As atribulações da partÃcula
A obra de Arthur Piza, Ãntima e discreta, tem reinvindicado ao longo de sua trajetória de mais de 40 anos uma atenção inversa à s exigências que hoje os processos visuais dispõem e impõem a todos sem exceção. O mundo se exibe cada vez mais em escala panorâmica enquanto o trabalho do artista insiste serenamente numa apreensão quase microscópica, nem por isso desatenta aos andamentos contemporâneos. É o que temos visto ultimamente. A poética moderna, que é a de Piza, exige uma convicção que não se abandona de uma hora para outra e que para ele é a dinâmica única do relevo, que tem explorado sistematicamente. Um problema aparentemente simples e que, Piza demonstra inesgotável. Assim como o processo da vida que, para quem a vê no microscópio, também é inesgotável e imprevisÃvel; embora o cientista aà procure encontrar certas constantes. Tal como Piza.
A dinâmica do relevo tem uma origem: o desprendimento da primeira partÃcula. Este afloramento inicial tem algo do despertar da imobilidade da matéria, o momento em que uma unidade autônoma se confronta com a uniformidade indistinta do plano. Surge um eu. Livre, móvel, incerto, estabelece a oposição entre o todo estático e a unidade dinâmica. Se esta questão o aproxima da arte cinética tanto histórica quanto processualmente, é preciso fazer uma distinção: o movimento da obra é lento, vagaroso, cumulativo; se dá no tempo não no espaço. Se transformássemos cada trabalho num fotograma terÃamos uma seqüência cinematográfica perfeitamente estruturada; a narrativa visual das atribulações do personagem partÃcula que tem inÃcio numa resistência ao movimento até a plena mobilidade nos trabalhos atuais: o Bildungsroman da partÃcula Piza.
Nesta dinâmica interna do relevo, na escala da intimidade e da proximidade em que se situa, creio, podemos encontrar um paralelismo entre as tensões de dois grandes artistas: Fontana e Calder. A ruptura do plano de Fontana e a liberdade plena das partÃculas de Calder. Aà no ponto intermédio destas tensões situa-se o espaço do relevo de Piza. Nele as partÃculas não se liberam totalmente, não se movem como as de Calder, dão um primeiro passo, e tal como o ato do corte de Fontana, o repetem, diferentemente.
De inÃcio o plano é indistinto da matéria. Ambos se confundem. Não é um plano absolutamente abstrato e evoca não uma matéria qualquer, mas sim a matéria primordial, esta que é para a matéria assim como o plano é para a abstração. Ãrida, seca, dura, crosta indefinida, terra ainda estéril, anterior à vida. Então, o movimento primeiro de fratura do plano não é de ordem abstrata, mas orgânica. Este tem inÃcio com um craquelée, algumas mÃnimas fissuras, pouco mais que rachaduras e nada mais, e que parecem surgir de um tempo fossilizado, vagaroso, quase inerte: a discreta erupção da superfÃcie; o primeiro, lento e difÃcil rompimento da tensão planar. Ao mesmo tempo que esta fissura estabelece o rompimento com o plano ela também define a dimensão e comportamento primeiro das partÃculas. Nenhuma delas escapa de inÃcio a um comportamento primitivo, gregário, grupal exemplos de uma regularidade pré-históricas. Ainda está longe o momento da individuação. Cada partÃcula é parte da totalidade a qual dá coesão e estrutura. Quando se movimentam, a direção e trajetória do movimento são dadas pelo conjunto. Não há errância e autonomia. A tensão planar ainda domina as individualidades e seu movimento natural e harmônico. Inicialmente nem a cor as distingue, possuem as mesmas cores terrosas do plano, traço de um fenômeno primitivo micro geológico ou da vida ao nÃvel celular.
É provável que Piza tenha explorado todos os comportamentos possÃveis desse pequeno elemento no seu espaço Ãntimo e frágil. Do conjunto coeso de partÃculas, ao elemento pinçado e recortado da superfÃcie, da unidade definida pelas placas quadradas de metal aos retângulos, losangos e quadrados coloridos, do movimento orquestrado em conjunto que ora se expande ora se concentra, ora indÃcio de agregação ora de desagregação, do contraste entre a figura da partÃcula e o fundo, tanto quanto superfÃcie quanto matéria; tela, papel, sisal, aramado, da monocromia, talvez melhor dizer acromia, inÃcial ao quase neoplasticismo dos último relevos. E tudo indica que ainda não se esgotou, que novas possibilidades ainda estão por vir.
Não é estranho portanto que o relevo busque experimentar a tridimensionalidade. Este é um fenomeno recorrente desde o cubismo e, na arte brasileira, provocou resultados singulares. Quando Lygia Clark denominou suas esculturas articuladas de Bichos ela não especificou o animal. Simplesmente usou o termo genérico e mais abstrato. Não é o caso do trabalho de Piza. O bicho é o tatu. Creio não poderia haver animal mais apropriado. Só ele e não outro poderia metaforizar a dinâmica do relevo de Piza. A carapaça em escamas do animal, articulada, elástica e flexÃvel, toda ela composta de pequenas placas, unidades que formam uma totalidade móvel e veloz; metálica como são certos relevos de Piza. Animal que vive na terra, entocado, que pouco dela se distingue na sua cor monocromática, de aparência tão orgânica quanto mecânica, que é praticamente um relevo ambulante. O tatu, enfim, um animal dos mais solitários e de uma autonomia única, a unidade orgânica viva, incerta como a vida.
Afinal, chamando de Tatu este trabalho tridimensional Piza não fez mais do que reafirmar a experiência fundamental de sua obra; o relevo agora se destaca do chão. Pois não é o tatu a partÃcula viva que habita o plano primordial que é a Terra?
Paulo Venancio Filho
Exposição Meu Tatu - esculturas e pedaços no espaço
Gabinete de Arte Raquel Arnaud
22 de outubro a 20 de dezembro de 2008
Rua Arthur Azevedo, 401 - Pinheiros, São Paulo, SP.
Parabenizar pelo artigo. Como leitor/pesquisador da obra saramaguiana encontrei nas aquarelas e colagens e na arte de Piza uma beleza veementemente incapaz de descrição em poucas palavras. A singeleza, a simplicidade são carateres ao meu ver - sou leigo nesses terrenos da artes - muito pertinentes e que traduzem-se em elementos de maior grandeza na obra do Piza.
Parabéns pelo artigo em também está valorando um artista brasileiro que pelo visto não muito conhecido pelas terras de Brasil.
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