A poesia de Manoel Ricardo de Lima agora circula pelas páginas de As mãos, último livro do autor, de 2003, editora 7Letras. Uma novela em que Manoel nos conta com simplicidade uma história que pode ser de amor (ou de uma outra coisa qualquer). Uma história que repousa no diálogo e no singelo entrelaçar das palavras. Uma prosa de fim de tarde, embalada por uma rede, olhando o horizonte muitas vezes obstruÃdo pelas edificações das cidades contemporâneas.
O leitor, se tiver vontade, pode se inserir no universo proposto pelo autor ou, simplesmente, se retirar sem nem ao menos ter feito parte dele. Um alguém, um outro alguém, um sentimento, um lugar, uma casa, uma rua, uma cidade que podem ser qualquer cidade (rua, casa, lugar, sentimento, outro alguém, alguém...), pois a história não tem endereço. O texto não cria raÃzes. Os personagens não têm nomes. (As coisas não são nomeadas ou, porque não, são nomeadas diferentemente). Passam por nós despercebidos como uma história qualquer que observamos em um lugar qualquer e logo nos esquecemos onde a presenciamos, mas não nos esquecemos dela, da história, talvez, o que (menos) interessa.
É isso que permanece no texto de Manoel. Permanece a história. Permanece a poesia. Permanece o sentimento, não como presença. Simplesmente, ausência. Lembranças, suspiros, soluços... chego a pensar em solilóquios que insistem em futricar a razão.
O livro começa "entre paredes" e finda na percepção de que "Lá fora (...) não existe mais". "Não durmo, logo não acordo" (29). "Perdi necessidade de nome..." e "A cidade ostenta a causa maior da minha dor..." (pg. 29) diz o autor, que parece precisar tocar a cidade que, por sua vez parece refutar qualquer tipo de aproximação, quanto mais um toque. É como se o autor não se contentasse com um simples olhar e buscasse algo mais, que me parece, tão somente, se aproximar. Mas a cidade, enrijecida pela modernização, violentada pelo tempo, parece refutar qualquer tipo de aproximação. O texto nos deixa com a impressão de que a cidade não se permite mais. Alguém poderia perguntar, não se permite mais o quê? Não se permite e pronto. Simplesmente, tensão.
As mãos de Manoel são calejadas por uma leitura da cidade em perspectiva, todavia, no texto do autor, a mesma aparece quase como um pano de fundo. Quem sabe o autor queria mesmo acabar com a perspectiva, para que a cidade existisse apenas no tempo, dentro, sem geometria ou cartografia, apenas a do olho, que está turvo, embaçado pela isenção.
É isso que acontece, a cidade pode até nos saltar aos olhos, mas não se identifica, não se apresenta, não diz quem é, nos deixa com a impressão que pode ser qualquer cidade de qualquer canto deste paÃs. Desta forma, o leitor pode ler o livro como se fosse a sua própria cidade e, se não gostar do que lê, não se identificar, pode, tão somente, abrir mão dele(a).
Agora, se localizar e se identificar com o texto, um lembrete: "O que nos é real, talvez seja, ao menos, uma ilusão de fato" (21). Por sua vez, se não o localizar, não tem problema, pode ser porque é "Tudo difÃcil, turvo, embaçado, como achar o outro em lados estranhos que parecemos estar agora" (11). Talvez um "lugar amorfo" (11). No entanto, não te esqueça que, por mais estranho que pareça, como nos diz o autor, "...orávamos, não para deus, mas orávamos..." (30), quem sabe, por ti...
Manoel, para quem não conhece, nasceu em ParnaÃba-PI, morou muito tempo em Fortaleza-CE e hoje é professor substituto na Universidade Federal de Santa Catarina, na qual faz o Doutorado em Teoria Literária. Antes de lançar As mãos, havia publicado Embrulho (poemas, 7Letras, RJ, 2000), Falas inacabadas - objetos e um poema, com Elida Tessler, artista plástica (Torno editorial, RS, 2000) e Entre percurso e vanguarda - Alguma poesia de Paulo Leminski (ensaio, Ambulante, SP, 2002).
Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!
+conheça agora
No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!