso é lindo de se ver.

Quatro trailers falsos serão exibidos entre os dois longas de Grindhouse. Trailer é propaganda de um filme. Como você imagina o impacto para o espectador de saber que estará assistindo a uma propaganda de algo que não existe?

Isso é interessante demais (trela), porque nessas sessões de filmes B dos anos 70 tinham os trailers dos outros filmes toscos que passariam nos outros dias. Eu não sei como é que vai ficar a questão dos trailers, em que ponto eles vão inseri-los. São trailers absurdos, tem o Machete, que é um cara com um monte de facão dilacerando o povo, vingativo. E eles não descartaram a possibilidade de alguns desses trailers virarem longas, o que seria interessante também, filmes nascerem dos trailers de filmes inexistentes a princípio. O pessoal aqui pode estranhar: Hã?, O que é isso?, mas quem já viu os trailers no YouTube – tá tudo solto lá – achou divertido. Esses quatro trailers passando na sessão vão alucinar, principalmente a galera mais jovem. É interessante, trazer uma coisa antiga, já morta, para um cinema comercial de público mais jovem, que é o espectador-alvo deles. Não tem como dar errado e por isso mesmo acho que não rola de dividir aqui no Brasil nem tirar esses trailers.

Agora Rodriguez tá com a idéia de transformar Machete num longa e trabalha na primeira continuação de Sin City. Tarantino quer fazer uma nova homenagem aos filmes de Kung-Fu dos anos 70. Existe limite para a criatividade e genialidade desses dois?

Pra genialidade, pode ser que haja um limite – o próximo filme sempre pode ser uma barreira. Até agora, eles têm se mostrado muito bons, principalmente o Tarantino. Eu tenho algumas ressalvas contra o Rodriguez, mas tô muito otimista com Grindhouse. Pra mim, Sin City foi o melhor filme do Rodriguez. Tomara que Machete vire filme, ou venha aí um Grindhouse 2, com leitura mais de artes marciais. Criativos eles são demais, me lembram um pouco o pessoal da década de 70 – Scorsese, Brian De Palma –, claro, com uma leitura completamente diferente do estilo deles, mas que não parava de criar. Foi a fase mais criativa do cinema americano, e Tarantino e Rodriguez meio que lideram uma unidade menor desse tipo de criatividade ininterrupta. Mesmo que façam Machete e o filme não preste, de qualquer forma é uma idéia brilhante. Mesmo que seja ruim, é criativo, o trailer já indica a criatividade, não dá pra negar. Eu espero que eles não parem, ainda mais hoje, com toda essa onda de conservadorismo nos EUA, nós precisamos de filmes assim mesmo, para contestar. Tem que exagerar, escrachar. Estreou agora 300 de Esparta, do Zach Snyder, que é uma outra leitura violenta, baseada também em Frank Miller, e que lembra muito Sin City. Acho que tá no momento certo de extrapolar na violência, essa violência estilizada. Pra isso, precisa de muita criatividade, e esses dois têm pra caramba.

Publicado originalmente em Abril de 2007.

compartilhe

comentários feed

+ comentar
Luciana Maia
 

Quem é do RJ e foi no Festival do Rio 2007 e viu À PROVA DE MORTE e o PLANETA TERROR deve ter presenciado os aplausos da platéia na sessão do Tarantino. Deathproof é o novo tesouro do diretor. Como o crítico disse muito bem: "eles fazem a arte do escracho", e esse é escracho puro!

Luciana Maia · Rio de Janeiro, RJ 6/10/2007 18:05
sua opinião: subir

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

filtro por estado

busca por tag

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados