RITA DE CÃSSIA CAVALCANTE, poeta gaúcha, é professora de literatura em Porto Alegre. Escreve na revista Argumento e no blog pessoal Poética. Participou, em 2008, do concurso literário off flip e foi publicada na coletânea junto de autores já conhecidos como Tanussi Cardoso, Márcia Maia, Mônica de Aquino e Sonia Pereira.
Chega uma hora em que olha no espelho e não encontra mais o avesso
a cara é só retrato 3x4 da sua identidade emaranhada
o que há por trás é a casa escura soando berros de alguma canção inominável
Memória tem cheiro de flor em velório
doce cozinhando em panela de vó
Se ainda acreditasse, abriria as cortinas
chorava rios e fingia ser feliz
Nem pra chover deus ajuda
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tudo previsÃvel como uma penteadeira
beijos gastaram todo o batom
mas restou o sangue
volúpia ardente na página daquele livro
respiro o teu perfume
quando a noite insiste em se fazer inteira
diante do espelho tudo é nu
(gavetas também não escolhem as lembranças)
Bossa
Não tenho mais tempo pras palavras
Larguei da poesia
Não quero mais essa mesma canção
Adeus, meu bem
Vou ser morena do samba de alguém
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ligação de cobrança
caminhão de gás
torneira mal fechada
construção no quintal ao lado de casa
dança
mendigo pedindo moeda na calçada
corpo pedindo água
cachaça
música ruim no rádio do vizinho
telefone ocupado
tu
tu
tu
A vida é um disco riscado
CLAUDIA CORBISIER , poeta e psicanalista carioca, com pós-graduação em psiquiatria no Instituto de Psiquiatria da UFRJ e na Sorbonne, Paris V, Université René Descartes. Atualmente doutoranda do Programa de Pós-Graduação de Psicologia da PUC, Rio de Janeiro. Pesquisadora associada do LIPIS. Escreve no blog umdiaumgato.
Quero a vida assim
Amassada
Enrolada
Em papel de seda
Ou de jornal
Quero um colar bonito
De pérolas
Ou de botão
Quero um peito aberto
Cheio de cicatrizes
De lembranças
Do que foi
Do que não foi
Do que será
Quero as mãos raladas
mas
De unhas feitas
De cores diversas
Sempre abertas
Quero as pernas bambas
De sonhos insuspeitos
Dos carinhos exagerados
Quero o amor maior
A paixão que transtorna
Que transborda
Quero o fio da navalha
A faca que corta
O que não faz sentido
Quero o suor pingando
Das lutas reais
Quero da vida
O pedaço
Que mais arde
Que enlouquece
Quero o mais difÃcil
O que é real
Quero a verdade
Da dureza da rocha
Do perfume da rosa
Das entranhas expostas
Quero.
Memória
Mãe é amparo.
Estaca fincada na terra
na chuva, molha
no sol, seca
com o vento balança.
Mas fica ali.
As vezes nem sabe
que apóia ilusões,
que gera sonhos
que aninha sossegos.
É ponto cardeal
inÃcio à revelia
corrimão
jacarandá de sobrado
sino de mesa
carrilhão tocando
conversas de antigamente.
É tristeza do que não foi
de perguntas esquecidas
É imagem desdobrável
guardada
entre pesares e canduras
no porta-retrato
da memória.
AURORA
O SEGREDO APENAS SE ESBOÇA,
O SENTIDO MURMURA,
PARA OS OUVIDOS ATENTOS,
UM ACALANTO INESPERADO.
AS PALAVRAS SE CRUZAM,
O SILENCIO ACORDA SONHADORES DISTRAIDOS,
DE MUNDOS DISTANTES.
OS SINOS SE IMOBILIZAM,
OS OLHOS DESLIZAM,
DESPERTANDO ALMAS INQUIETAS,
QUE DESCOBREM O BALANÇO DO MUNDO.
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Sou chão. Sangue. Cabelo em pé. Ouvidos roucos. Voz estalada que nem ôvo. Sou pé na estrada. Mão na contra-mão. Moleca de rua. Do olhar atento. Da alma rasgada. Da saia plissada. Do sinal aberto. Do bambolê rodando. Sou mulher comum. Média. Com pão e manteiga.
ADRIANA ZAPPAROLI (1969) poeta paulista, nasceu em Campinas, fez doutorado em farmacologia pela UNICAMP e, em 2007, lançou seu livro de estréia, A flor-da-AbissÃnia, já tendo publicado seus poemas em revistas impressas, como Etcetera, A Cigarra e Poesia Sempre, e eletrônicas, como Zunái e Mnemozine. Escreveu o e-book de poesia: Erótica. Mantém o blogue Zênite.
Rubro cântico
figurativo descanso
uma estrutura rubra
um olho-de-gato
equivocado
refletindo luz
intuitiva a poesia
num escuro
duma estrada
mal sinalizada
Num momento
roer
a unha telúrica
do tempo
saltar
para dentro
da vulva
no movimento
da válvula tricúspide
tugúrio
o tule abafa
o trilo da úvula
no dedo o gosto da uva úmida
Tatue um poema
tatue um verso
dinodonte diminuto
em meu dorso
etéreo
reverso
tatue beijos
cabelos extensos
seu
rosto
tatue sentidos
discretos lábios
textos explÃcitos
arriscado fogo
astro
sem esforço tatue
um
imortal dionisÃaco
tatue meu corpo
todo
poema inteiro
O olho do tigre
Pisando o chão novamente
sou alguém sobrevivendo
após um forte dilúvio.
Por mais que eu renegue a vida
e dela seja o mais fiel desertor
A morte, não a venci.
Da vida sou prisioneiro.
Não! Não! Não desisto!
Mesmo cansado bate em meu peito
o instinto do predador.
O olho do tigre persegue sua presa na noite,
é a emoção da luta
que cresce junto com o desafio do rival.
Oh! devoro a vida!
Viva! Solto o último suspiro
e parto em busca do desconhecido.
VIRNA TEIXEIRA (1971) poeta cearense, nasceu em Fortaleza e reside em São Paulo. Publicou três livros de poemas Visita (2000), Distância (2005), e Trânsitos(2009), participou da antologia Fin de Siècle (2007) e traduziu os poetas Edwin Morgan(escocês), Richard Price (inglês).
NOITE
branca, a sala
a cor desta
ausência
teto
inalcançável
sofá, o vulto
imaginário
de um corpo.
HYDRA
Nas margens da ilha, rochosa
redemoinhos
de água
onde o monstro
marinho?
Havia um banco
de frente para o mar
Egeu.
A luz tênue
ao entardecer
outono
uma igreja deserta e a
fileira de casas, brancas
ao longe.
(tinha nove cabeças
a serpente)
Na colina, balidos
despertam
meus pensamentos.
As hidras internas
se recolhem.
Um pastor acena.
CHINATOWN
da bolsa de mão deixa cair a arma
a dupla identidade da assassina
suspense na sala de espelho
disparos na sombra, estilhaços
'em shanghai é preciso mais que sorte'
na costa do atlântico
um vórtice de tubarões feridos
tinge de sangue o oceano
o sol evanesce no poente
RÉQUIEM
onze meses depois:
uma pedra sobre o túmulo
reter apenas as
lembranças
necessárias
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