Aqui, Alejandra

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Cassiano · Rio de Janeiro, RJ
8/4/2006 · 0 · 0
 

Uma grande tolice isso de julgar os motivos que levam alguém a se expressar, seja pela música, seja pela poesia, seja pela pintura, seja pela jardinagem ou pelas formas absurdas que nascem quase todos os dias nos cursos de cerâmica. Buscar a razão onde muitas vezes não há. Os méritos, por sua vez, são outros quinhentos. A história então, indiscutível em alguns pontos.

Apenas um deles: muito do que se lê por aí, essa acidez embriagada e liberta dos grilhões dos versos de mulheres tão livres, perversas e auto-suficientes com seus óculos de aros de tartaruga, deveria humildemente prestar contas com a obra de Alejandra Pizarnik. Mesmo quem não a conhece deveria agora mesmo buscar um pouco de informação, porque, sabe-se, isso nunca é demais.

“Alejandra Alejandra / debaixo estou eu / Alejandraâ€.

A poesia contemporânea na Argentina não existiria sem ela. Corrijo: seria bem diferente: se resumiria a falar de recantos, praças, vacas, ranchos e mate. E, veja, isso quem diz é Borges, não eu. O impacto – apesar de algumas comparações bem fundamentadas por sinal com Ana Cristina César e com a poesia dos anos 80 - é seguramente o mesmo que o da existência da Hilda Hilst, essa sim um parâmetro digno de comparação, excluindo aqui qualquer análise de conteúdo ou forma.

“Este temporal fora de hora, estas relhas na menina dos meus olhos, esta pequena história de amor que se fecha como um leque que abertoâ€.

Quem conviveu com Alejandra conta que, apesar da proximidade com grupos de vanguarda, Pizarnik era uma ilha solitária no ambiente literário, uma personalidade aparentemente desprendida da vida social, apenas atenta aos próprios ecos de seu subconsciente, marcada pelo selo (ou estigma) de uma tremenda lucidez e do ponto de vista literário, dona de um notável e notório rigor estilístico.

Lenda. Mito. “La niña monstruoâ€. Da raça que vive e escreve nos limites da vida, da razão e da linguagem, como a descreve Roberto González Echevarria.

Filha de imigrantes Russos, Alejandra nasceu em abril de 1936, em Buenos Aires. Lá estudou filosofia, letras, jornalismo e pintura com o artista plástico catalão Juan Battle Planas, que iria influenciar o modo de tratar a distribuição do texto sobre a página em branco.

Lírica. Surrealismo. Desarticula e rompe. Palavra e silêncio. O branco e o negro. Universo que possui como temas recorrentes: noite, poema, palavra, pássaros, escrita, linguagem, infância, água, sol, morte, cores, solidão, loucura, suicídio, silêncio, lembranças, esquecimento, espera, vozes, medo, tempo, plenitude, fatalidade, iluminações, a busca do absoluto, a imensidão, a intimidade, a intensidade do ser. Não era apenas o sofrimento pelo abandono do namoradinho ou as torrentes de picas que passavam por sua cama devoradora.

“já compreendo a verdade / estala em meus desejos / e minhas desgraças / em meus desencontros / em meus desequilíbrios / em meus delírios / já compreendo a verdade / agora / buscar a vidaâ€

Pizarnik, que sofria tanto quanto Silvia ou Virginia – tenha certeza de que não irei aqui entrar nos méritos de uma e de outra – queria romper – isso sim! - com a tradição feminina do sentimentalismo, da ternura fácil, da abnegação, da castidade e da doçura. “Ganas de aplastarme contra una pared, descuartizarme, ponerme una bombaâ€. Como Rimbaud, entrega-se às sensações, ao experimento, à perdição. Era cruel, escrevia – e vivia - como que possuída – alguém chame um padre, queria avançar por territórios, andar em zonas proibidas, mas tudo isso, minhas senhoras, através do violento exercício da linguagem.

Pizarnik, para quem a poesia era um destino, nunca uma profissão, gostava de rock e era apaixonada por Janis Joplin (a quem dedicou um poema). Durante toda a vida declarou que o ideal seria fazer versos com cada minuto do seu viver.

“Quem dera pudesse viver apenas em êxtase, fazendo o corpo do poema com meu corpo, resgatando cada frase com meus dias e com minhas semanas, infundindo ao poema meu sopro à medida que casa letra de cada palavra fosse sacrificada nas cerimônias do viverâ€.

Aos dezenove anos, em 1955, publica seu primeiro livro de poesias “La tierra más ajenaâ€. Em 1956, “La ultima inocênciaâ€. Em 1958, “Las aventuras perdidasâ€. Os primeiros rebentos, ainda na Argentina. Suas influências: Nerval, Baudelaire, Rimbaud, Lautremont.

Em 1961, resolve emular a experiência de autores de gerações anteriores e viaja para a França – Meca, centro da cultura, experiência necessária e fundamental -, onde vive até 1964. Em Paris, torna-se amiga de Octavio Paz e Julio Cortazar (de quem quase perde os originais de O jogo da amarelinha), estuda Literatura Francesa em Sourbonne, trabalha para algumas editoras fazendo traduções de Antonin Artaud, Henri Michaux e Aimé Cesairé, dentre outros, e publica poemas e críticas em alguns jornais e revistas, como as célebres “Cuadernos†e “Surâ€.

Estar na França significa escrever com mais liberdade. Que o desamparo seja total. Ela é feliz, apesar das dificuldades. É nesse período – segundo os estudiosos - que nascerão os poemas antológicos de sua obra.

“E ainda me atrevo a amar / o som da luz em uma hora morta / a cor do tempo em um muro abandonadoâ€.

De volta a Buenos Aires, em 1965, publica três de seus principais volumes, “Los trabajos y las noches†(1965,que recebe alguns prêmios), “Extracción de la piedra de locura†(1968) e “El infierno musical†(1971), além da prosa “La condesa sangrientaâ€.

Em 25 de setembro de 1972, enquanto passava um fim de semana fora da clínica psiquiátrica onde estava internada, Pizarnik morre de overdose intencional de seconal. Está enterrada no cemitério de La Tablada.

“verte esfinge / teu pranto em meu delírio / cresce com flores a minha espera / porque a salvação celebra /o manar do nada / verte esfinge / a paz de teus cabelos de pedra / em meu sangue raivoso / não entendo a música / do último abismo / não sei do sermão / do braço de pedra / porém quero ser o pássaro enamorado / que arrasta as garotas / bêbadas de mistério / quero o pássaro sábio no amor / o único livreâ€

Texto publicado originalmente no site Cronópios (www.cronopios.com.br)

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